A prática familiar da inclusão

Data de publicação: 26/08/2013

Rosângela Barboza       
     
A chegada de um filho com necessidades especiais pode chocar os pais, mas a aceitação social e o desenvolvimento da criança dependem muito das atitudes assumidas por eles.

A inclusão social para pessoas com deficiência, felizmente, não é mais novidade. Se até alguns anos atrás as crianças portadoras de alguma deficiência eram segregadas, excluídas, tendo pouco ou nenhum espaço na sociedade, hoje a realidade é outra, e bem melhor. “Vivemos um período de mudanças de paradigmas, numa sociedade inclusiva, mais organizada e preparada para atender qualquer cidadão, a fim de que todos tenham acesso aos serviços públicos” – assinala Ana Clara Portela Hara, coordenadora do Serviço de Psicologia do Instituto de Reabilitação Lucy Montoro, de São Paulo (SP), lembrando que atualmente o Estado garante o direito à educação inclusiva.

No entanto, o primeiro passo de todo esse processo, chamado inclusão, é dado dentro de casa. É no seio da família que uma criança portadora de deficiência, seja ela qual for, aprenderá a se aceitar como é e será incentivada a superar seus limites. “A família é o primeiro grupo social a que pertencemos. E é na família que a criança tem seu primeiro contato com o mundo, aprende a desenvolver papéis, a enfrentar desafios, a assumir responsabilidades e compromissos e a ter atitudes que vão ajudá-la na socialização” – afirma Ana Clara.

A psicóloga Iracema Maceira Pires Madaleno, supervisora de reabilitação da AACD (Associação de Assistência à Criança com Deficiência), também em São Paulo, reforça essa visão. “Se a família não estiver engajada, o processo de inclusão na sociedade fracassa” – assegura. “Ela, por meio de suas atitudes, consegue incluir o deficiente na sociedade. É ela  que vai tirá-lo de casa para ir para a escola, o cinema, o parque e até mesmo a uma reabilitação. Se não houver aceitação do grupo familiar, não conseguimos incluí-lo na sociedade e nem na própria família” – garante Iracema, destacando que, atualmente, as famílias estão mais ativas na busca dos direitos de seus filhos.

Procurar ajuda – Nem sempre, porém, a família está preparada para conviver com uma criança especial. Afinal, os pais esperam filhos sadios e, quando isso não ocorre, sentem-se agredidos. Surgem os conflitos, pois o filho real não é o filho esperado. É comum que nesta fase venham à tona sentimentos de angústia e ocorram desestabilização e estresse. A primeira reação é negar. “Ao receberem o diagnóstico ou ao serem informados de que a criança não é como as outras, há o choque, o impacto inicial, no qual os pais sentem-se culpados e preocupados. Até que alcancem o estágio de adaptação ou aceitação, a depressão e sentimentos de desolação podem aparecer” – explica Ana Clara.

Nessa hora é recomendável procurar profissionais, como psicólogos, que possam apoiar a família e ajudá-la a conviver com tantas emoções e sentimentos. “Na ausência desse especialista, cabe ao profissional da saúde oferecer orientações e esclarecimentos sobre as potencialidades e as limitações da criança, abrindo espaço para que os pais tirem duas dúvidas e falem de suas ansiedades e frustrações” – afirma Ana Clara.

Além da orientação psicológica, os pais e outros familiares têm outras formas para serem ajudadas no processo de aceitação de seu filho portador de deficiência. "Outro caminho é a religião, seja ela qual for. Há  famílias que também recebem apoio de parentes, vizinhos ou de quem estiver mais disponível para acolhê-las” – destaca Iracema.

Na medida certa – Neste momento se faz necessária também uma reestruturação para um novo modelo de família, a fim de que a vida volte aos eixos. “É somente a partir desta fase que os pais se ajustam ao bebê real, promovendo o desenvolvimento da criança e buscando condições para estimular e incentivar a sua autonomia, bem como para elevar sua qualidade de vida” – afirma Ana Clara.

Se a família não for capaz de aceitar e se adaptar às necessidades de uma criança especial, toda ação para incluí-la seria muito difícil. “Quando os pais estão cientes das reais condições de seus filhos, acabam sendo parceiros no processo de reabilitação e consequentemente na inclusão” – afirma Ana Clara. “Não há superproteção ou omissão. Eles passam a buscar uma postura assertiva, de acordo com a realidade. A participação é pró-ativa, estimulando o desenvolvimento biopsicossocial e espiritual da criança. Assim, os pais se baseiam no amor, na compreensão, na promoção da autonomia e na preparação da criança para inserção social” – orienta a especialista.

Na verdade, muitos pais e mães de crianças e adolescentes portadores de deficiência vivem um dilema. Será melhor incentivar os filhos a superarem seus limites no dia a dia para que aprendam a conviver com o mundo ou poupá-los de frustrações, minimizando seus obstáculos? Como lembra Iracema Madaleno, o apoio familiar deve acompanhar o portador de deficiência até a vida adulta, mas é necessário bom senso. “Incluir é correto e acompanhar o processo de amadurecimento do deficiente também, mas superproteger e dar falsas esperanças ao deficiente só prejudica o processo de amadurecimento emocional” – ressalta. A superproteção faz com que a criança tenha uma autoimagem de fragilidade e, com isso, sinta-se limitada a explorar e conhecer seus próprios recursos. Assim, ela provavelmente terá dificuldades de lidar com as inevitáveis frustrações. O ideal então é o equilíbrio. “As necessidades e a atuação da família mudam à medida que a pessoa se desenvolve e adquire independência e autonomia” – afirma Iracema.


Saiba mais
•    Secretaria dos Direitos da Pessoa com Deficiência do Estado de São Paulo
•    Rede de Reabilitação Lucy Montoro  
•    Política Nacional de Saúde da Pessoa com Deficiência    




Fonte: Família Cristã 902 - Fev/2011
Postado por: Família Cristã




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