Lembranças de sangue

Data de publicação: 02/10/2013

                                                 
 Karla Maria


Sobrevivente da Chacina do Carandiru relembra detalhes de uma sexta-feira macabra e que ainda espera por um ponto final na Justiça

Foi numa sexta-feira, agosto de 2013, vésperas do Dia dos Pais, que esta reportagem acompanhou mais uma visita da Pastoral Carcerária a uma das penitenciárias de Franco da Rocha (SP), cidade-dormitório localizada a 47 quilômetros da capital paulista. Os três agentes da Pastoral e esta repórter atravessaram o barulho das trincas de ferro, apresentaram suas carteiras de identidade e passaram pela revista pessoal, mesmo tendo por lei o direito de não serem revistados. A primeira parada foi a ala do castigo. Ali, em celas individuais, cada preso ou reeducando (como prega a linguagem da ressocialização) cumpre temporariamente seu castigo, longe do convívio dos demais. Possui colchão, potes com comidas, livros, Bíblia e uma janelinha.

Um retângulo de 30 por 10 centímetros na porta, como um quadro suspenso, revela a história de cada um dos presos. Só assim é possível o diálogo com os agentes da Pastoral. Neles, foram anotados nomes e telefones de familiares, o número do processo de execução de cada um, denúncias diversas e pedidos de oração. Entre a cela 5 e 12, em pé, os agentes da Pastoral rezam um Pai-nosso e uma Ave-Maria, se despedem e partem para as Oficinas. Logo na primeira, conhecemos Fernando Mathias Figueira, 50 anos, um sobrevivente da chacina ocorrida em 2 de outubro de 1992 na extinta Casa de Detenção do bairro do Carandiru, zona norte de São Paulo (SP). Ele é um dos 508 mil brasileiros encarcerados no Brasil. Cumpriu sua primeira pena de 11 anos e, agora, cumpre uma segunda, de mais de 16. Hoje, o homem faz parte de uma estatística: a taxa de reincidência ao crime chega a 70% e é uma das maiores do mundo. Os dados são do Conselho Nacional de Justiça (CNJ).

“Muita gente vai morrer” – Em um canto, entre os cerca de 70 detentos que ali trabalham para remissão de pena, Mathias recontou detalhes da chamada Chacina do Carandiru, que não lhe sai da memória. “Era um dia normal até 3 e meia da tarde, quando teve uma discussão entre o Barba e o Coelho. Foi uma dívida de droga. Aí a cadeia virou, porque bastante gente já estava insatisfeito”, diz Mathias, recordando o motivo de ter sido iniciada a rebelião no Pavilhão 9. “Eu estava na faxina, que é o pulmão da cadeia, quando começou o quebra-quebra, e os funcionários não se meteram. A gente tomou conta de tudo. Se a gente tivesse pego qualquer um de refém... Mas não pegamos, e os homens não precisavam entrar daquela forma. Quando o diretor veio falar com a gente, pediu para entregar nossas armas. A gente só tinha faca. Entregamos e voltamos para as celas, e aí...”

A sequência da fala é interrompida pela gagueira, que piora à medida que as lembranças vão tomando conta do rosto negro de Mathias. As palavras e os gestos chamam a atenção dos outros que trabalham. Como ele, no Brasil, 14% da população carcerária trabalha nos presídios segundo o CNJ. “E aí o Ubiratan (Guimarães, o coronel da Polícia Militar, já falecido) chegou invadindo, gritando ‘hoje, aqui, muita gente vai morrer’. O choque entrou, era rajada de bala, gente correndo. A gente foi para a cela, pensando que eles iam trancar a gente. Vários caras estavam apavorados. Já estava tudo na mão deles, mas mesmo assim eles atiraram. Quando cheguei na porta da minha cela, dei de cara com vários caras mortos e me fingi de morto para não levar bala. O cachorro passou em cima de mim, eles passaram em cima de mim, mas Deus quis que eu vivesse e estou aqui.”

111 é o que dizem – O episódio descrito por Mathias está no filme Carandiru, de 2003, do diretor argentino Hector Babenco e baseado no livro-reportagem Estação Carandiru, do oncologista Dráuzio Varella, que durante 13 anos prestou serviço voluntário no presídio. Mathias só assistiu ao filme este ano. “Eu me vi nele. Eu chorei muito, porque estou vivo e eu estava ali, aquilo aconteceu, mas graças a Deus não tomei um arranhão. Eu estava com a minha roupa pingando sangue e achei que tinha tomado tiro, mas não era meu sangue.” Sorte dele, pois 111 detentos – e nenhum soldado – morreram depois da entrada da Polícia Militar no presídio. “111 é o que dizem. Morreram mais de 200. Tem família procurando o corpo até hoje”, diz o sobrevivente. O governador, na época, era Luiz Antonio Fleury Filho. O secretário de Segurança, Pedro Franco de Campos.

 “Carreguei cadáver a noite toda.” Iam todos para o crematório. Também juntou cartuchos de armas pesadas encontradas em sua cela e mostrou-as ao pessoal dos Direitos Humanos, que visitou o presídio. O trabalho do transporte de corpos reservava ainda outras surpresas. “Depois da matança, fomos para o pátio. Todo mundo estava pelado. Eles pediam para um preso levantar, ir em um canto e lá atiravam. Falavam que era para ajudar no trabalho com os corpos, para dar uma força. Mas era mentira, eles matavam. Os caras mataram em todo canto, só na igreja e no centro que não. A tropa de choque veio para cair no Pavilhão 8, mas caiu no 9”. Mathias lembra que morreu mais gente no 2º e 3º andares do Pavilhão 9 e que as mortes não eram só de bala, para dar a impressão de que havia briga entre os detentos. “Faziam um corredor e esfaqueavam a gente para dizer que era treta.”

Nunca mais? – No dia seguinte, sábado, teve faxina. Afinal, no domingo era dia de encontrar a família. “No sábado, a polícia abriu para a gente lavar. Era um açougue, cheiro de açougue. Lavamos tudo com água quente e sabão, porque domingo ia ter visita. As famílias estavam lá fora e nós, em guerra, do lado de dentro. Quando eu vi minha mãe, ela me disse: ‘Cada pé preto morto que via, achava que era você, meu filho’.”

Terminada a entrevista, cansado e emocionado, Mathias voltou ao seu ofício com porquinhas e parafusos. A cada três dias trabalhados, ganha um dia de liberdade para a redução de pena. A conta de Mathias é grande: serão, no total, 27 anos de reclusão por assalto, tráfico e homicídio. “O rapaz matou um irmão meu, invadiu a casa da minha mãe, daí eu matei”, admite. Mas ele espera voltar para o convívio de seus seis filhos, na zona leste de São Paulo, em março do ano que vem. Deixará para trás um Carandiru que não existe mais, ao menos fisicamente. O presídio foi implodido em 9 de dezembro de 2002 para o local ser transformado no Parque da Juventude, um espaço aberto ao público. Para muitos, a implosão não passou de uma tentativa de apagar o cenário de uma matança bárbara. Mas que, na verdade, não sai da memória. No Parque, resiste um memorial para a Chacina do Carandiru jamais ser esquecida.

Depois de 21 anos não são apenas as lembranças que não se apagam. A Justiça ainda espera por ser feita, já que os julgamentos sobre a chacina continuam. No início de agosto, 25 policiais foram acusados de participação na morte de 52 dos 111 presos do presídio do Carandiru. Os réus receberam uma pena de 624 anos de prisão em regime fechado e a perda do cargo público. No entanto, eles ainda têm o direito de recorrer da decisão em liberdade.




Fonte: Família Cristã 933 - Set/2013
Postado por: Família Cristã




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