Quando o ciúme é demais

Data de publicação: 05/11/2013

Rosangela Barboza
Ilustração: Rebeca Venturini

Ciúme em excesso pode destruir uma relação. Mas como driblar e controlar esse sentimento? Dar espaço ao outro é o primeiro passo para construir uma relação sólida.

A sabedoria popular diz que o ciúme é “o tempero do amor”. E há até quem goste de ser objeto do ciúme, por considerá-lo uma prova de amor. Cantado e declamado por um número sem fim de escritores, poetas e músicos de todas as épocas, na verdade o ciúme vai além de uma pitada romântica na vida de um casal, como pensam alguns: trata-se de um sentimento universal e que tem uma importante função em nossas vidas. “É um sentimento que faz parte da natureza humana, pois, adaptativamente, visa preservar o relacionamento” – explica o psicoterapeuta André Luiz Moraes Ramos, doutor em Psicologia pela UnB (Universidade de Brasília), que defendeu tese e escreveu um livro sobre o tema Ciúme romântico.

De acordo com especialistas, o ciúme, em doses moderadas, pode ajudar a evitar que um dos parceiros se envolva com outros pretendentes e desfaça o compromisso atual, como um casamento por exemplo, o que colocaria em risco também os cuidados do casal para com a criação dos seus filhos.

Segundo André Ramos, a história do ciúme começa quando um dos parceiros sente que seu relacionamento afetivo está ameaçado por um rival, real ou imaginário.“O ciúme reporta-se à exclusividade do amor de um parceiro amoroso”– afirma. “Cientificamente, esse sentimento é concebido como uma estrutura complexa, envolvendo sentimentos distintos que se combinam entre si, como medo, tristeza, raiva, culpa, inveja e excitação, diante da ameaça à exclusividade de um relacionamento romântico” − completa.

Apesar de o ciúme ser uma consequência natural do amor que se sente pelo outro, ele não é, necessariamente, afirmam estudiosos, a tão desejada prova de amor, já que tem uma única finalidade (até egoísta) de manter o parceiro a todo custo. É diferente de um sentimento altruísta, que busca o bem-estar do parceiro e que, por isso, zela pela sua relação com ele.

De qualquer forma, o ciúme ainda predomina dentro de nós, e todos somos suscetíveis a nos tornar ciumentos. Isso pode acontecer em diferentes graus: desde um desentendimento entre o casal, provocado por uma situação passageira, até um comportamento de desconfiança persistente, que pode causar muito sofrimento para os dois, com episódios de agressão física e psicológica e até casos extremos, como crimes que se destacam no noticiário policial, causados por um ciúme de origem patológica. Como tudo na vida, em excesso é prejudicial. “Que o ciúme não mate a certeza do amor entre os dois” – escreveu, sabiamente, o padre Zezinho, na canção “Oração pela família”, alertando sobre os riscos que esse sentimento, quando desmedido, pode trazer às famílias.

Para André Ramos, “quando o ciúme começa a interferir de modo intrusivo no relacionamento amoroso, é porque a situação já está caminhando para um lado sombrio”. O sentimento vem acompanhado de uma postura cerceadora, inquisitiva e verificadora do ciumento e ambos os parceiros sofrem. “O ciumento, ao perceber que o seu relacionamento está sendo ameaçado e que ele pode perder a pessoa amada para um rival, sente medo, tristeza e raiva. O parceiro sofre pelas humilhações, pelo excesso de controle, por ter sua dignidade duvidada, por agressões físicas ou emocionais” − acrescenta o psicoterapeuta.

Ciúme perigoso – As facetas do ciúme são muitas, lembram os especialistas. Esse sentimento tem, por exemplo, causas reais e fantasiosas. Há quem realmente está sendo traído pelo parceiro e chega aos consultórios com intenso sofrimento. Tal reação, afirmam os profissionais, é razoável e será preciso que a pessoa aprenda a lidar com os danos psicológicos da traição. E ainda existem pessoas que fantasiam e sentem o conhecido ciúme descabido.

O ciúme, quando exagerado e irrealista, pode ser considerado uma patologia, provocada por delírios de traição e são casos geralmente associados a transtornos psiquiátricos. O psicoterapeuta André Ramos lembra ainda que há casais que veem o ciúme como um jogo de sedução e, com isso, correm o risco de provocar um ciúme muitas vezes doentio. “Portanto, não se deve incentivar o ciumento, criando provas para justificar seu sentimento, pois é como assoprar a brasa brasa adormecida” – alerta. Seja como for, a situação fica insustentável quando são esgotadas as possibilidades de o próprio casal resolver sozinho o problema. “É hora de procurar ajuda psicológica qualificada” – orienta o psicoterapeuta.

Ronaldo Miliante de Melo e Tatiana Machado Miliante de Melo são assessores arquidiocesanos do Setor Pré-Matrimonial da Pastoral Familiar do Rio de Janeiro. Para eles, na maioria das vezes, o ciúme é um reflexo da imaturidade emocional ou da insegurança. “O ciúme pode levar a pessoa a ver realidades que só existem na sua imaginação. Um simples sorriso ou olhar podem ser interpretados como in fidelidades” − afirma Ronaldo.

As causas da falta de confiança entre o casal são muitas. “Podem ser geradas ao longo do próprio relacionamento dos dois, fruto da falta de um diálogo, choque de expectativas, diferenças na criação ou ainda uma instabilidade advinda da própria família de origem” − enumera Tatiana. Experiências vividas na infância ou adolescência, como casos de infidelidade entre os pais, brigas constantes ou separações, estão entre os causadores para tanta insegurança.

Ronaldo e Tatiana apontam outras saídas para um casal evitar o ciúme ou mesmo lidar com esse sentimento. “Em primeiro lugar, construir uma relação ‘a três’, ou seja, ele com ela e eles com Deus” − lembra Ronaldo. Tatiana emenda: “E, em segundo lugar, é importante viver o amor no amor, que é paciente, tudo suporta, não procura seu próprio interesse, não guarda rancor”− conclui.

Cuidado com o ciúme!

✔Não negue o sentimento. Ao reprimi-lo, você fará com que ele retorne de forma mais intensa e difícil de controlar.
✔Tente identificar em que medida o ciúme tem relação com sua própria personalidade, sua história, suas experiências amorosas anteriores. Se necessário, procure a ajuda de um terapeuta.
✔A melhor vacina é a confiança no parceiro e o melhor antídoto, uma conversa franca. A dúvida sobre a reciprocidade do amor é sempre lenha na fogueira.
✔Procure encontrar segurança em si mesmo em vez de buscá-la no parceiro.
✔Tente não generalizar algo que ocorreu uma, ou poucas vezes, entre a pessoa amada e o rival (real ou imaginário), como se esse fato se repetisse sempre.
✔O ciúme pode deixar a pessoa cega e fazê-la desprezar qualquer informação adicional que possa negar os indícios de uma traição. Assim, não rotule um comportamento como infidelidade, antes de checar o que realmente está acontecendo.

Fonte: Psicoterapeuta André Luiz Moraes Ramos





Fonte: Família Cristã 907 - Jul/2011
Postado por: Família Cristã




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