Anjos amigos celestes

Data de publicação: 02/10/2013

Fernado Geronazzo


Na cultura, na religião e nas artes, os anjos fazem parte do cotidiano das pessoas ao longo dos tempos


Era por volta das 18 horas do dia 10 de janeiro de 2011 quando a analista de Recursos Humanos Aline Alves estava parada para atravessar a rua, na esquina entre as ruas 24 de Maio e Barão do Bom Retiro, no bairro do Engenho Novo, Rio de Janeiro (RJ), até que aconteceu algo inesperado.  “Estava parada a poucos metros do semáforo, quando veio uma senhorinha na minha direção e perguntou se eu poderia ajudá-la a atravessá-la na faixa de pedestres. A princípio hesitei, porque eu não queria caminhar até a faixa e, como a mulher andava com dificuldade, isso me atrasaria. Mas acabei cedendo. Enquanto esperávamos o sinal fechar, um ônibus não conseguiu fazer a curva e subiu a calçada no exato lugar onde eu estava parada antes”, relata a jovem, que se emociona só de lembrar.  “Comecei a tremer vendo a cena e me esqueci da velhinha. Até hoje não sei pra que lado que ela foi. Já voltei várias vezes ao lugar, atrás dela, perguntei a algumas pessoas, mas ninguém diz ter visto uma pessoa com as descrições que dei. A única coisa que sei é que se não fosse aquele santo anjo eu teria sido atropelada ou até mesmo morta com o tamanho do acidente”, completou.

Aline usou uma expressão muito popular para se referir à pessoa que ela afirma ter salvado a sua vida: um anjo. Eles estão presentes na cultura, nas artes, na vida de fé, em diferentes religiões, no imaginário das pessoas, desde as mais fervorosas até as mais céticas. Mensageiros de Deus, filhos do Altíssimo, santos, seres de luz. Estas são designações recorrentes para falar dos anjos.  Mas eles existem de fato?

Na fé Cristã – Anjo (do latim angelus e do grego ággelos – “mensageiro”), segundo a tradição judaico-cristã, a mais divulgada no Ocidente, é um ser espiritual puro que está acima do ser humano. Apesar da sua grande perfeição, os anjos são seres criados e, portanto, diferentes de Deus, que é o espírito criador a quem servem. “Pela mesma razão, não são autossuficientes, mas dependem, como todas as criaturas, de Deus que lhes deu o ser e os mantém na existência”, explica o padre Agnaldo José dos Santos, estudioso dos anjos  e um dos propagadores dessa espiritualidade dentro da Igreja Católica, instituição que mais se aprofundou na compreensão desses seres. 

A fé cristã na existência dos anjos foi explicitada no Concílio de Latrão, realizado em 1215, ao proclamar solenemente que “no seu poder infinito, Deus criou no princípio do tempo e do nada todas as criaturas, tanto as corporais como as espirituais, primeiro as angélicas, depois as corporais e por último o homem, composto de espírito e matéria”.

Só no Novo Testamento da Bíblia, os anjos aparecem inúmeras vezes. Foi um anjo que apareceu a Zacarias para anunciar que sua esposa, Isabel, mesmo na velhice, daria a luz a João Batista. O mesmo anjo apareceu à Maria para anunciar que dela nasceria o Filho de Deus. Um coro de anjos cantou o nascimento de Jesus e, pouco depois, um anjo aconselha José a fugir com sua esposa e o menino para o Egito. O próprio Cristo menciona os anjos em suas pregações, como na passagem em que alerta no capítulo 18, versículo 10, do Evangelho segundo Mateus: “Guardai-vos de menosprezar um só destes pequeninos, porque eu vos digo que os seus anjos no céu contemplam sem cessar a face de meu Pai que está nos céus”.

O Antigo Testamento, também cita essas criaturas angélicas muitas vezes. Um anjo detém o braço de Abraão, impedindo-o de sacrificar o filho Isaac, e lhe promete a recompensa pela sua obediência a Deus. Há um livro inteiro da Bíblia que relata a ajuda de um anjo à família de Tobias, entre outros exemplos.

Muitos teólogos judaico-cristãos vão dizer que os anjos são gêneros literários que representam o próprio Deus se manifestando à humanidade. Porém a Igreja Católica reafirma a fé nesses seres. “A existência dos seres espirituais não corporais, que a Sagrada Escritura chama habitualmente de anjos, é uma verdade de fé. O testemunho da Escritura a este respeito é tão claro quanto a unanimidade da Tradição”, destaca o Catecismo da Igreja Católica. Mesmo sendo seres espirituais, os anjos são retratados ao longo da história com formas humanas, ressaltando sua condição de criaturas, e, com asas, simbolizando a liberdade.

Alguns estudiosos defendem que existe uma hierarquia entre os anjos: serafins, querubins, tronos, dominações, virtudes, potestades, principados, arcanjos e os anjos da guarda – que acompanham individualmente cada ser humano.

A Bíblia chega a mencionar o nome de três arcanjos. Miguel (Quem como Deus) é aquele que combate o dragão que se rebela contra Deus (Lúcifer, príncipe dos demônios). Gabriel (Força de Deus), que em muitos momentos do Antigo Testamento defende o povo de Deus e no Novo Testamento defende o povo de Deus e no Novo Testamento foi quem anunciou o nascimento de Jesus a Maria. Rafael (Deus Cura), citado no livro de Tobias, sendo também chamado de Médico de Deus.

Desde a antiguidade – Pelo menos 14 séculos antes do nascimento de Cristo já se tem notícia desses Enviados Divinos, que assistiam os deuses pagãos, mesopotâmicos, hititas, assírios e egípcios. Segundo essas tradições, os deuses se comunicavam entre si por meio de tais mensageiros celestes.

No ano 2000, a Pinacoteca do Estado de São Paulo organizou a exposição Os anjos estão de volta, com 250 figuras que mostram como os artistas retrataram os anjos ao longo da História em diferentes culturas. “Mensageiros da vontade de Deus, amorosa, vingativa, guardiões de lugares sagrados, prenunciadores de eventos extraordinários ou benévolos protetores dos que lhe são fiéis, os anjos bíblicos encontram um equivalente em suas funções nas mais antigas religiões pagãs do Oriente”, ressaltou a curadora da mostra, a antropóloga Maria Lucia Montes, na apresentação da exposição.

Assim como os anjos, de acordo com a Sagrada Escritura, guardavam a Árvore da Vida no Jardim do Éden, também, dragões, esfinges, grifos e outras figuras híbridas aladas guardam as entradas de palácios e templos babilônicos e egípcios.

Também é comum nessas tradições o fato de os anjos que transgridem ou desobedecem à vontade divina serem punidos, expulsos do céu, os chamados anjos caídos, que habitam os reinos inferiores das trevas, como a serpente que tentou Eva no Paraíso. “Na tradição de mais de 20 séculos de nossa civilização greco-romana, judaico-cristã, a iconografia dos anjos, em sua exuberante riqueza e variedade, atesta a profundidade da impregnação da cultura ocidental pela imagem desses seres misteriosos”, afirmou a curadora, na apresentação da exposição.

Nas religiões – Diferentes religiões milenares também falam da existência dos anjos. O Budismo e o Hinduísmo os chamam de devas e os descrevem de maneira semelhante às religiões ocidentais. Seu nome deriva da raiz sânscrita div, que significa “brilhar”, daí a denominação “seres brilhantes” ou “autoluminosos”.

Já a angelologia islâmica divide esses seres em dois grupos principais: os bons, fiéis a Deus, e os maus, cujo chefe é Iblis ou Ash-Shaytan, privados da graça divina por terem se recusado a prestar homenagens a Adão. Para o espiritismo, doutrina iniciada no século 19 por Allan Kardec, os anjos seriam os espíritos elevados de benignidade superior que são os protetores dos necessitados e mensageiros do amor e do mundo incorpóreo.

Na religiosidade contemporânea, fortemente marcada pela new age (nova era), experiência mística que faz uma releitura de elementos de diferentes religiões e filosofias, os anjos se tornaram populares nas livrarias e bancas de jornal, com nomes, funções e rituais próprios.

Experiências de fé – Ao longo de 13 anos de sacerdócio, padre Agnaldo afirma que foram muitas as experiências vividas com a participação dos anjos. O que o impulsionou a lançar o projeto Rosário dos arcanjos, um CD de orações, publicado pela gravadora Paulinas-Comep. “Desejo partilhar essa experiência, divulgando espiritualidade dos anjos de uma forma consciente e madura”, destaca. Ele começou a voltar sua atenção para os anjos logo no início de seu sacerdócio, em 1999, quando uma senhora que estava muito enferma pediu-lhe orações. “Durante a oração eu invoquei a presença dos anjos, algo que nunca havia feito. No dia seguinte essa mesma pessoa me procurou para dizer que estava curada. Naquele dia eu descobri que podia contar com o auxílio dos anjos em meu ministério”, conta.

E são muitos os relatos que o sacerdote ouve de pessoas que viveram experiências em que Deus se manifestou em suas vidas de maneira sobrenatural, porém, sempre na simplicidade do cotidiano, assim como o relato da carioca Aline no início desta reportagem.

“Vivemos em uma sociedade agitada, em uma correria sem fim, que nem saboreamos a vida, muito menos olhamos para os acontecimentos de nosso cotidiano e perceber a ação da providência de Deus por intermédio dos anjos que, mesmo invisíveis, se tornam concretos por meios de pessoas e situações que nos confirmam a ação divina em nossas vidas”, completou o padre.




Fonte: Família Cristã 921 - Set/2012
Postado por: Família Cristã




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