A criação como sacramento

Data de publicação: 03/07/2013

Frei Luiz S.Turra, ofm cap. *

 

“Em toda a criação pulsa uma linguagem de Deus. Quando se começa a prestar atenção a esta linguagem, vive-se com mais realismo e otimismo diante de tudo.”


São muitos os modos de interpretar a natureza: como objeto de resistência, conjunto de utensílios, campo de pesquisa, terreno de exploração, cenário da atividade humana, fonte de inspiração estética, horizonte divino etc...

O certo é que, hoje, se faz necessário um novo diálogo dos humanos com a criação. A criação tem mil vozes e tantos rostos. Tudo faz ressoar a voz da palavra criadora que não emudeceu, mas continua proclamando: “Faça-se!”.

É claro que, ao falarmos da criação como sacramento, não atribuimos a ela o mesmo valor e densidade sacramental que damos a Cristo e à Igreja. Porém, a luz da fé nos faz ver além do que os olhos veem e os sentidos captam.

Deus comunica e se comunica de muitos modos. Toda a criação é um livro sacramental no qual podemos ver, ler e entender sua presença atuante, imprimindo as marcas de seu amor criativo e sempre novo. O próprio Criador está presente em sua realidade criada, como o artista está presente em sua obra de arte.

Tudo era muito bom (cf. Gn 1,31)
  
No coração das realidades criadas, há uma realidade incriada. Em toda a criação pulsa uma linguagem de Deus. Quando se começa a prestar atenção a esta linguagem, vive-se com mais realismo e otimismo diante de tudo. “Em meu caminho, percebo as belezas que vêm da terra, do céu e do mar. Tudo me fala do amor do Criador. Oh! Meu irmão, para ver basta querer. Que lindo é sentir a Deus em cada rosto do universo! A criação sempre dirá: ‘Obra de amor tu verás em mim’” - frei Wilson João Sperandio.

Todos os bons jardineiros da criação se tornaram assim,]firmados na raiz de um constante exercício contemplativo. Nesta raiz está uma certeza básica: o mundo que saiu das mãos de Deus traz as marcas originais da bondade e da beleza. A vida do cosmo aponta para uma vida supracósmica. Todo o mundo das criaturas tem uma virtude sacramental.

Quem não vê e quem vê   

“Deus não está longe de cada um de nós” (At 17,27). Tantas vezes nos vemos separados de nossa raiz e dispersos em nossas ilusões. Deus não aparece a um olhar qualquer. A insensibilidade turva o olhar do coração. Para o indiferente, a criação não passa de um conjunto de objetos irrelevantes. Deus não aparece a um olhar anônimo e superficial que se contenta com o que e o como das coisas, sem chegar ao porquê do encantamento da vida.

É evidente que Deus também não aparece a uma pessoa dominada pelo interesse, pela ganância, que se preocupa em acumular e desfrutar egoisticamente de tudo. Um olhar dominador também não consegue se abrir à gratuidade do amor . São João da Cruz dizia que, para se chegar à contemplação, a pessoa deve abandonar o espírito de posse e adotar o espírito de pobreza e despojamento.

Só o  “terceiro olho”, o olhar do coração, nos abre para dimensões ocultas à visão superficial. “Não queiras sair de ti mesmo, é no homem interior que habita a verdade” santo Agostinho.

Conclusão

Com razão dizia o apóstolo Paulo aos romanos: “De fato, desde a criação do mundo, as perfeições invisíveis de Deus, tais como o seu poder eterno e sua divindade, podem ser contempladas, através da inteligência, nas obras que Ele realizou” (Rm 1,20). Toda a criação é uma manifestação de Deus, que, no Espírito a impulsiona para “um novo céu e uma nova terra”.

Na medida em que vamos nos tornando capazes de admirar e contemplar, de escutar e interpretar a linguagem das coisas, então elas deixam ouvir a sua voz e emitem sua mensagem ao interior de nossos corações. Aqui começa a comunicação sacramental que nos remete ao Criador. Quem sintoniza com a criação logo percebe sua força sacramental. Só os simples e pequeninos conseguem esta sintonia.

PERGUNTAS
1.    Como você reagiu ao tratar a criação como sacramento?
2.    Você se lembra de algum santo ou de alguém que entendeu e cultivou a visão sacramental da criação? Quem? Lembra algum escrito?
3.    Quem vê e quem não vê?





Fonte: Família Cristã 904 - Abr/2011
Postado por: Família Cristã




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