Um caipira especial

Data de publicação: 24/01/2014

Rosangela Barboza

“Sou caipira, pirapora, / Nossa Senhora de Aparecida, / Ilumina a mina escura e funda, / O trem da minha vida.” Todo brasileiro já se emocionou com esses versos do cantor e compositor Renato Teixeira.


"Romaria” tornou-se nacionalmente conhecida na voz de Elis Regina, em 1977, e abriu as portas para que a música caipira se expandisse pelo país afora, sobretudo na voz do autor da canção, Renato Teixeira. “Foi um grande sucesso que mudou minha carreira e criou espaço para que a música do interior paulista invadisse o mercado” − conta Renato.

Aos 68 anos, Renato Teixeira de Oliveira continua a cultivar seu amor e dedicação pela música caipira. Ele começou tocando para amigos em shows e colégios. Chegou a São Paulo no final dos anos 1960, onde participou da história da MPB (Música Popular Brasileira) como um “espectador privilegiado”. Em 1967 iniciou a carreira profissional no Festival da Record, com a música “Dadá Maria”, cantada por Gal Costa e Silvio César.

Em parceria com Sérgio Mineiro, criou o Grupo Água. “Tocávamos sem visar lucros. Foi com esse grupo que consegui assimilar o espírito da cultura caipira e projetá-la de uma forma contemporânea para todo o Brasil” − lembra.

Sua discografia conta com o CD, Amizade sincera, lançado em 2010, traz vários clássicos ao lado do amigo Sérgio Reis e ganhou o Disco de Ouro. Seus filhos João Lavraz e Chico Teixeira acompanham o cantor nos shows. “Meu ofício é gravar, fazer shows e compor” − conta Renato, com seu jeito simples, caipira e especial de ser.

FC − Qual a influência da sua família e da cultura vale-paraibana em sua carreira?
Renato Teixeira − Nasci em Santos, fui morar em Ubatuba, onde passei a infância, e aos 11 anos fui para Taubaté. Sou de uma família de muitos músicos. Quatro gerações anteriores à minha já se dedicavam à música, mas eu fui o primeiro que se profissionalizou. E, quanto ao fato de ter morado no Vale do Paraíba, sei que isso influenciou no estilo de música que faço. Minha formação toda, meus valores, são taubateanos, do Vale.

FC − Você diz que o seu sonho é divulgar a música caipira. Já realizou esse sonho?
Renato Teixeira − Não existe a música caipira. Existe a música de uma cultura, que é a cultura caipira. No campo da música essa cultura foi representada, primeiramente, por duplas como Tonico & Tinoco, Tião Carreiro e Pardinho. Na literatura, por exemplo, temos como representante o Monteiro Lobato, que é um caipirão. Nas artes, a Tarsila do Amaral; e no cinema, o Mazzaropi. Este é um universo muito importante, rico e definitivo na formatação da cultura geral brasileira. E meu sonho foi repaginar a música da cultura caipira. O importante é que conseguimos evitar que ela fosse desvalorizada e o meu trabalho vem nesse sentido.

FC – Você faz parte da história da música brasileira. Fale sobre o seu trabalho...
Renato Teixeira − Eu fiz com a música caipira a mesma coisa que o pessoal da Bossa Nova fez com o samba: repaginei. A minha origem é a MPB, e eu trouxe muito da MPB para a música caipira. A música da cultura caipira surgiu em séculos passados, quando os músicos ouviam as lavadeiras cantando e as acompanhavam ao violão. A minha música está muito ligada às histórias do povo e tudo o que eu faço tem essa conotação: pegar as coisas que o povo canta e transformar em música. O que aconteceu nesses anos todos é que ajudei a quebrar o preconceito contra a música caipira, pois as pessoas acreditavam que somente as músicas americanas e europeias tinham valor.

FC – Na música “Rapaz caipira”, você faz uma crítica sobre preconceito contra a cultura caipira. Ainda existe muito preconceito?
Renato Teixeira − Quando a gente fala caipira, as pessoas têm uma reação em fazer assim: “Ahhh...” Mas isso é uma ignorância profunda. Porque a cultura nacional está muito forjada na cultura caipira. Sem cultura ninguém cresce. O preconceito contra a cultura caipira é uma ignorância absoluta, de gente que tem falta de cultura. Às vezes é assustador, porque há pessoas que não têm a menor noção do que seja isso. Na verdade o que houve foi um bloqueio. A cultura do estado de São Paulo e da capital é muito elitista, com gostos voltados para a Europa, Estado Unidos. As pessoas viraram as costas para a cultura brasileira: até quebravam discos de música caipira na televisão. Foi um massacre motivado não pelo conhecimento, ou uma postura crítica, mas sim por ignorância e preconceito de pessoas que nunca pararam para reparar o que é esse universo da cultura caipira. É preciso se olhar mais e enxergar melhor a cultura do Brasil. Quando se fala mal de Tonico e Tinoco, Monteiro Lobato, Tarsila do Amaral, Mário de Andrade, critica-se esteios importantíssimos da cultura brasileira. Todo brasileiro que lê Lobato, por exemplo, tem um convívio literário com a cultura caipira da maior qualidade.

FC − Em que momento da sua vida você estava quando compôs a canção “Romaria”?
Renato Teixeira– A gente faz a música e nunca sabe o que será. Eu morava em Taubaté e ia muito a Aparecida, para casamentos, batizados e fazia também serenatas no colégio das freiras. O que me fascinava lá era o romeiro. O romeiro é uma coisa linda que traz uma pureza no olhar. Para pagar promessa para santo, o cara tem que ser muito decente. E sempre me impressionei muito com a fisionomia dos romeiros, com o fato de eles colocarem a melhor roupa para ir à romaria. Para mim, quando se fala que a “fé move montanhas”, está se falando do romeiro. E “Romaria” é uma canção para o romeiro que vai a Aparecida. A história de Nossa Senhora Aparecida é muito bonita e, vamos dizer assim, chuleia a história do Brasil. Sempre acompanha a gente. É o grande símbolo da Nação.

FC − Você tem grandes parceiros de caminhada. O que eles representam na sua vida?
Renato Teixeira − No mundo da música, a gente encontra pessoas de muita qualidade, amigas, o que é muito positivo. A música é como um depurativo: aperfeiçoa as pessoas. E, na minha caminhada, encontrei vários amigos leais. As pessoas envolvidas, sejam músicos, maestros e outras, têm comprometimento e isso é algo muito bom em nossa convivência. Sempre que posso eu faço trabalho com amigos, como Almir Sater, Zé Geraldo, Rolando Boldrin, Sérgio Reis... Eu sempre fui um cara de muitos amigos, tanto em Taubaté, como aqui, em São Paulo, e sempre considerei que a amizade é muito importante. Muitas vezes, uma palavra amiga vale mais do que milhões.

FC − Fale da importância da família na sua vida?
Renato Teixeira – Tenho quatro filhos, hoje sou um cara separado. Também tenho seis netos. Acontece que todos estão juntos. Todo mundo mora por perto. Fui criado numa família, numa casa, em que a porta da rua ficava aberta, e as pessoas entravam sempre. Em Ubatuba, tinha sempre comida no fogão para quem chegasse. Depois fui morar em Taubaté e a casa continuou aberta para as pessoas. Na família a gente se respeita e é claro que cada um tem seu ponto de vista. Mas a combinação é muito boa, não tem repressão, mas tem amor e segurança para todos os filhos. E o resto, a vida ensina para eles.

FC − Seus filhos Chico Teixeira (voz e violão) e João Lavraz (baixo) fazem parte da sua banda. O que isso significa para o músico e pai Renato Teixeira?
Renato Teixeira − Eu vim de uma família de músicos. E quando vi, meus filhos estavam no palco, tocando comigo. E é muito, muito gostoso. A gente sai da relação do lar e cai na estrada. E aí nascem os problemas comuns de viagens e sons, dentro da nossa realidade de músicos. E isso enriquece muito a relação. E é bom ver meus filhos cantando a música com a qual eu os criei. A música que eles tocam comigo é a mesma música que pagou a escola, a roupa, as férias deles. Neste momento, eles estão comigo, mas, na verdade, vai chegar a hora de cada um seguir o seu rumo. O Chico acabou de lançar o primeiro CD e está começando a fazer seus próprios shows. A ideia foi essa: vamos juntos até a hora em que vocês estiverem prontos para cada um seguir o seu caminho.






Fonte: Família Cristã 908 - Ago/2011
Postado por: Família Cristã




Comentários


Comente





Compartilhe este conteúdo:


Veja Também

Fórmulas de energia
Pratos à base de amendoim fazem parte da cultura do Brasil e de seus países vizinhos
À moda de João Batista
Alimento natural, o mel é um dos primeiros alimentos utilizados pelo homem
Mimos para a mamãe
Pequenos mimos, como gestos de eterna gratidão.
Todos os sabores do ovo
A ciência já comprovou: o ovo, principalmente a gema, não causa mal à saúde
Arroz de galinha caipira
Arroz de galinha caipira ao açafrão e capim-limão é de dar água na boca.
Início Anterior 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 Próximo Final

Termos mais pesquisados

Busca avançada
Copyright © Pia Sociedade Filhas de São Paulo - Brasil - Direitos Reservados