A paz esteja conosco

Data de publicação: 27/12/2013

Sérgio Esteves



Um capelão militar e uma monja budista refletem sobre a paz em nossa sociedade
- Entrevista com André Luís Garcia e Monja Coen Sansei

Nos últimos anos, o mito do brasileiro cordial, definitivamente, foi desmoralizado. Segundo informações fornecidas pela Estratégia Nacional de Justiça e Segurança Pública (Enasp), entidade de inteligência formada por órgãos governamentais de segurança, cujo objetivo é desarticular organizações criminosas e reduzir a violência no País, O Brasil já ocupa a primeira posição mundial em homicídios. Em 2010 mais de 49 mil pessoas foram assassinadas no Brasil, o equivalente a um massacre diário durante um ano inteiro, como o do Carandiru (conflito que, em 1992, resultou na morte de 111 detentos em São Paulo, (SP). Detalhe: grande parte dos assassinatos foi cometida por pessoas sem antecedentes criminais. Mas não é só: em 2011, a Polícia Militar do estado de São Paulo matou 437 civis, motivando o Conselho de Direitos Humanos da Organização das Nações Unidas (ONU) a pedir sua extinção. O que, em 2012, entidades criminosas tentaram fazer da pior forma possível, tirando a vida de pelo menos 95 policiais paulistas.

O que esperar do ano novo?! “Que saibamos ver a paz mesmo em meio às batalhas e às violências. Que saibamos cultivar nossa mente de paz, compreensão e cuidado”, deseja a monja Coen Sansei, primaz fundadora da Comunidade Zen Budista, com sede em São Paulo. Ela divide a entrevista a seguir com o ex-policial militar e hoje sacerdote André Luís Garcia, que atua na Pastoral dos Militares da Diocese de Itapetininga (SP) e é responsável pelo atendimento espiritual e pastoral aos soldados e oficiais do Batalhão de Itapetininga, aos alunos da Escola de Comando de Policiamento da Área de Sorocaba (SP) e aos soldados do Tiro de Guerra de Itapetininga. “Desejamos um ano diferente. Não queremos mais conflitos urbanos, assassinatos, suicídios e o ser humano afastado de Deus e de sua Igreja. Desejamos a paz que Jesus veio trazer ao mundo e aos homens de boa vontade!”, resume. Leia mais a seguir...

FC – Os budistas têm a fama de pessoas que cultuam a paz, e o budismo é quase tido como um sinônimo de pacifismo. Essa imagem corresponde, de fato, à verdade? É possível explicar em poucas palavras o conceito que o budismo tem a respeito da paz?

Monja Coen – Há várias escolas budistas e diferentes grupos em diversos países. É muito difícil generalizar. Porém, mais do que ser pacifista é necessário encontrar o caminho correto de transformar o mundo através da construção de uma Cultura de Paz. Quando falo de Cultura de Paz, quero realmente dizer o cultivo de ações, palavras e pensamentos que conduzam à Verdade e ao Caminho. Estamos todos interligados e interconectados a tudo que existe no Universo. Logo, cuidar da vida, em sua diversidade, é cuidar de nós mesmos. Nós, budistas, desenvolvemos práticas meditativas para o autoconhecimento, pois, conhecendo nossa própria mente-corpo-espírito, somos capazes de escolher nossas ações-palavras-pensamentos. Nosso modelo é Buda, um ser que nunca lutou, nem matou nem foi morto. Um ser humano que desenvolveu a Sabedoria Perfeita e, inclusive, dialogou entre partes em guerra restabelecendo a paz. Mais do que ser pacifista, temos de nos tornar esse átomo de paz na Terra.

FC – O que tem gerado tanta violência em nossa sociedade?


Monja Coen – Tenho tendência a acreditar que esse aumento da violência se deve principalmente à loucura produzida por uma sociedade de consumo e altamente competitiva, que gera muita frustração nas pessoas. Essa frustração, a falta de amor, a competitividade exacerbada e o consumo descontrolado fazem as pessoas perder o controle sobre elas mesmas. Também entendo que as inversões de valores, os jogos violentos, os filmes com ênfase no crime acabam estimulando, em nós, a criminalidade. Afinal, somos seres sensíveis. É preciso modificar muita coisa e a violência está à solta, em todos os lados. Mas há também pessoas – e muitas – que ainda vivem em harmonia com o Caminho Iluminado. Há ainda muitos seres do bem que cuidam, salvam plantas, animais, seres humanos, a água, o ar e a Terra.

Padre André Luís
– Minha resposta é uma apenas: falta de Deus no coração! Apesar de serem sensíveis, as pessoas então se tornando cada vez mais insensíveis. Hoje se mata por qualquer coisa, e a vida não tem mais valor algum. Só quem tem Deus no coração ama a vida e a preserva. Quem tem Deus no coração não faz mal à outra pessoa. De nada adianta investir em educação, saneamento básico, cultura e áreas de lazer para nossos jovens se as pessoas não tiverem Deus no coração. O ser humano tem uma tendência muito grande a ser egoísta, individualista, materialista, consumista e tantos “istas” que hoje estão na moda e ditam as condutas das pessoas que se deixam influenciar pelo capitalismo e, por que não, pelos próprios meios de comunicação que tantos valores errados levam para dentro de nossas casas. A fé em Deus, na vida de uma pessoa, é o que faz toda a diferença!

FC – O que levou o senhor, um soldado da Polícia Militar, a se tornar um sacerdote, a trocar a farda pela batina, como se diz?

Padre André Luís – Quando criança, gostava de brincar de rezar missa para as outras crianças. Aos 10 anos, porém, ingressei na Guarda Mirim de Itapetininga, minha terra, e aprendi noções de disciplina militar, responsabilidade, civismo, patriotismo etc. Acabei gostando e aos 19 anos prestei concurso para a Polícia Militar do estado de São Paulo. Mas em 1998, conversando com o nosso bispo, dom Gorgônio da Encarnação, ele comentou comigo a respeito da falta de padres e aquilo ficou na minha cabeça. Literalmente, fiquei entre a cruz e a espada. Bem, para resumir a história, em 2000 pedi minha baixa da Polícia Militar, ingressei no Seminário Diocesano João Paulo II e, em 2008, fui ordenado sacerdote. Sensibilizadopela situação dos soldados, dom Gorgônio me apoiou bastante na criação da Pastoral dos Militares da Diocese de Itapetininga. É algo realmente necessário. Para você ter ideia, em uma corporação de 100 mil homens e mulheres, a Polícia Militar conta com apenas dois capelães! É muito pouco para cuidar, por exemplo, do alto índice de suicídios que acontece entre os policiais. No desespero, pela falta de Deus no coração, para resolver seus conflitos, alguns decidem tirar sua própria vida. Quem sabe se em todos os nossos batalhões tivéssemos outras capelanias, o quadro poderia ser outro, não?

FC – Para se evitar a violência, a preocupação com a formação dos seres humanos e com os valores éticos também não é importante?

Monja Coen – Sim, hoje há muita informação e não nos preocupamos em formar seres humanos capazes de lidar com tanta informação. De fato, nos esquecemos dos valores éticos, de valores que transcendem até mesmo as próprias religiões. Quando Sua Santidade o XIV Dalai Lama, esteve no Brasil em sua última visita, falou algo com que concordo plenamente: temos de educar de forma secular e praticando uma educação inclusiva para os que creem e para os que não creem. Afinal, valores éticos transcendem as culturas e as religiões. Mas é preciso treinar professores, atores públicos, adultos e adolescentes, crianças e idosos. Todos nós precisamos nos reeducar e rever a nossa maneira de ser. Para criarmos uma Cultura de Paz, temos de rever como contamos a história da vida, a história do ser humano. Não cultivar o ódio, o rancor, a mágoa. Deixar de reclamar, de resmungar. Enfim, criarmos juntos as condições adequadas para que uma Cultura de Paz seja verdadeiramente cultivada e possa florescer em todos os países, em todas as nações.

FC – Muitos conflitos existentes no mundo têm exatamente a religião e a intolerância religiosa como os seus principais focos, não?

Monja Coen – Veja, há uma inversão de valores no mundo? Há. Há pessoas que em nome das religiões fazem atos impróprios? Há também. Mas isso não significa que as religiões sejam más, assim como as pessoas religiosas sejam más. Isso indica, sim, que há no nosso mundo pessoas envenenadas pela ganância, raiva e ignorância, que são os três maiores venenos do mundo, segundo Buda. Quando envenenadas, as pessoas reagem ao mundo, de forma imprópria. Por isso, precisamos cultivar os antídotos da doação, da compreensão e da sabedoria. Precisamos treinar isso em todos os níveis e em todos os locais. É preciso dar foco ao bem e à verdade e deixar de lado os troféus das energias perversas.

FC – Outro argumento que desestimula a paz aqui e em vários lugares do mundo é a existência de agentes da lei e da segurança pública que não exercem bem a sua missão e, até mesmo, usam de truculência ou se deixam levar pela corrupção, não? Como um capelão militar aborda esse tipo de policial, se é que é possível?


Padre André Luís – Com certeza, sempre que tenho oportunidade reflito muito sobre esse assunto, pois temos aí seres humanos mal-intencionados, que se deixam levar pelas suas fraquezas, permitindo-se corromperem, criando situações que mancham a imagem de uma instituição histórica, a Polícia Militar. Essas situações acontecem por vários motivos: falha na escolha do candidato; salários baixos; estresse; falta de religião etc. Claro que nada disso justifica, mas tem suas influências. Por tudo isso precisamos incentivar nossos policiais a buscar mais a fé, a ter Deus no coração, a buscar valores para que sua farda e a instituição sejam honradas. Particularmente, não vejo outra solução plausível para corrigir esses erros de conduta senão através da fé e dos valores que devem nortear a vida de qualquer cidadão de bem.




Fonte: Família Cristã 925 - Jan/2013
Postado por: Família Cristã




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