De volta à terra

Data de publicação: 17/06/2013

César Vicente
Fotos Sonia Mele


Uma experiência na Favela da Vila Prudente, a mais antiga de São Paulo, une diferentes congregações, revigora o modelo de comunidade e serve de exemplo para outras iniciativas



Criadas pelo Concílio Vaticano II (1962-1965), estimuladas pelo Documento de Medellín (1968) e relegadas a segundo plano nas últimas décadas, as Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) voltaram ao centro das atenções da hierarquia da Igreja Católica na última Assembleia Geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), realizada em Aparecida (SP), em abril. Isto porque, não por acaso, a perda de espaço e de fiéis nas periferias e regiões mais pobres do País foi, finalmente, associada à falta de incentivo às CEBs. “Os pobres foram para a periferia, e a Igreja não foi. Os pobres foram para a Amazônia, e os padres também não foram. O único apoio, nesses lugares, é a capelinha dos pastores”, comparou padre Humberto Guidotti, um histórico incentivador das CEBs. A hora de revigorá-las chegou, segundo dom Severino Clasen, bispo da Diocese de Caçador (SC) e presidente da Comissão Episcopal Pastoral para o Laicato, da CNBB. “Elas são um jeito de fazer os leigos da base começarem, de novo, a se articular”, garantiu.

Na verdade, o início da retomada das CEBs se deu em 2007 durante a 5ª Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano e do Caribe, do Conselho Episcopal Latino-Americano (Celam), que resultou no Documento de Aparecida, cujo relator foi o então arcebispo da Arquidiocese de Buenos Aires (Argentina) dom Jorge Bergoglio, atual papa Francisco. A versão original do Documento trouxe trechos bastante favoráveis a elas. “As CEBs têm sido escolas de formação de cristãos comprometidos. Como células de estruturação, não podem perder a dimensão da fé. São sinais de vitalidade da Igreja”, diz o 5º capítulo do Documento, que acabou por inspirar uma ação na favela mais antiga de São Paulo (SP), a da Vila Prudente, surgida em 1940, e que pode servir de modelo para a Igreja: a Comunidade Intercongregacional de São José Operário. “Depois de ler o Documento, quis pô-lo em prática. Em 2009, procurei a Conferência dos Religiosos do Brasil, a CRB, e propus criarmos, na favela, uma comunidade com diferentes congregações religiosas”, lembra o padre irlandês Patrick Clarke.

Caminhando com o povo – A Comunidade foi instalada nessa favela em 2010, e  o padre Patrick a conhece há 35 anos, desde seus primeiros tempos de Brasil. “Eu me apaixonei por essa favela porque nela há coisas que a sociedade vem perdendo: comunhão, simplicidade, acolhida, proximidade e disponibilidade”, enumera. Tais qualidades também encantaram a irmã Geni dos Santos Camargo, da Congregação Sagrada Família de Bordeaux e presidente da CRB/Regional São Paulo. “Submetemos a proposta à votação em uma assembléia, e ela foi aprovada.

O compromisso da CRB é manter ali, ao lado de membros da própria comunidade, um grupo de quatro irmãs de diferentes congregações com o objetivo de realizar um trabalho pastoral e missionário de evangelização. O foco principal da missão é a presença e o companheirismo junto ao povo”, afirma. Atualmente, fazem parte da missão as irmãs Zenaide dos Santos (Missionárias de Ação Paroquial), Augusta Culpo (Congregação das Filhas de Maria Missionárias), Marivone Gomes (Congregação das Pequenas Missionárias Eucarísticas) e Silvia Serra (Missionárias da Imaculada).

O maior problema da favela encontrado pelas irmãs foi a falta de espaço. “As famílias vivem em casas apertadas, e as crianças nem sequer têm lugar para brincar. Elas são praticamente obrigadas a ficar nas ruas enquanto os pais trabalham longe”, confirma a irmã Genoveva Correa (Congregação das Filhas de Maria Auxiliadora), pioneira do grupo que inaugurou a Comunidade Intercongregacional em outubro de 2010. “Foi quando nossa casa, extremamente simples como todas as demais e construída com recursos da Comunidade, ficou pronta e nos mudamos.

Fomos bem acolhidas e, no meu caso, só deixei o projeto porque o período máximo na missão é de três anos. Até queria continuar, mas a idade não permitia. Tenho 81 anos e aqui passamos o tempo todo nas ruas, caminhando”, testemunha irmã Genoveva, cujo trabalho teve seu foco na catequese de crianças, jovens e adultos, na formação de novos catequistas, preparação dos sacramentos, tríduos, novenas e, principalmente, em tudo o mais que era necessário. “Aqui não se escolhe serviço”, completa.

Ruas, casas, barracos – “A experiência do convívio de religiosas de diferentes congregações em uma mesma missão, em uma favela de uma metrópole urbana, é de profunda conversão pessoal. Pessoalmente, fico admirada pela resistência desse povo em vencer as dificuldades do cotidiano, como a violência, o emprego mal remunerado e a falta de serviços públicos. Em meio a esses e outros problemas, há um número imenso de famílias preocupadas com a formação de seus filhos. Por isso, aqui, nós temos mais a aprender do que a ensinar”, relata irmã Augusta Culpo, integrada à missão no início deste ano e já familiarizada com a rotina da favela. Esse ensinamento, claro, se dá diariamente e no corpo a corpo com o povo. “Precisamos estar disponíveis 24 horas por dia, principalmente para os mais excluídos”, completa irmã Augusta.

Para dom Edmar Peron, bispo auxiliar da Arquidiocese de São Paulo e responsável pela Região Episcopal Belém, o primeiro sinal de valorização dessa nova Comunidade está no fato de ela trazer para dentro de si vários carismas, que, juntos, se colocam a serviço da evangelização. “Trata-se de uma experiência viva, aberta e voltada verdadeiramente para a população. A prova disso é que em todas as vezes que visitei a casa das irmãs, na favela, nunca encontrei todas. Por quê? Porque elas estavam nas ruas, nas casas, nos barracos, junto com as pessoas. Isso se chama fraternidade. Seria muito bom vermos isso acontecendo Brasil afora, em outras comunidades”, projeta dom Edmar. É o que também muitos outros esperam. “Precisamos reavivar o carisma de nossos fundadores, deixar os conventos e as clausuras e optar, verdadeiramente, pelos pobres”, avisa o padre Patrick Clarke.







Fonte: Família Cristã 930 - Jun/2013
Postado por: Família Cristã




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