Conexão política

Data de publicação: 03/10/2013

Fernando Geronazzo



Juventude descobre seu papel transformador e busca alternativas para agir politicamente na sociedade


A estudante Isadora Faber, 13 anos utilizou as redes sociais para chamar a atenção do governo para a necessidade de melhorias importantes em sua escola, na cidade de Florianópolis (SC). A jovem criou uma página em uma rede social com o título “Diário de Classe”, na qual publicava fotos das instalações da escola. Sua página ultrapassou os 600 mil fãs, ou seja, pessoas que acompanham suas publicações.

O sucesso da iniciativa de Isadora conseguiu uma reforma de emergência na escola onde estuda e serviu de inspiração para que vários diários de classe surgissem nas redes. “Agora na minha escola está tudo novinho, e os professores fazendo campanha de preservação”, comemorou na rede a garota.

Mas a iniciativa da estudante catarinense não é algo isolado, cada vez mais os jovens buscam um jeito diferente de resolver questões que antes só podiam ser tratadas dentro do âmbito tradicional da política. Em época de eleições, a juventude tem mostrado um novo modo de fazer política, assumindo sua responsabilidade social.

Tecnologia e política
– Com o objetivo de tornar a política mais transparente e resgatar a possibilidade de o indivíduo poder atuar politicamente na sociedade, um grupo de jovens especializados em tecnologia e informação, entre desenvolvedores, jornalistas, acadêmicos, designers e profissionais de informática, criou em 2009 uma comunidade chamada Transparência Hacker.

“Quando nós pensamos a política a partir da internet e das tecnologias digitais, começamos a eliminar os intermediários da política e passar a atuar diretamente nas questões de interesse público”, explica o hacker Pedro Markun, de 26 anos, um dos idealizadores da comunidade, que começou com 120 pessoas e agora conta com mais de mil em todo o Brasil.

A Transparência Hacker realizou uma série de iniciativas, desde o desenvolvimento de aplicativos digitais, websites, até participar do projeto da lei de acesso à informação (Lei 12.527, de 18/11/2011), que obriga órgãos públicos a prestarem informações sobre suas atividades a qualquer cidadão interessado, válidas para todo o país. Eles chegaram a literalmente redigir uma parte da lei, após a discussão aberta de 300 pessoas sobre o projeto.

“Nunca havíamos escrito uma lei. Então começamos a sintetizar as ideias debatidas em textos que pudessem ser acrescentados à lei, que foi aprovada praticamente sem alterações. Hoje nós temos uma das leis de transparência mais avançadas do mundo, por conta da participação de um grupo absolutamente informal e de maneira aberta”, ressalta o jovem. Outra grande iniciativa da comunidade foi a criação de um ônibus hacker, que percorre o País para compartilhar os conhecimentos do grupo, a fim de que mais pessoas possam desempenhar seu papel de agente político, como ensinarem crianças a elaborar projetos de lei. “Em Ribeirão Preto (SP), por exemplo, as crianças escreveram uma lei contra o bullying nas escolas, que instituía um feriado para que se pudesse discutir o tema envolvendo os pais”, conta Pedro.

Curiosos
– Popularmente, a palavra hacker é sempre associada a uma prática criminosa, quando invadem computadores e roubam informações sigilosas. Os jovens dessa comunidade não negam a existência de hackers criminosos, mas vão além quanto ao significado da palavra. “Quando usamos a palavra hacker para representar o que fazemos, estamos questionando esse conceito preconcebido. Para mim, ser hacker é alguém curioso, que quer entender tão profundamente de alguma coisa, sendo capaz de transformar isso para que funcione a seu favor”, argumenta Pedro, acrescentando: “O hacker na política é alguém que quer entender tão profundamente o sistema político que seja capaz de hackear a política, ou seja, transformá-la, atuar melhor”.

Pedro tem muitos sonhos. Um deles é possuir um barco hacker no Pará, para chegarem às comunidades ribeirinhas. “Tenho vontade também de fazer um ciclo completo, a partir da oficina de projeto de leis, elaborar um projeto com as crianças, juntar assinaturas na cidade para propor isso para a lei orgânica do município, levar para a câmara municipal e disputar politicamente a aprovação de uma lei.”

Protesto na rede
– O engajamento por vias alternativas também acontece em situações mais localizadas. Cansados das muitas mortes causadas por acidentes automobilísticos na Rodovia SC-438, no município de São Ludgero (SC), a 182 quilômetros de Florianópolis, os jovens da cidade de pouco mais de 11.700 habitantes se mobilizaram na rede social para reivindicar providências do Poder Público, a fim de diminuir o risco de acidentes.

“Perdemos muitos amigos em acidentes de trânsito nesse mesmo local. Alguma coisa precisava ser feita”, conta o eletricista Jonas Becker, 22 anos, um dos idealizadores da manifestação na internet. “Optamos pela rede social para que pudéssemos envolver o máximo possível de pessoas e para que as autoridades tomassem conhecimento da nossa reivindicação.”

Diferentemente do caso do “Diário de Classe” de Isadora, os jovens catarinenses não criaram uma página na rede, usavam seus próprios perfis pessoais para compartilharem imagens das vítimas do acidente. Uma das fotos chegou a ter mais de 500 compartilhamentos. Isso chamou a atenção da imprensa local, dos habitantes que não acessam as redes sociais e também dos vereadores da cidade, que acolheram a reivindicação. A mobilização resultou na colocação de redutores de velocidade (lombadas) no trecho da via. “Desde que as lombadas foram colocadas, ninguém mais morreu nesse local”, afirma Jonas. “Não precisamos fazer passeata, nem grandes protestos, apenas usamos uma ferramenta que estava ao nosso alcance e exercemos o nosso papel de cidadãos”, completa.




Fonte: Família Cristã 922 - Out/2012
Postado por: Família Cristã




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