O luto dos pais

Data de publicação: 29/05/2013

Existir supõe aprendizados, e, mesmo nas mortes trágicas e precoces,

devemos acreditar que aquele que partiu realizou e aprendeu o que deveria ter realizado e aprendido


  Por Cleusa Tewes*



 “Se já não podemos vê-los nem ouvi-los com nossos sentidos, podemos, entretanto,  percebê-los com o nosso coração. Eles estão mais próximos de nós do que quando estavam nesta vida”, escreve o médico Evaldo d’Assumpção, especialista em tanatologia.
 

O rio o afogou

Rita perdeu o filho de 19 anos. Nas águas do rio, ele afogou seus sonhos e projetos e inundou o coração da mãe de eterna tristeza. Inconsolada, Rita se pergunta: “Por que a vida levou meu filho?”.

Uma bala o apagou

Luiz e Tânia, pais de Roger, 25 anos. Envolvido com drogas, ele foi morto dias antes do Natal.
A mãe desabafa: “Dói demais. Ele tinha problemas, andava por caminhos obscuros, não obstante, era um filho afetuoso. Não aceito tamanha tragédia...”

O fogo os asfixiou

A recente tragédia, em Santa Maria (RS), abalou o Brasil e o mundo. Até o momento, morreram 236 jovens, asfixiados e queimados. Divertiam-se, e o inesperado incêndio os arrancou de forma trágica do coração da vida, da sociedade, do convívio dos pais.

Ganhos e perdas

A vida transita num zigue-zague entre ganhos e perdas. Ao nascermos ganhamos a vida independente, mas, perdemos o aconchego e a proteção do útero materno e, no mesmo instante, começamos o desafio derradeiro: respirar ou morrer. Há nisso uma contradição? Não! Muito pelo contrário, esse é o projeto de vida que o Altíssimo nos deu: Viver para morrer e morrer para viver. São duas faces da mesma realidade.

A tríade da existência biológica, nascer, viver e morrer, determina tempos diferentes no tempo de cada Ser. Tentamos viver como se a morte não existisse, ou, talvez, como se possuíssemos o controle da vida. 

Mas a morte física é soberana, e, quando vem, nos desperta para a impermanência na matéria, para a finitude do visível, mostrando que a vida na terra é somente uma estação e não o ponto de chegada. E, para não nos assustar demasiadamente, Deus a tornou imprevisível.

Nascemos subordinados ao espírito, cuja morada definitiva é a eternidade. Desde pequenos nos mostram a flor que murcha e morre; o pássaro que sucumbe. Com esses exemplos, querem-nos fazer compreender a dinâmica da vida. Lição difícil! Não é mesmo? Viver é bom, mas dói, ao pensarmos no processo de transformação que ela impõe. 

A vida e a morte, aparentemente ambíguas, parecem envolver um grande jogo de ganhos e perdas.  Em verdade, porém, se crermos e vivermos com fé, esperança, amor, teremos apenas ganhos.

Lutos

O luto é a dolorosa experiência das perdas terrenas.  Provoca sofrimento físico, emocional e espiritual. As alterações físicas podem ser: dores de cabeça, disfunções digestivas e intestinais, fraquezas, desânimos; tristeza, medo, raiva, angústia, choros incessantes, e até depressão, são manifestações de dores emocionais.  Nas perdas trágicas, poderão surgir sintomas de pânico. O luto passa por etapas, durando em média dois anos. Mas isso é apenas uma estimativa. Cada pessoa tem o tempo de elaboração conforme sua condição emocional.

A pessoa enlutada precisa viver as fases do luto. O que auxilia é ter alguém para conversar sobre a dor. Os grupos de apoio ao luto são terapêuticos e por isso recomendados. Se os sintomas debilitarem demais é necessário recorrer aos cuidados médicos. Deve-se ter amorosidade, paciência, escuta e outros cuidados com quem sofre.

O tempo de morrer

Durante a vida até conseguimos planejar ter um filho, mas a morte, que está fora do nosso controle, põe termo ao nosso projeto.  E então concluímos que ela veio fora de hora.  Na opinião do médico Evaldo, isto ocorre “porque ainda estamos limitados ao espaço e ao tempo e temos valores extremamente pequenos e medíocres, mesmo em relação ao verdadeiro sentido da vida”.

Medimos a vida pelo fazer e conquistar. A lógica do existir supõe aprendizados, e, mesmo nas mortes trágicas e precoces, apesar de toda a dor de quem fica, devemos buscar crer que aquele que partiu realizou e aprendeu o que deveria ter realizado e aprendido aqui na terra. Ele cumpriu sua missão terrena. Devemos sempre crer que morrendo a vida continua e se renova e que “O que é visível é passageiro,  mas o que é invisível é eterno.” (2 Cor 4,18).

Jesus passou sua vida explicando que o Pai quer os filhos junto de si, que o seu amor e sua misericórdia são grandes e acontecem. Ele dizia a Jerusalém: “Quantas vezes eu quis juntar teus filhos, como uma galinha que reúne os pintinhos debaixo das asas, mas tu não quiseste” (Lc 13,3-4).

Quando a expressão biológica morre, a individualidade se transforma e continua. Na individualidade, ainda estão vivos os entes queridos que partiram e vivem numa realidade  que a maioria de nós desconhece, porque ultrapassa os limites da pura compreensão humana. Acreditando ou não, eles estão aqui, juntinhos de nós.

Mãe, cuide da dor dos pais. Amém!


*Cleusa Tewes é terapeuta familiar e especialista em orientação familiar.




Fonte: Família Cristã 927 - Mar/2013
Postado por: Família Cristã




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