Mania de Pinóquio

Data de publicação: 10/07/2013

Esmeralda Bonito


Há mentiras infantis consideradas “leves”, outras, com sérias consequências. Os pais precisam entender o que está por trás e orientar seus filhos a não repeti-las.

Qual criança não tem o seu momento “Pinóquio”, lembra aquele arteiro bonequinho de madeira, criado pelo italiano Carlo Collodi, que vê o seu nariz crescer a cada mentira que conta?  Há aquelas mentirinhas que servem de desculpa quando as crianças não querem fazer algo. O pequeno Rodrigo Kenji Ide, de 9 anos, às vezes é flagrado numa delas. “Eu sempre pego no pé dele para escovar os dentes. Ele diz que escova, mas quando vou ver, nem sempre escovou!”, conta a mãe, a fisioterapeuta Patrícia Ferraz Braz.
 
As mentiras infantis, no entanto, podem ser bem mais graves e há pais que passam por verdadeiras saias-justas por causa das histórias contadas pelos filhos, como invenções sobre a professora ou os coleguinhas da escola. Por mais que os pais não gostem de pensar na ideia, seus filhos podem mentir sim, ou mesmo omitir fatos importantes. Mas, de acordo com especialistas, eles têm motivos para isso.  E cabe aos pais entender quais são para orientá-los. “Em geral, a criança mente por medo. É uma forma de mostrar que algo não vai bem com ela”, explica a psicopedagoga Quézia Bombonato, presidente da Associação Brasileira de Psicopedagogia. “Ela ainda pode ter o medo de ser castigada, reprovada ou até mesmo de não corresponder às expectativas dos pais.” Inventar dores para não ir à escola, por exemplo, pode sinalizar que existe uma situação por lá que ela teme e não queira  enfrentar.
 
Situações assim são delicadas e reprimir a criança, acusá-la de mentirosa ou puni-la, psicológica ou fisicamente, não é solução. O melhor caminho, sem dúvida, é educar.  “Primeiro, é preciso sondar o que a amedronta e a deixa insegura e ajudá-la a enfrentar a situação, ensinando que não é necessário mentir”, afirma a especialista.  “E ainda, cabe aos pais ou responsáveis mostrar, com diálogo e afetividade, quais são as consequências da mentira”, explica ela.
 
Isso não significa, no entanto, que a criança deixará de reparar os danos causados quando a mentira for mais grave e tiver gerado confusão, inclusive, envolvendo outras pessoas. Ao contrário, é interessante mostrar que ela fez algo de errado e ainda por cima mentiu, e que precisará reparar o que fez, mesmo que depois já tenha contado toda a verdade.  Caso os pais não orientem os filhos na infância, mentir poderá se tornar um hábito na adolescência e na vida adulta. A fisioterapeuta Patrícia Braz, a mãe de Rodrigo, e também dos jovens Felipe, 18 anos, e Luane, 16, sabe o quanto  uma atitude positiva dos pais  é importante em situações que envolvem as mentiras infantis. “Sempre conversei com eles quando foi necessário e tive o cuidado de não deixá-los acuados”, conta.  “Explico que mentir é muito complicado e os ensino que lidar com a realidade é sempre mais importante.”

Outro motivo que leva uma criança a criar o hábito de mentir é o exemplo dos pais e de outros familiares. Ocorre quando, por exemplo, o pai não quer atender alguém ao telefone e pede para dizer que saiu.  E, sem querer, os próprios pais ensinam aos filhos o talento para enganar, criando uma falha em seu caráter. “É possível escolher uma melhor forma de agir e ser um bom exemplo para os filhos”, salienta Quézia.

Mentira ou fantasia? – Nem tudo o que a criança fala e que não corresponde à verdade é mentira. Até os cinco ou seis anos de idade, ela vivencia um período natural de fantasias.  “É uma fase muito rica em que brinca de faz-de-conta”, explica Quézia. Porém, essa fase termina e chega a hora em que a criança, mesmo  percebendo  a diferença entre  fantasia e mentira,  pode continuar a elaborar histórias. “É o momento de os pais orientá-la”. Caso contrário, ela poderá continuar a mentir, e isso costuma trazer sérias consequências, e há casos em que é necessário apoio psicológico para melhor orientá-la. 

Existe um conceito falso e perigoso de que a criança que inventa histórias é mais esperta e se tornará um adulto que saberá se sair bem em diversas situações. E há até estudos que mostram que a mentira ajuda a desenvolver a criatividade e a inteligência.  Porém, o outro lado dessa moeda é perverso: “Se o hábito de mentir não for trabalhado junto aos pais, há o risco de estar se formando um adulto com habilidades negativas ou até com o risco de caminhar para a criminalidade”, alerta Quézia.

Não gostei! – Imagine a cena: a vó dá um presente para o neto, que imediatamente faz aquela cara feia e diz, numa cruel sinceridade, que não gostou. Ou então, a criança olha para a vizinha e expressa a sua opinião: “Nossa, como você é feia!”, deixando os pais muito constrangidos. Na verdade, ela está sendo sincera, dizendo o que pensa, embora esteja magoando as pessoas. Repreendida, ela questiona o fato de os próprios pais a ensinarem a não mentir. Mas esta é uma contradição que pode ser esclarecida. “É quando os pais explicam que a verdade sempre é importante, mas nem sempre é preciso dizer tudo aquilo que se pensa, já que isso pode magoar outras pessoas e até criar inimizades”, ensina Quézia.  “Não é necessário dizer que adorou o brinquedo da vó, mas é preciso reconhecer que ele foi escolhido com muito carinho e também agradecer”, ilustra a psicopedagoga. “Assim, a criança começa a aprender a desenvolver argumentos e lidar com a comunicação de uma forma mais elaborada, sem precisar recorrer às mentiras.”




Fonte: Família Cristã 915 - Mar/2012
Postado por: Família Cristã




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