A alegria cristã

Data de publicação: 05/02/2014


Fernando Altemeyer Junior *

O papa Francisco acaba de presentear a Igreja com uma longa e bela exortação apostólica, Evangelii Gaudium, EG, A Alegria do Evangelho, na qual propõe caminhos para o percurso da Igreja nos próximos anos. A exortação possui 48 mil palavras em 288 parágrafos, 5 capítulos, 163 páginas, 217 notas de rodapé e muitas metáforas da vida cotidiana.

É um novo poema da alegria. Já conhecíamos a Ode à Alegria, inserida na Nona Sinfonia de Beethoven, de 1823. Agora recebemos um novo hino da alegria, carregado de endorfina e serotonina, para mexer com cada cristão e estimular vigorosamente a ação evangelizadora.

A alegria citada na Bíblia Sagrada 205 vezes se faz presente e ativa na vida da Igreja do século 21 ao estimular cada cristão no seguimento de Jesus. Afinal, o objeto primeiro da alegria é o próprio Deus que se dá por amor (Ne 8,10; Est 14,18).

A exortação papal apresenta o ato de evangelizar como “uma doce e reconfortante alegria”, pois quem vive “o mundo do nosso tempo, procura, ora na angústia, ora na esperança, receber a Boa-Nova dos lábios não de evangelizadores tristes e descorçoados, impacientes ou ansiosos, mas, sim, de ministros do Evangelho cuja vida irradie fervor, pois quem recebeu primeiro em si a alegria de Cristo” (Evangelii Gaudium 10).

Não roubar o Evangelho − O papa oferece essa mensagem de coragem para cada cristão batizado. Há uma necessária e urgente reforma a ser feita por todos os seguidores de Cristo e que são os protagonistas da Igreja. Cada evangelizador precisa assumir a reforma como uma tarefa global e também local. Para realizar essa conversão por dentro do Evangelho, o papa Francisco tem alguns eixos ou ações em que se movimentam: uma Igreja em “saída” (EG 20); discípulos missionários que se envolvem (EG 24); uma Igreja da misericórdia e da liberdade leve e suave (EG 43); opção pelos pobres e pelas periferias (EG 48); sempre disposta a ouvir os clamores de povos inteiros, os mais pobres da terra (EG 190 e 191).

Alguns problemas e tentações são apresentados para ser enfrentados corajosamente: evangelizador com cara de funeral (EG 10) ou múmia de museu (EG 83); os nômades sem raízes (EG 29); a economia da exclusão (EG 53-54); a idolatria do dinheiro (EG 55-60); a desigualdade que gera violência (EG 59-60); o narcisismo paralisante (EG 81-83); o pessimismo estéril (EG 84-85); o mundanismo espiritual (EG 93).

Apresenta, também, um conjunto de esperanças e luzes: acredita na renovação eclesial fruto da ação do Espírito Santo (EG 27); acredita na colegialidade das Igrejas e dos ministérios eclesiais cooperativos, pois a centralização excessiva, em vez de ajudar, complica a vida da Igreja e a sua dinâmica missionária (EG 32); acredita em um novo papel ativo de leigos (EG 102), acredita nas mulheres (EG 103), acredita nos jovens (EG 105), bota fé em todos os que se assumem como discípulos missionários (EG 119).

Aspectos relevantes da Nova Evangelização serão uma homilia sapiencial (EG 135-144), a linguagem positiva da fé (EG 159) e a catequese querigmática e mistagógica (EG 163-168). O papa faz pedidos insistentes aos pastores, às religiosas e aos leigos: cuidem dos vulneráveis (EG 209-216); não deixem ninguém tirar a alegria dada pelo Ressuscitado (EG 5); façam da Igreja um lugar de portas abertas (EG 46); não deixem que nos roubem o Evangelho (EG 97); levem aos outros o amor de Jesus em qualquer lugar: na rua, na praça, no trabalho, num caminho (EG 127); sejam uma Igreja pobre para os pobres (EG 198).

Chamados para viver a alegria do Evangelho. Uma Igreja alegre deve ser missionária. Diz o papa Francisco: “Sonho com uma opção missionária capaz de transformar tudo, para que os costumes, os estilos, os horários, a linguagem e toda a estrutura eclesial se tornem um canal proporcionado mais à evangelização do mundo atual que à autopreservação” (EG 27).
Essa proposta autêntica do papa Francisco enfrenta muitas forças contrárias, dentro e fora da Igreja, por conta das imagens idealizadas de saber e poder construídas durante séculos pelo regime da cristandade. Sem enfrentar essas resistências, a novidade da missão evangelizadora poderia fracassar.

Na cruz e na alegria, a mudança − Francisco é o papa da esperança que acredita na cruz e na alegria do Deus vivo e libertador para esta mudança de rumos, ações pastorais e perspectivas. Será preciso assumir-se como alguém entusiasmado, seguro e enamorado por Jesus para viver esta tarefa (EG 266). Para isso será preciso assumir a realidade como algo mais importante e superior às ideias (EG 231-233).

Este momento eclesial nos aproxima de Maria, a Mãe da Evangelização, e pedimos a ela: “Alcançai-nos agora um novo ardor de ressuscitados para levar a todos o Evangelho da vida que vence a morte. Dai-nos a santa ousadia de buscar novos caminhos para que chegue a todos o dom da beleza que não se apaga. Para que a alegria do Evangelho chegue até os confins da terra e nenhuma periferia fique privada de sua luz. Mãe do Evangelho vivente, manancial da alegria para os pequeninos. Rogai por nós. Amém. Aleluia!” (EG 288).

Tudo será possível se a evangelização for feita com Espírito. Eis um texto que considero chave na exortação: “A missão no coração do povo não é uma parte da minha vida, ou um ornamento que posso pôr de lado; não é um apêndice ou um momento entre tantos outros da minha vida. É algo que não posso arrancar do meu ser, se não me quero destruir. Eu sou uma missão nesta terra, e para isso estou neste mundo. É preciso considerarmo-nos como que marcados a fogo por esta missão de iluminar, abençoar, vivificar, levantar, curar, libertar. Nisto se revelam a enfermeira autêntica, o professor autêntico, o político autêntico, aqueles que decidiram, no mais íntimo do seu ser, estar com os outros e ser para os outros” (EG 273).

É chegada a hora de fazer uma opção: ou a vida no Espírito que salva ou a tristeza que paralisa e deprime. Fiquemos com a alegria que brota da cruz de Cristo! Só ela pode nos salvar de verdade, pois é fruto do Espírito Santo (Gl 5,22).

* Fernando Altemeyer Junior é teólogo e doutor em Ciências Sociais, professor do Departamento de Ciências da Religião, da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP)




Fonte: Família Cristã 937 - Jan/2014
Postado por: Família Cristã




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