Sonho desperto

Data de publicação: 20/09/2013

Jovens de diferentes estados brasileiros estão focados no coletivo e buscam uma profissão que favoreça a comunidade onde vivem

Os jovens professores Alessandro e Izabel, o comunicador Wanderson e os atores Samantha e Marcos acreditam que a mudança nasce do comprometimento próprio e que a transformação social só ocorre a partir da ação de pessoas.  “Sonhar é acordar-se para dentro”, dizia o poeta e escritor Mário Quintana. E, nessa perspectiva, aponta-se o resultado de uma pesquisa no site O Sonho Brasileiro, realizada a partir de um estudo sobre o Brasil e o futuro baseado no ponto de vista de jovens de 18 a 24 anos.  Pautada nessa pesquisa, a REVISTA FAMÍLIA CRISTÃ entrevistou cinco jovens que falam da concretização de sonhos realizáveis que gerem um impacto positivo na vida dos brasileiros e, sobretudo, na comunidade onde vivem. Eles partilham o compromisso a que estão se propondo desempenhar e os cenários futuros em que se veem atuando.

Pela estrada, em busca da educação

Por Natalia Laurino





Eles já perderam as contas dos tombos caídos da moto. Os primos, Izabel Lima, 25 anos, e Antonio Alessandro Onyszko, 18, lecionam em uma escola da zona rural no município de Boa Ventura de São Roque (PR) a 314 quilômetros da capital, Curitiba. Sob chuva e sol, no verão ou inverno, eles percorrem todos os dias 12 quilômetros de estrada de chão para lecionar o dia todo. Quando chega ao fim do dia, outra maratona. Izabel e Alessandro percorrem mais 32 quilômetros de estrada de chão para chegar à faculdade, onde Izabel estuda Pedagogia, curso a distancia.

Já Alessandro, a partir desse trecho, percorre mais 65 quilômetros de ônibus até a universidade, onde cursa Geografia. À meia-noite, os primos se encontram, para, de moto, retornar. Chegam a casa por volta da 1 hora da madrugada para descansar e às 7 horas já estão prontos para iniciar a maratona. “Passo muito mais tempo fora de casa, mas tudo o que estou buscando é para o meu crescimento pessoal, intelectual e profissional. Num mundo repleto de tanta informação, preciso me ater na questão que temos de formar valores de solidariedade e fraternidade, sobretudo na comunidade onde atuo, como professora, que é muito pobre. Não quero deixar de lado o coletivo, o companheirismo. Busco ensinar às nossas crianças não a dimensão do individualismo e da competição, quero ser capaz de apresentar a elas um mundo diferente que já existe, mas é deixado como coisa do passado. Minha busca é de uma educação que esteja unindo a teoria com a prática, busco educar os sentidos. Ensinar a ver, ouvir, sentir, saborear, tocar, tudo isso é tão indispensável, possível e importante. Procuro pensar que o ensino seja integrado com a vida da criança e da comunidade”, destaca com esperança no olhar a estudante e professora.

O sonho do estudante e professor Alessandro, como estudante, é buscar crescer e ajudar a melhorar a educação através do seu trabalho como professor, incentivando seus alunos a estudarem para no futuro tornarem-se profissionais na comunidade. “O que estou fazendo para melhorar o lugar onde eu moro é estudar e repassar aos meus alunos a aprendizagem que eu estou tendo, conscientizando-os para uma visão crítica e social. Procuro despertar neles valores como amizade, respeito, dignidade e amor ao próximo e tornar a sociedade, em especial a nossa comunidade, mais justa e fraterna. A partir de meu trabalho na educação, procuro contribuir para minha realidade como ser humano em crescimento e também incentivar os alunos a estudar cada vez mais para ter uma profissão em nossa comunidade e a valorizá-la e fazer acontecer mudanças que são necessárias na comunidade, mostrando que são cidadãos conscientes e que lutam pelo bem”, ressalta com entusiasmo o jovem professor.



O bem, nas ondas do rádio


Por Karla Maria

Wanderson Alves Cruz tem 25 anos e é recém-formado em Rádio e TV. Mas seu contato com a comunicação e a paixão pelo rádio nasceu bem antes. Foi aos nove anos e dentro de sua comunidade, a Paróquia São Francisco de Assis, no Jardim Guarani, na periferia de São Paulo (SP). “Eu fazia catequese e, durante às tardes de sábado, havia um programa com apresentação dos catequistas que levavam os jovens para participar.” O programa a que Wanderson se refere era transmitido pela rádio comunitária da região Brasilândia, chamada na época Rádio Amizade. “Um dia fui até o local onde a rádio estava instalada e quando entrei me deparei com vários equipamentos, com luzes piscando e música tocando. Foi a partir daí que começou minha paixão pela comunicação de fato”, disse Wanderson. Era o seu começo na comunicação, e o começo da Rádio Amizade, hoje Rádio Comunitária Cantareira FM, responsável pela formação de dezenas de comunicadores populares, dezenas de “Wandersons”. 

A rádio nasceu do desejo de algumas lideranças da comunidade denunciarem os problemas no Jardim Vista Alegre. O ano era 1995, e coordenados pelo padre Cilto José Rosembach, também jornalista e presidente da Associação Cantareira, uma organização não governamental que mantém a Rádio Cantareira FM. O funcionamento da rádio demandava capacitação das lideranças e assim foi criado o primeiro curso de comunicação para radialistas, oferecido entre outubro e dezembro de 1995, com 60 horas de duração. Wanderson foi um dos alunos, teve aulas teóricas e em estúdio, para a produção de programas de rádio, release e articulações de imprensa.

Hoje, formado em Locução Profissional e Sonoplastia, pode contribuir com a comunidade com seu trabalho voluntário, sendo monitor e professor de cursos de Edição de Áudio e Mesa de Som na Associação Cantareira. “Foi aqui que tive a base da comunicação, que foi fundamental para a minha formação. Nunca me imaginei como professor, e o fato de repassar o que aprendi para outras pessoas faz com que a gente se sinta muito bem como pessoa. Fazendo uma releitura da minha vida, muita coisa mudou por conta da comunicação. Sou muito feliz por fazer algo que me completa”, afirma Wanderson, lembrando que a felicidade se completa quando pensa no bem comum que seu trabalho promove. “Acredito que um comunicador popular deva, acima de tudo, ter respeito pelo próximo e utilizar sua capacidade para contribuir de alguma forma, mesmo que pequena, com o bem da comunidade.”

Aos 25 anos, o jovem mora com os pais e com suas irmãs. “Eles sempre me apoiaram e ainda hoje me apoiam em minhas escolhas e incentivam o meu trabalho”, diz Wanderson, destacando o papel da família em sua busca e realização profissional. Para ele, esse apoio é muito importante, porque encoraja e enriquece ainda mais a formação.

Seu sonho hoje é adquirir um carro, e diz soltando um sorriso. “Acho que assim, como a maioria das pessoas, busco uma qualidade de vida melhor e ajudar minha família.” Talvez Wanderson Cruz, assim é seu nome de locutor, pense nos morros da Brasilândia, um sobe e desce desordenado, onde sua voz já alcança cerca de 20 mil pessoas, e seu trabalho voluntário, tantas outras, formando e incentivando a reescreverem suas próprias histórias.


No teatro, o sentir-se gente

Por Rodrigo Apolinário


“Aquela experiência foi emocionante. Nós fizemos uma oficina de Teatro do Oprimido (TO) com adolescentes da comunidade quilombola ‘Pedra d’água’, na cidade de Serra Redonda, no agreste paraibano, e, no final da oficina, durante a partilha do que foi sentido com aqueles exercícios, uma adolescente de 17 anos olhou pra mim e disse: ‘Pela primeira vez eu me senti pessoa, gente, pela primeira vez tive a minha opinião respeitada’”, lembra o ator e jornalista Marcos Moraes, de 27 anos, multiplicador do Teatro do Oprimido.

Acompanhado da namorada, Samantha Pimentel, de 22 anos, também jornalista, atriz e multiplicadora de TO, forma uma dupla pensante e atuante que, enquanto jovens, tem modificado a história de outros jovens nordestinos. 

Naturais e moradores de Campina Grande, cidade do agreste da Paraíba, localizada a cerca de 120 quilômetros da capital João Pessoa, Marcos e Samantha descobriram o TO há pouco mais de quatro anos.

Membros da Pastoral da Juventude da Diocese de Campina Grande e donos de personalidade ousada, eles fundaram o Núcleo de Estudos e Práticas do Teatro do Oprimido (Neto-PB) e encontraram nessa manifestação teatral uma maneira de chegar ao coração das pessoas, em especial dos jovens.

“Como cristão, acredito na possibilidade de um mundo melhor, na construção da civilização do amor, na caminhada para fazer o Reino de Deus ser vivido aqui na Terra. O TO me ajuda a promover isso. Com ele eu consigo chegar a espaços que participando apenas da Pastoral da Juventude eu não conseguiria”, diz Marcos.

Dentre as atividades de maior destaque que o casal já liderou está o Projeto Estética do Oprimido e Teatro Legislativo contra a Violência Doméstica na Paraíba, promovido no ano passado, resultado de uma parceria entre o Neto-PB, o Centro de Teatro do Oprimido (CTO) e a Companhia de Dança Raízes.

Durante três meses, vários multiplicadores do TO visitaram entidades formadas por mulheres, buscando questionar os problemas vividos por elas e estimulá-las a encontrar soluções.

“Apenas em Campina Grande, visitamos instituições como a Associação das Empregadas Domésticas, a Casa da Mulher e o Presídio Feminino. Lembro que em uma delas uma mulher estava muito tímida, passamos um exercício para que em duplas vivenciassem o papel de marido e mulher, e a que estava retraída conseguiu liberar vários sentimentos, como o de se sentir submissa, escrava do esposo”, diz Samantha.

“Lidar com mulheres excluídas é muito importante pra mim. Primeiro porque reconheço que são mulheres, seres humanos que merecem respeito. Em seguida, vejo no rosto delas quanto sofrem, mas consigo através da arte fazer com que superem esses sentimentos e possam viver melhor”, frisa a atriz.




Fonte: Família Cristã 921 - Set/2012
Postado por: Família Cristã




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