Antiga e jovem

Data de publicação: 11/06/2013

Por Andreza Espezim

A Igreja de pedra de Rio Maior, município de Urussanga no estado de Santa Catarina, foi construída com o coração pelos imigrantes italianos há 100 anos em homenagem aos santos Gervásio e Protásio


Eles vieram de muito longe, de Erto e Casso, Provincia di Pordenone, na Itália e aportaram no Brasil, fixando morada em Rio Maior, município  de Urussanga. Fizeram história com as próprias mãos, deixando um legado de trabalho e fé na construção de uma Igreja e na cultura de um povo. A 185 quilômetros da capital catarinense, Florianópolis, está um dos principais espaços da colonização italiana ao sul do estado. Os imigrantes que fixaram residência na região eram pedreiros capazes de transformar pedras em belíssimas obras, apenas com o corte do machado, e ajudaram na construção de estradas de ferro, pontes, fábricas e casas. É na localidade de Rio Maior, um bairro de Urussanga, que as pedras firmaram a fé de um povo, pela união, perseverança e determinação na construção da Igreja de São Gervásio e São Protásio.

Os imigrantes chegaram em 1878, por mais de 30 anos trabalharam na agricultura, ajudando uns aos outros, como num mutirão. Tinham como objetivo crescer, casar os filhos e que cada um tivesse a sua família e seu pedacinho de terra para plantar e tocar a vida. E conseguiram!

Passado o tempo difícil de chegada ao Brasil, cumpriram a promessa que tinham feito quando saíram da Itália e chegaram a essa terra, de construir uma igreja de pedra em honra aos santos de Erto e Casso, os santos Gervásio e Protásio.

São Gervásio e São Protásio – De Milão, na Itália, eram irmãos gêmeos. Com a morte dos pais, venderam tudo o que a família tinha, distribuíram aos mais necessitados e foram morar num casebre, onde passaram dez anos em meditação e oração. Denunciados como cristãos, não negaram a fé, por isso foram mortos. Quando as relíquias dos santos seguiram para a Basílica de Santo Ambrósio, um açougueiro cego as tocou e conta-se que recuperou a visão. Com este milagre, a devoção aos santos ficou ainda mais fervorosa. Dia 19 de junho é a data em que se celebra o aniversário da solene transladação das relíquias, por isso festeja-se São Gervásio e São Protásio.

A igreja de pedra – No dia 25 de fevereiro de 1911 aconteceu a primeira reunião, decidiram que a igreja deveria ser de pedra, como a de Erto e Casso, na Itália. Formaram várias comissões para dividir os serviços e a obra foi concluída em 1912, a única em Santa Catarina com esse tipo de arquitetura. A matéria-prima principal do seu feitio é a pedra rebolo, encontrada facilmente nas proximidades da igreja. Possui planta retangular simples com campanário separado do corpo principal da edificação. A torre atual corresponde à segunda torre e foi erguida em torno do ano de 1940, em substituição à torre de madeira. Foi edificada aos poucos, sendo construída com tijolos e cimento, e , quando pronta, recebeu o sino, que tem mais de 130 anos. O sino é feito de cobre, zinco e estanho. Antes de construírem essa igreja de pedra igual à que tinham na Itália, primeiro fizeram uma pequena capela com paredes de tábuas serradas a braços e com a cobertura de tabuinhas.

Presença pastoral – Os padres Luigi Gilli e Agenor Neves Marques acompanharam a construção e a primeira reforma da Igreja de Rio Maior. Padre Luigi Gilli chegou ao Brasil em 1904, para o atendimento aos imigrantes e colonos italianos. Foi trabalhar na paróquia Nossa Senhora da Conceição, em Urussanga. Para ajudar nos trabalhos, a Paróquia recebeu o padre Agenor Neves Marques, em 1948, que trabalhou por 50 anos na região. Durante esse tempo, acompanhou a primeira reforma da Igreja de Rio Maior, quando foi mudado o altar, por conta da reforma litúrgica. Quando assumiu a paróquia, padre Agenor começou a presidir a missa com transmissão pela rádio, empenhou-se na catequese de crianças e adultos, dando catequese de madrugada, de manhã e à tarde. Sempre visitava e acompanhava os mineradores do carvão, pois a região sempre teve muitas minas.

Histórias contadas – “Quando uma tempestade está se aproximando, parece que o mundo vai acabar, mas é só tocar o sino e fazer uma forte oração, que a chuva se espalha, tudo fica limpo”, conta Antônio De Lorenzi Cancellier, 90 anos, o mais antigo tocador do sino da Igreja de Rio Maior. Antônio é neto de imigrante e relata que, além dele, cerca de 40 pessoas ajudaram na construção da igreja: “Todos ajudavam, inclusive as mulheres, que faziam a polenta para que os homens tivessem força para o trabalho. Eles carregavam as pedras nos carros de boi e depois cortavam com o machado. Esse povo italiano veio de navio e trouxe a promessa de construir a igreja para os santos”, finaliza.

Marique e Guilherme Bocardo Dezan
Maria Mazzucco Dezan, Marique Maria Adelaide Frol Mazzucco
Maria Adelaide Frol Mazzucco, 91 anos, conta que todos eram muito pobres, mas se ajudavam: “Meus avós vieram da Itália junto com os imigrantes que construíram a igreja. Eram pobres e faziam tudo em unidade. Todos se ajudavam no trabalho, homens, mulheres e crianças. E depois, iam à missa, a família inteira. As rezas eram em latim, a missa, o ofício dos mortos e o terço”, relembra Maria. Naquela época, contam os mais idosos, quando o padre ia presidir missa nas capelas, a chegada dele era anunciada com o toque do sino, foguetes ou um tiro de morteiro. Com as grandes secas, eram organizadas procissões, com rezas e cantos em italiano.

Maria Mazzucco Dezan, conhecida como Marique, 83 anos, foi uma das noivas a se casar na Igreja de São Gervásio e São Protásio de Rio Maior. Em 1952, ela e o esposo, Guilherme Bocardo Dezan, já falecido, também batizaram uma criança no dia da celebração do seu casamento: “O padre Agenor celebrou o nosso casamento e o batizado. Naquela época, os noivos entravam juntos na igreja. Tinha uma cerquinha onde todos se ajoelhavam para receber a Comunhão. No altar havia um desenho bem grande, muito lindo, de São Gervásio e São Protásio, que os imigrantes trouxeram da Itália. Depois de um tempo, padre Agenor conseguiu criar as estátuas dos santos”, conta Marique, lembrando com saudade. “Os imigrantes ficavam mais de um ano sem missa. Todos da família tinham que ir aos cultos e missas. A minha família levantava às 4 horas da madrugada, andava 3 quilômetros para chegar à igreja, fazer a confissão individual e depois participar da celebração. As pessoas tinham muita fé. Parece que hoje se tem muito estudo, se quer saber mais que Deus, e não se vive a religião como deveria, como os de antigamente”, finaliza Marique.

Patrimônio histórico – A Igreja de São Gervásio e São Protásio de Rio Maior foi tombada em 14 de novembro de 2007, pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN). O tombamento é um dos resultados do Projeto Roteiros Nacionais de Imigração, que vem sendo desenvolvido pelo IPHAN.

O projeto tem o objetivo de conhecer, registrar e divulgar a cultura, relacionado à língua, culinária, música, arquitetura, cultura, que foram trazidos pelos povos que vieram para o Brasil. Segundo Ana Paula Cittadin, arquiteta e urbanista, chefe do Escritório Técnico de Laguna, do IPHAN, a pesquisa possibilita conhecer e registrar a cultura de muitos povos imigrantes: “Está sendo realizado em Santa Catarina um levantamento das edificações com valores histórico e cultural para o País. Já foram identificados vários espaços da cultura italiana, alemã, ucraniana e polonesa”, conta Ana Paula.

Durante essa pesquisa, a Igreja de São Gervásio e São Protásio foi identificada como importante registro da imigração no Brasil: “A técnica construtiva, os materiais de acabamento e os bens registrados a esse patrimônio religioso são registros da cultura italiana na Igreja de Rio Maior. Por isso, ela foi tombada e é patrimônio de todos os brasileiros. Também em Urussanga, mais de 30 edificações foram identificadas e registradas como importantes para a história da imigração italiana em nosso país”, conclui Ana Paula. A igreja já havia sido tombada em 19 de março de 1976, como Patrimônio Histórico do Município de Urussanga e em 23 de novembro de 2001, como Patrimônio Histórico de Santa Catarina.

100 e 110 anos de Igreja – A comunidade de São Gervásio e São Protásio de Rio Maior está se preparando para a grande festa do centenário. Um resgate histórico vem sendo organizado e vai ser apresentado num livro. Segundo Célia Terezinha Mazzucco, ministra da Eucaristia e responsável pela pesquisa e resgate da história de Rio Maior, é preciso celebrar para agradecer: “Temos que celebrar em agradecimento pelas preces e súplicas atendidas, pelas inúmeras graças alcançadas ao longo destes 100 anos e para louvar e bendizer ao Senhor por todos aqueles que testemunharam com a sua própria vida, trabalhando pela igreja, dando continuidade à fé herdada dos antepassados. Que esse momento nos encoraje à continuidade da preservação de tão importante monumento religioso”, ressalta Célia.

A comunidade de Rio Maior faz parte da Paróquia Nossa Senhora da Conceição de Urussanga, que tem 45 comunidades. Muitas já completaram o seu centenário de existência, mas, de acordo com o padre Joel Sávio, vigário paroquial, essa celebração de 100 anos da Igreja de Rio Maior mostra que a comunidade não envelheceu: “É sempre bom chegar ao centenário com os olhos voltados para o futuro. A comunidade de Rio Maior é uma daquelas comunidades que mesmo com a idade avançada é jovem, cheia de disposição e pronta para as mudanças. Traz consigo um rosto juvenil, expresso pelo bom número de jovens que ali residem, misturado com a experiência e a sabedoria dos mais idosos”, afirma padre Joel.

A Paróquia Nossa Senhora da Conceição, que pertence à Diocese de Criciúma, comemora 110 anos de existência. Padre Joel se lembra do povo que preserva suas tradições e também dos desafios pastorais: “Mergulhados num tempo em que os vínculos permanentes estão cada vez mais escassos, celebrar 110 anos de existência de uma paróquia é realmente uma dádiva. Urussanga é uma cidade salutar, pois guarda com carinho suas tradições e, ao mesmo tempo, esboça o desejo das novidades. Consegue mesclar o antigo e o novo, sem criar abismos entre estas duas realidades. O povo urussanguense é temente a Deus, preserva suas tradições e participa muito bem das atividades comunitárias. A verdadeira vivência sacramental, a juventude, a realidade familiar e os empobrecidos continuam sendo os grandes desafios de nossa pastoral. A celebração dos 110 anos será mais um motivo para que a comunidade continue caminhando, atenta às mudanças e vivenciando sua fé cristã”.

Comunidade de São Gervásio e São Protásio na celebração da Liturgia Dominical Padre Joel Sávio, vigário paroquial de Urussanga Antônio De Lorenzi Cancellier, o mais antigo tocador de sino da Igreja de Rio Maior, neto de imigrantes italianos
Fontes para esta reportagem: Comunidade de Rio Maior, Livro Rio Maior e padre José Artulino Besen pelo site: pebesen.wordpress.com




Fonte: Família Cristã 918 - Jun/2012
Postado por: Família Cristã




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