É do Brasil

Data de publicação: 13/06/2013

Antônio Edson

O pesquisador e médico sanitarista, Gilson Carvalho, mestre e doutor em Saúde Pública, afirma que o SUS é de cada um de nós, e que é preciso lutar para que ele aconteça com suficiência e eficiência, pois é propriedade do cidadão brasileiro.



O SUS (Sistema Único de Saúde) tem uma certidão de nascimento: a Constituição Federal de 1988, a chamada Constituição cidadã. Como resultado de um concerto interpartidário realizado durante a última Assembleia Constituinte, que reuniu representantes de todo o espectro ideológico do mundo político, o SUS deve ser visto como um filho que necessita de investimentos para se formar e não como um deficitário sorvedouro de verbas. É o que pensa um de seus “padrinhos”: o pesquisador e médico sanitarista Gilson Carvalho (foto), mestre e doutor em Saúde Pública pela USP (Universidade de São Paulo). Não fossem, à época da Constituinte, as gestões dos Movimentos Municipalista da Saúde e da Reforma Sanitária, em que Gilson esteve “metido dos pés à cabeça”, talvez o Brasil não tivesse hoje a legislação de saúde pública mais universal do mundo capitalista. Melhor mesmo só a de Cuba, onde é proibido mercantilizar os serviços de saúde, e os médicos são tão pobres quanto seus pacientes...

FC – Por que é importante preservar e melhorar o SUS e não engrossar o discurso de que “tudo que é público não funciona e só presta o que é privado”?

Dr. Gilson Carvalho – Todos usamos o SUS, que é de cada um de nós, cidadãos brasileiros, e temos que lutar para que ele aconteça com suficiência e eficiência. Ele pertence ao povo brasileiro! Devemos ter um cuidado permanente para zelar por ele, e com prudência. Devemos apontar as deficiências do SUS como fazemos com nossas(os) companheiras(as) e filhos. Com amor, visando à melhora, ao progresso e não à destruição e à desmoralização. Todos os setores da sociedade, públicos e privados, civis, religiosos ou militares, têm suas qualidades e seus defeitos. Apontá-los é obrigação constante de todos nós, assim como trabalhar para que diminuam e sejam corrigidos. Daí a importância de vermos o SUS como propriedade do cidadão e não apenas dos governos. Você e eu temos nossas responsabilidades.

FC – Quais?

Dr. Gilson – Ora, precisamos pensar no que diz a própria lei: a saúde é dever do Estado. Mas também não podemos retirar a responsabilidade dos indivíduos, das famílias, das empresas e da sociedade. Todos precisamos cuidar da saúde, preventiva e curativamente. Não podemos entregar totalmente essa responsabilidade aos governos. Devemos sempre nos perguntar: você e eu estamos cuidando da saúde?

FC – A CNBB parece estar se perguntando isso. O senhor achou adequado essa entidade pautar o tema da saúde pública para uma das Campanhas da Fraternidade?

Dr. Gilson – Excelente. É muito importante que todos nos juntemos para garantir este direito do povo brasileiro que é ter assegurado seu direito à vida e aos cuidados de saúde. A Igreja Católica tem uma importância muito grande na vida dos brasileiros e seu interesse em abordar o tema saúde é essencial. A Igreja precisa se preocupar em fazer seus fiéis cuidarem da própria saúde; fazer aqueles que trabalham com a saúde o façam com compromisso e ética; fazer com que todos lutem para ter um serviço público de saúde cada vez melhor e, essencialmente, fazer os governos cumprirem a obrigação constitucional de garantir saúde para todos.

FC – O senhor, que viu esse sistema nascer no final dos anos 1980 e tanto trabalhou por ele, que avaliação, de 0 a 10, faria do SUS hoje?

Dr. Gilson – O SUS nasceu de um esforço coletivo de toda sociedade e foi uma conquista difícil. Em compensação, temos uma das melhores legislações de saúde do mundo. E também alguns problemas, claro! Afinal, somos acostumados a pensar naquilo que nos falta e não no que já conquistamos! É preciso nos lembrarmos de que, antes da Constituição Federal, as pessoas eram tratadas como indigentes. Só depois dela passaram a ser cidadãos portadores de direitos! Por isso, se fosse dar uma nota ao SUS, diria, antes, que mais já fizemos do que nos falta fazer, e daria uma nota entre 6 e 7, dependendo da área. Para vacinação, banco de leite, banco de sangue, acesso a tratamento da AIDS, eu poderia falar em quase 10. Para outras áreas, daria 9 ou 8. A média, para mim, ficaria entre 6 e 7.

FC – Do previsto na Constituição, o que já funciona bem no campo da saúde pública e o que ainda precisa funcionar melhor?

Dr. Gilson – Pessoalmente, gosto muito de pensar em ações de pro¬moção e proteção que se enfeixam na prevenção. Nosso maior feito, admirado pelo mundo, são as campanhas de vacinação. Há pratica¬mente 30 anos estamos sem paralisia infantil no Brasil! Todo ano fazemos no Brasil, um País de dimensões continentais, campanhas que se superam. Em 2008, batemos nossos próprios recordes e vacinamos cerca de 60 milhões de brasileiros contra a rubéola. Em 2010, batemos a marca, vacinando 90 milhões contra a gripe H1N1. Podemos, também, pensar nos exames preventivos de câncer, no atendimento pré-natal e nas consultas de puericultura, na distribuição universal de medicamentos de hipertensão e diabetes. Além disso, há dezenas de outros medicamentos sem ônus direto, a não ser o dos impostos e contribuições.

FC – E o que falta funcionar melhor?

Dr. Gilson – Não damos conta de atender todas as pessoas. Não porque limitamos ou impedimos algum cidadão de ser atendido, mas porque o sistema ainda não tem capacidade para isso. Outros problemas são as ineficiências estrutural e do cuidado humano nas relações entre as pessoas. Sofremos de uma crise ética em que a ação das pessoas no trabalho parece nada ter a ver com seus compromissos humanos!

FC – Por que há essa dificuldade em se pôr em prática o que existe na Constituição?

Dr. Gilson – Existem causas múltiplas. O maior desafio hoje do SUS é garantir o tudo para todos, fazer cumprir um preceito constitucional em um País de iniquidades que não ficam restritas à saúde. Eu me refiro às iniquidades de renda, de distribuição de recursos, de distribuição de bens, de oportunidades de trabalho, educação etc.

FC – O senhor, mais de uma vez em seus artigos, resumiu em cinco as deficiências do SUS. Quais seriam elas?

Dr. Gilson – A primeira é que precisamos de “mais Brasil”. A própria Constituição afirma que a saúde depende de razões econômicas e sociais, como emprego, salário, casa, comida, educação, cultura, saneamento, meio ambiente, transporte, lazer etc. Ora, quando estas questões não são atendidas, há maior risco de as pessoas adoecerem ou não recuperarem a saúde. O segundo fator é que precisamos de mais “saúde-SUS”. Chamamos de modelo de fazer saúde a organização dos cuidados e o pior modelo de todos é o que espera a pessoa adoecer para prestar atendimento. O modelo SUS, o da Constituição, promove a saúde, procura prevenir doenças através de vacinas, exames e programas de recuperação para quem já está doente. Não enfatiza uma dessas ações, mas as três. Precisamos seguir isso.

FC – O que mais é preciso?

Dr. Gilson – Eficiência para uma melhor relação custo-benefício. Conseguir sempre o melhor resulta¬do ao mais baixo custo. Mas, muitas vezes, usamos métodos equivocados, desordenados e obsoletos que levam à perda de recursos. Os objetivos e resultados são alcançados apenas a altos custos e, ainda assim, não é sempre que conseguimos êxito. São necessários melhores protocolos de conduta e rotinas de serviços, controles mais efetivos! Hoje é imprescindível o uso da informática.

FC – Ainda faltam dois fatores.

Dr. Gilson – Mais honestidade. A sociedade brasileira vive num estado de corrupção consentida. Em todos os setores. A saúde não está imune a isto. Há desvio de dinheiro em compras falsas ou superfaturadas, por exemplo. Uma corrupção, nem sempre percebida, é ganhar por um determinado trabalho e não cumpri-lo: não indo, chegando tarde e saindo cedo, ou mesmo indo e não produzindo. As formas de corrupção são extremamente criativas.

FC – A corrupção acaba fazendo o sistema absorver mais recursos, certo?

Dr. Gilson – Mas a necessidade de mais recursos é o quinto fator. É real. Se o SUS contasse com os mesmos recursos dos planos de saúde, por cliente, ele precisaria de mais 160 bilhões de reais. E olhe que o SUS presta muito mais serviços do que qualquer outro plano, desde ações preventivas até os procedimentos mais complexos como os transplantes. Como fazer tudo para todos com pouco dinheiro? É uma ilusão pensar que sem dinheiro vamos conseguir. E seria melhor não termos essa ilusão, ao menos por enquanto. No final de 2011, a saúde pública sofreu um revés. Estávamos há nove anos buscando mais recursos, esperamos por uma lei que finalmente foi votada em 8 de dezembro. O resultado: os parlamentares negaram. Legalmente, só conseguiremos outra oportunidade dessas daqui a cinco anos. Até lá...






Fonte: Família Cristã 914 - Fev/2013
Postado por: Família Cristã




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