Enxergar sem ver

Data de publicação: 05/06/2013

Por  Karla Maria
Fotos: Sonia Mele


Ver além do olhar e encerrar o capítulo do medo ao escrever histórias além do que se pode ver e prever é a missão da Fundação Dorina Nowill para Cegos, que ajuda adultos, jovens e crianças a enxergarem sem ver

O pai e a mãe ensinam, os filhos aprendem e brincam. Esse seria o roteiro comum de uma família comum, mas a história a seguir foge da vida cotidiana e dá espaço a um pequeno protagonista, capaz de reescrever não apenas sua história, como a de seus “pais”.

O pequeno é Kauan Uchôa Souza. Em sua história, que soma 6 anos de vida, já registra cenas de superação e abandono, reencontro e amor. Kauan tem catarata congênita, possui entre 5%
 e 10% de acuidade visual no olho esquerdo, e alguns especialistas já garantem que seu futuro é de cegueira total.

A história de Kauan é uma das 17 mil que já tiveram a Fundação Dorina Nowill para Cegos como cenário. Fundada por Dorina Nowill, há 66 anos, a entidade busca dar luz à vida de pessoas com deficiência visual. E foi entre um dos atendimentos da entidade  que econtramos Kauan e sua família.

No começo da conversa, o pequeno estava quieto, introvertido. Com os olhos voltados para um papel branco, pintava de verde um esboço que afirmava ser o de um carro. Por que verde? É a cor do seu time do coração, o Palmeiras, time pelo qual torce junto com o avô, Lindolfo Moreira dos Santos, 72 anos.

“Sou avô dele de coração, meu filho namorava a mãe do Kauan, a Giovana de Souza Pereira, e um dia ele apareceu lá em casa, nos apaixonamos pelo menino”, disse o pai-avô do coração de Kauan. A fala do avô se alternava entre silêncio e lágrimas, entre uma bronca e outra ao pequeno palmeirense, que ignorava os obstáculos e saía dirigindo sua motoca pelo parquinho da fundação.

“Aquele ali é o meu tesouro”, disse senhor Lindolfo, que além do carinho deu oportunidades de vida mais digna à nova família de seu filho, Leandro Luiz Barbosa, tirando-os do aluguel e construindo uma casa, no mesmo terreno que o da sua, no Parque Amélia, zona leste da capital paulista.

Encerrado o percurso com sua motoca, Kauan, ainda com uma certa timidez, disse que deseja ser policial e que gosta da praia e de sentir a areia. Segurando a mão do avô, como quem segura algo de muito valioso, soltou: “Eu amo este meu ‘pai”’.

Para Lindolfo, o acompanhamento que Kauan recebe na fundação é essencial para que ele tenha uma qualidade de vida melhor. “Ele saía batendo nas coisas, e eu ficava preocupado, mas agora ele está se virando melhor, tem aprendido bastante aqui”, afirmou.

E quem ensina é a professora Edni Fernandes Silva. “Aqui realizamos atividades para discriminação de cor, textura e formas geométricas. Estou tentando explorar ao máximo, porque assim que ele tiver a perda total da visão, permanece no cognitivo uma memória visual, o que facilitará a aprendizagem quando partirmos para o braile”, explicou a professora, que também se vê, em certas ocasiões, como uma aprendiz.

“A maior resposta que tenho é o carinho e o desenvolvimento dele. Ele me ensina muito, e a gente faz uma reflexão dia a dia das nossas posturas e de como a gente deve agir”, disse a professora, com seus 42 anos. Kauan está no pré-primário, em uma escola perto de sua casa, e lá, não existe um tratamento específico para crianças com deficiência visual. Quando a escola tem dúvidas sobre a metodologia de ensino, recorre também à fundação.

Enxergar o invisível − “A palavra inclusão é muito simples de se falar, mas colocá-la em prática é uma questão mais complexa, até se torna uma utopia”, disse a professora Edni, para quem incluir não significa colocar a criança com deficiência em uma sala com outras 40 pessoas. “É preciso proporcionar recursos, estratégias de trabalhar com a criança. Incluir é criar subsídios, meios de ela se inserir novamente no mundo”, concluiu.

Segundo dados da Agência Internacional de Prevenção à Cegueira, órgão ligado à Organização Mundial da Saúde (OMS), pelo menos 100 mil crianças brasileiras possuem algum tipo de deficiência visual. Cerca de 15 milhões de crianças em idade escolar apresentam algum erro de refração capaz de gerar problemas de aprendizado, baixa autoestima e dificuldades de inserção social.

A preocupação da professora e a missão da Fundação Dorina Nowill, em educar para a inclusão se assemelham à teoria do psicólogo bielorrusso Lev Vygotsky, para quem os fatores ambientais e dentro desses, os sociais e os culturais, são fundamentais nos processos de desenvolvimento e aprendizagem.

Já o psicólogo americano Jerome Bruner, ao discutir as relações entre cultura e biologia, destaca o papel da cultura no desenvolvimento: “A cultura e a busca por significados são a mão modeladora, a biologia, o que no caso seria a cegueira, é a restrição e caberia à cultura deter o poder de afrouxar essas limitações”. Kauan vem afrouxando suas limitações, tateando formas, modelando sua história, porque teve a oportunidade, recebeu os instrumentos.
Em seus estúdios, a Fundação Dorina grava livros e revistas em áudio no formato MP3, com o objetivo de oferecer às pessoas com deficiência visual mais uma opção de acesso à informação atualizada, à literatura, ao conhecimento. “A gente se sente os olhos e a companhia do deficiente”, afirmou Nilcéia Parize, 52 anos, que cede a sua voz a centenas de revistas e livros falados, gravados pela entidade e à disposição em diversas bibliotecas do País.

Mover-se para ver além – É com os livros em áudio que Kauan descobre outros mundos, e, em breve, quando for alfabetizado, poderá também ter acesso aos livros em braile, já que a fundação é responsável hoje por 80% de tudo o que se produz no Brasil, nessa forma de linguagem.  Quem já pode desfrutar da biblioteca é Jaqueline Lima Siqueira, que desde abril frequenta a fundação.  Aos 23 anos, a jovem tem deficiência visual total e encontra na entidade filantrópica apoio para treinar sua mobilidade com fisioterapia e agora sua escrita, também com a professora Edni. “Estou fazendo reabilitação para escrever à tinta, é difícil, só sei escrever em braile, mas quero assinar com tinta”, diz Jaqueline, que tem um motivo especial, quer assinar a certidão de seu casamento.
Acompanhada pelo gerontólogo Jefferson Pedroso, 47 anos, a reportagem ousou caminhar de olhos fechados para testar a mobilidade. Foram 50 metros de escuridão, de uma marcha lenta e desequilibrada, de mãos aflitas tentando amparar a possível queda.

Jaqueline, a noiva, parecia enxergar o desequilíbrio da repórter e sorria como quem zombasse da dificuldade de quem, segundo a ciência, a biologia, não possui obstáculos para enxergar. 
Jaqueline, assim como Kauan, enxerga além do que se vê. Seja com a bengala, ou dirigindo a motoca, ambos encerraram o capítulo do medo e escrevem novas histórias capazes de ensinar mais do que aquilo que se pode ver e prever.

Dorina de Gouvêa Nowill, a fundadora da entidade, ficou deficiente visual aos 17 anos, morreu em 29 de agosto de 2010, aos 91 anos de idade. Em uma de suas tantas mensagens deixadas, encontramos: “Vencer na vida é manter-se de pé quando tudo parece estar abalado. É lutar quando tudo parece adverso. É aceitar o irrecuperável. É buscar um caminho novo com energia, confiança e fé”.

Solicite livros gratuitamente
A Fundação Dorina realiza um serviço às pessoas com deficiência visual: a transcrição de obras de qualquer gênero para formatos acessíveis. O objetivo é atender individual e gratuitamente às necessidades de material para estudo, pesquisa ou trabalho de pessoas totalmente deficientes visuais e com baixa visão. Para fazer o contato, utilize: biblioteca@fundacaodorina.org.br (11) 5087-0991.









 




Fonte: Família Cristã 922 - Out/2012
Postado por: Família Cristã




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