À procura do espaço perdido

Data de publicação: 29/08/2013

Antônio Edson
                                           

Após servir de referência mundial com a construção de Brasília, a arquitetura do País perdeu importância com o Golpe Militar e vive uma crise de identidade desde o evento do neoliberalismo.

Em 2009, o escritório nova-iorquino Diller Scofidio venceu o concurso que definiu o projeto da nova sede do MIS (Museu da Imagem e do Som) do Rio de Janeiro (RJ). Ainda no Rio, a polêmica Cidade da Música, complexo cultural que abriga a maior sala de concertos da América Latina, com 1.800 lugares, foi projetada pelo arquiteto francês Christian de Portzamparc. E em São Paulo (SP), os suíços Jacques Herzog e Pierre de Meuron, os mesmos do Estádio Ninho do Pássaro, de Pequim (China), assinam o projeto da Companhia de Dança de São Paulo, obra promovida pelo governo do estado que, caso levante o embargo baixado pela justiça, ocupará 30 mil metros quadrados no centro da cidade. Causou – e ainda causa – estranheza o fato de estrangeiros estarem à frente de projetos de grife em um país detentor de uma escola de arquitetura que gerou talentos como Oscar Niemeyer, Lúcio Costa, Vilanova Artigas, Isay Weinfeld e Paulo Mendes da Rocha –  vencedor, em 2006, do Prêmio Pritzker, o Oscar da arquitetura mundial. Estaria essa em crise criativa?

A resposta é afirmativa. Mas, além de criativa, a crise parece ser de identidade, segundo alguns profissionais e estudiosos da questão, como o arquiteto e urbanista Pedro Arantes, doutor pela FAU (Faculdade de Arquitetura e Urbanismo) da USP (Universidade de São Paulo) e autor do livro Arquitetura nova (Editora 34). Para ele, a arquitetura e o planejamento urbano do País entraram em declínio após atingir o apogeu com a construção de Brasília, nos anos 1950, e precisam ser reinventados. “Os 20 anos da ditadura militar e o neoliberalismo produziram sucessivos impactos devastadores nessas áreas. Multiplicarem-se as escolas de baixo nível e ampliou-se o mercado comercial para os arquitetos na mesma medida em que eles foram saindo do debate público em torno de temas relativos ao desenvolvimento do País. O resultado é que, hoje, os arquitetos são irrelevantes ou nem sequer são ouvidos em questões que deveriam ter voz ativa. O caso mais gritante é o do Programa Minha Casa Minha Vida, em que esses profissionais não se pronunciaram” – explica Pedro.

Tragédias urbanas – Se a arquitetura pode ser definida como a arte ou a técnica de organizar espaços e criar ambientes para abrigar os diversos tipos de atividades humanas, particularmente a de morar, essa foi, de fato, uma grande chance perdida pelos arquitetos. Maior programa habitacional já criado no País, o Minha Casa Minha Vida surgiu em 2009 com a proposta de construir até o final de 2010 1 milhão de novas moradias para famílias com renda mensal de até dez salários mínimos. O objetivo do programa é começar a reduzir o déficit habitacional no País, estimado em 7,2 milhões de moradias e que tem a sua pior situação no estado mais rico da união, São Paulo. Nele faltam 1,2 milhão de moradias, 350 mil só na capital.

Outra meta do programa é gerar emprego e renda por meio do aumento do investimento na construção civil, que, pela ótica da produção, é o principal motor da economia brasileira – responde por quase 20% do PIB (Produto Interno Bruto) do País de acordo com o Sinduscon (Sindicato da Indústria da Construção Civil). Trata-se, ainda, de uma indústria especialmente estratégica porque ela impulsiona o crescimento interno de forma endógena, isto é, sem depender de insumos, financiamentos, recursos e mão de obra externos. Com tantos fatores a seu favor, até dezembro de 2010, o Programa Minha Casa Minha Vida cumpria bem suas metas. Haviam sido contratadas 819 mil obras. A segunda fase do programa, já lançada, pretende construir mais 2 milhões de moradias nos próximos anos.

Esculturas habitáveis? – Ainda que o programa esteja ajudando a transformar a realidade habitacional do País, ele pode ser melhor com a participação ativa de arquitetos que, afinal, não se prestam apenas para projetar mansões, estádios de futebol, shopping centers, centros culturais e arranha-céus envidraçados. Eles podem ajudar, e muito, no planejamento de espaços urbanos que beneficiam todas as camadas da população. “Mas as empreiteiras não ouvem esses profissionais e eles não encontram espaço. Ou, pior, por falta de amadurecimento ou de uma reflexão do que seja um bom espaço urbano e habitacional, com mais fluidez, sem muros e com diversidade social, com ricos e pobres dividindo os mesmos espaços, esses profissionais reproduzem modelos que contribuem para aumentar a tragédia urbana das grandes cidades brasileiras, com condomínios fechados, muros, arames farpados e segregação social” – analisa o economista, arquiteto e urbanista João Whitaker, coordenador do laboratório de habitação e assentamento humano da FAU. “Fazer casas ou cidades não é o mesmo que fazer geladeiras” – compara Pedro Arantes.

A ausência de um melhor planejamento nas moradias e do desenvolvimento urbano do País pode ser atribuída a razões políticas. “O Golpe Militar de 1964 baniu profissionais como Vilanova Artigas, que deixou de dar aulas na USP, e até Oscar Niemeyer, que foi obrigado a fugir do País. Lina Bo Bardi, que mais tarde projetaria o Masp (Museu de Arte de São Paulo), só ficou porque era amiga de Assis Chateubriand, um empresário poderoso” – confirma o arquiteto e designer Rafic Jorge Farah, diretor da faculdade de Arquitetura e Urbanismo Escola da Cidade, de São Paulo. Outra razão do descolamento da arquitetura do dia a dia da população foi um desvirtuamento. Ela teria se deixado dominar excessivamente pela forma em detrimento do conteúdo, levando ao extremo o conceito inventado pelo artista plástico franco-suíço Le Corbusier (1887-1965): a arquitetura como produtora de esculturas habitáveis. “Herdamos muito a preocupação com a forma e menos a preocupação humanística. Não adianta trabalharmos só as formas e aceitarmos o que a indústria do aço e do concreto nos impõe. Temos que inovar também na tecnologia e saber, por exemplo, o que podemos construir com elementos mais simples, como o barro” – avisa Rafic Jorge.

Pontes e muros – A história do País, no entanto, aponta que morar bem e ter acesso a equipamentos públicos, duas finalidades que a arquitetura deve proporcionar a todos, tem sido privilégio de poucos. “Nosso processo de urbanização foi dominado pelo que o jurista Raimundo Faoro chamou de estado patrimonialista, aquele que privatiza o que deveria ser público. Isso ocorre quando quem ocupa o poder faz leis e obras em benefício próprio” – explica João Whitaker. Um exemplo recente é a Ponte Estaiada construída sobre o Rio Pinheiros, zona sul de São Paulo. Inaugurada em 2008, ela tem 130 metros de altura, 1,6 quilômetro de extensão, é sustentada por 144 estais (cabos) de aço e tirou 150 milhões de dólares do governo paulista e, em última análise, do bolso dos 41 milhões de habitantes do estado. Para quê? Servir a algumas milhares de pessoas que transitam de automóvel – ônibus e transportes públicos não circulam por ela – entre os bairros do Itaim Bibi e do Brooklin. “É espetacular, mas nem sequer serve para desafogar o trânsito. Ela não pode ser chamada de uma obra pública, mas de uma obra paga pelo poder público para beneficio privado” – afirma João Whitaker.

Esse exemplo da Ponte Estaiada pode – e deve – ser associado à questão da moradia, uma vez que a obra empregou a típica lógica perversa da especulação imobiliária que cria muros invisíveis entre ricos e pobres e expulsa esses últimos para locais e habitações cada vez mais distantes e desassistidos de infraestrutura. Nos anos 1980, o metro quadrado naquela altura do Rio Pinheiros custava algo em torno de 100 dólares e agora se elevou a 1.500 dólares com as obras da ponte, que, uma vez concluída, fez o preço chegar a 4 mil dólares. Como resultado, a demanda por terrenos na região cresceu a ponto de provocar a remoção dos moradores do local, da favela Jardim Edite, onde viviam aproximadamente 900 famílias. Cada uma delas foi agraciada com 5 mil reais – o chamado “cheque despejo” – pela prefeitura paulistana e grande parte foi removida para as áreas de proteção de mananciais da Região Metropolitana de São Paulo, o que fatalmente acabará gerando riscos para o meio ambiente e para toda a população. Em compensação, a Ponte Estaiada serve como árvore de Natal e cenário para o jornalismo da TV Globo. E assim são planejadas as cidades brasileiras...





Fonte: Família Cristã 901 - Jan/2011
Postado por: Família Cristã




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