Amor ou interesse?

Data de publicação: 28/08/2013

Jacob Pinheiro Goldberg*


Na história do desenvolvimento da condição humana, pretende-se que o interesse (etimologicamente “interesse”, do latim “estar entre”) seja sublimado para o amor. O interesse, compreendido como uma intenção de vantagem que pode ser legítima ou ilegítima. E o amor, este sentimento – o mais espiritualizado das emoções – capaz de superar o egoísmo, cultivando o altruísmo.

A natureza proporciona, desde a concepção, um jogo complexo e sofisticado que marca a interação entre pais e filhos. Já no útero da mãe e nas etapas do desenvolvimento, o nascituro, a criança, o adolescente e o adulto precisam da mãe e do pai, inicialmente para o nascimento, depois para a sobrevivência e, paulatina e simultaneamente, no preparo para a civilização.

Do ângulo dos pais, há a necessidade de projetar nos filhos o mistério e o milagre do mandamento “crescei e multiplicai-vos”. É o magnífico sentido de transcendência e vida que os filhos devem perpetuar, superando o conflito de gerações para a continuidade gratificante das heranças recebidas e processadas internamente. É através da educação e do carinho que esta pauta de mão dupla precisa transitar. Dando e recebendo, desinteressadamente. A virtude da oferta – que muitas vezes beira o sacrifício e é traço determinante da grandeza do ser humano – exige dos pais o esquecimento de si mesmos na superação de limites, medos e preconceitos, e, dos filhos, sobretudo, a gratidão.

Leilão afetivo – Infelizmente, das últimas décadas do século 20 até hoje, essa cultura de milênios, que se ancora nos instintos mais naturais da espécie, nas tradições religiosas e nos princípios éticos, vem sendo substituída por outros parâmetros, quais sejam:

1) A desqualificação da autoridade dos pais em nome de uma emancipação dos jovens, despreparados para o exercício responsável da existência;

2) A inversão de papéis, provocando angústia e culpa em ambos os elos da cadeia sentimental – pais e filhos se chocando e se distanciando, diante de crises que derrubam todo e qualquer freio de superego (forças morais inibidoras);

3) O despreparo para enfrentar o consumismo desenfreado, levando os filhos a negociar o amor em troca de recursos materiais. “Só estudo se ganhar um automóvel”; “Minha mãe deixa que eu vá à balada, beba, fume, e você é careta” etc.
Instala-se, assim, uma espécie de leilão de trocas afetivas que vai contaminar o que de mais elevado e sagrado deve existir entre pais e filhos: o pacto da entrega, sem expectativa de paga.

É preciso notar o exemplo maligno que a mídia comercial vulgariza neste campo: o uso de crianças e jovens como camelôs de afeto – concurso de beijos prolongados, o corpo feminino como vitrine de desejo, a competição da malícia e da esperteza no lugar da cultura e da inteligência. O cúmulo dessas trocas de vantagens são programas de TV em que se intercambiam pais, como se fossem dramas de aluguel, personagens de amor por temporada, e isso em nome de uma didática de compreensão.

Educar e preparar os filhos implica autodisciplinar-se para o amor e a dedicação, que não estão à venda, nem no varejo nem no atacado. É na dimensão do amor que pais e filhos podem mudar o significado da vida, emprestando sentido à jornada, que é missão e não um shopping center de falta de caráter e oportunismo.


*Doutor em Psicologia e autor, entre outros livros, de O direito no divã (Ed. Saraiva).




Fonte: Família Cristã 904 - Abr/2011
Postado por: Família Cristã




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