Cuidar da Água

Data de publicação: 07/02/2014


Celso Sávio
Fotos José Augusto Cíndio

Extrema (MG), município distante 490 quilômetros de Belo Horizonte e a menos de 100 quilômetros de São Paulo (SP), leva a denominação pela distância geográfica. Fica no extremo do estado mineiro em direção ao sul, na divisa paulista. No sopé da Serra da Mantiqueira, seus 30 mil habitantes têm uma qualidade de água invejável.

Esse privilégio, no entanto, não fica restrito. Hoje, as nascentes e os riachos bem cuidados, tributários do Rio Jaguari e formadores da Barragem do Rio Jaguari, são responsáveis no mínimo por 75% da capacidade do Sistema Cantareira, que abastece mais de 8 milhões de pessoas da capital e Grande São Paulo, com água praticamente potável. Isso foi conquistado pelo Projeto Conservador das Águas, responsável pela preservação das fontes de água e das matas ciliares e ainda da Floresta Atlântica que as circundam, além de evitar a erosão dos morros.

Enquanto as Cordilheiras Andinas vêm derretendo − com prejuízo do abastecimento de água na região sul da América do Sul e previsões catastróficas no abastecimento −, a Amazônia brasileira sendo devastada, e o líquido cada vez mais se escasseando, a cidade de Extrema recebe o Prêmio Internacional para Melhores Práticas da Organização das Nações Unidas (ONU) entregue no mês de maio, em Dubai, nos Emirados Árabes.

O Projeto Conservador das Águas concorreu com 550 outros de todo o mundo, classificando-se entre 46 finalistas, para ser eleito o primeiro na categoria Prêmio Habitat. A torre que representa a tomada de ar para refrescar os aposentos das residências árabes e que é o símbolo do prêmio é um dos orgulhos de Extrema. É pioneiro no Brasil seguido atualmente por 20 municipalidades, sendo que apenas três, Apucarana (PR), São Bento do Sul (SC) e Rio Claro (RJ), já implantaram o sistema. Desde sua divulgação, o projeto recebeu a visita e consultas de mais de 600 autoridades municipais interessadas no conhecimento das técnicas desenvolvidas em Extrema.

Com programa iniciado pelo biólogo Paulo Henrique Pereira em 1996, o projeto tornou-se possível com uma lei municipal de 2005, autorizando recursos a proprietários rurais, pequenos agricultores ou produtores de leite, conscientizados sobre a preservação e cuidados com suas terras. Quem adere ao projeto tem bônus, resgatados a cada mês, no valor de 210 reais por hectare/ano. Os recursos advêm do orçamento da Secretaria do Meio Ambiente do município e de parcerias. Neste ano já foram destinados 1,5 milhão de reais ao projeto, segundo o prefeito dr. Luiz Carlos Bergamin, um médico de formação. “Ninguém é obrigado a aderir, porém, a maioria dos moradores de nossa zona rural já se conscientizou da importância do projeto”, assegura. “No início, em 2005, foram restaurados 24 hectares, e hoje a área atinge 7.300 hectares, no total de 150 propriedades. Foram replantadas 378 mil árvores nativas, originárias da Mata Atlântica e fornecidas pelo programa da Organização Não Governamental (ONG) SOS Mata Atlântica”, acrescenta.

Quem se cadastra é beneficiado também pela instalação de sistemas de tratamento do esgoto sanitário da zona rural, evitando que dejetos sejam depositados nos leitos de riachos, além de contarem com a construção de barragens e patamares para evitar a erosão das encostas. Estes últimos procedimentos propiciam a filtragem da água através da areia e chegar ao lençol freático, propiciando ainda aos riachos uma água praticamente limpa. Ajudam na recuperação dos leitos das estradas – todas de terra – que cortam a região de muitos morros. Nas “barraginhas” é armazenado o cascalho, que, futuramente, será transportado para tapar buracos ocasionados pela chuva nas ligações vicinais.

Proteger os olhos-d’água − O município de Extrema conta com mais de 2 mil fontes rastreadas pela prefeitura. Formado em 1995, o biólogo Paulo Henrique Pereira, assim que chegou à cidade, observou esse potencial e passou a desenvolver um projeto para a preservação dessas áreas. Montou uma equipe subordinada à Secretaria do Meio Ambiente, que passou a ser a primeira experiência brasileira naquela modalidade de preservação. Inicialmente os trabalhos se concentraram, ainda hoje é prioridade, na proteção dos olhos-d’água.

As nascentes dos córregos e pequenos cursos de água da região são cercados, evitando que o gado pisoteie a área e acabando com a poluição. Os proprietários não arcam com qualquer custo. “Nós oferecemos a madeira, mourões, o arame e a mão de obra para essas áreas. Além disso, ainda delimitamos as margens para preservação da mata ciliar, também protegidas por cercas, e fazemos o replantio de árvores do sistema Mata Atlântica para a preservação de nossas florestas”, revela o biólogo. “O proprietário só entra com sua boa vontade em proteger o que é seu. E ainda recebe”, comenta entusiasmado e agradecido. Sete bacias fazem parte do território de Extrema – Salto, Posses, Forgios, Juncal, Furnas, Tenentes e Matão –, numa área de 24 mil hectares, sendo que nas três primeiras o projeto já foi implantado. A estimativa é de que, a cada ano, 1 mil hectares sejam cadastrados para produtores receberem o benefício. Na área operacional, Benedito Arlindo Cortez, coordenador do Projeto Conservador das Águas, é responsável por 30 operários. Eles são treinados, ainda, para o combate a incêndios nas matas. “Arlindão” inicia a jornada às 6h30, todos os dias. Visita propriedades e fiscaliza a manutenção das áreas protegidas. Costuma tentar arregimentar novos agricultores ou pecuaristas para o projeto, argumentando sobre a necessidade da preservação de suas áreas. Foi ele, praticamente, o responsável pela adesão do produtor de leite Hélio de Lima ao projeto.

“Helião” e a esposa, Olga de Oliveira Lima, são proprietários do Sítio Raio Solar, com área de 10,5 alqueires, no bairro Salto de Cima. Entrou para o Conservador das Águas há quatro anos. Suas terras contam com quatro nascentes. “Quando comprei isto aqui o morro estava pelado. Fui informado de tudo e agora tá tudo reflorestado. O gado não suja mais a água. Posso tomar água na própria fonte e ainda recebo por isso”, comemora. Com os 1,5 mil reais que recebe mensalmente, Hélio de Lima construiu nova e moderna casa, orgulho de sua esposa, Olga. O casal teve sete filhas. “Todas casadas”, adverte. Um dos genros do casal possui uma propriedade do outro lado da Serra da Mantiqueira. Este é resistente ao projeto. Porém o sogro assegura: “Vou fazer a cabeça dele. Vai entender que isso faz bem”.

À frente da casa em um pequeno declive, o coordenador do projeto, “Arlindão”, mostra um pequeno tanque em plástico enterrado no gramado. É uma fossa séptica. Consiste em um biodigestor para tratar a água de esgoto sanitário da residência. No equipamento, são depositados todos os dejetos que, depois de tratados, escorrem por canalizações que se infiltram na terra. A parte sólida que é separada passa a ser usada posteriormente como adubo na horta e no jardim do sítio. Tudo foi instalado gratuitamente, assim como a água que abastece a casa dos Lima, que chega por gravidade de uma das fontes da Serra da Mantiqueira. A família Lima comemora ainda as encostas de suas terras protegidas pelos sistemas desenvolvidos pelo Projeto Conservador das Águas.


Rio Jaguari

A nascente do Rio Jaguari está localizada na Serra da Mantiqueira. Um pequeno fio de água vai se engrossando com os tributários das sete bacias hidrográficas de Extrema até chegar, através de caminhos sinuosos, aos municípios de Joanópolis e Piracaia, já no estado de São Paulo. Os 100 quilômetros por via terrestre, pela Rodovia Fernão Dias, que separam Minas Gerais da capital paulista, são praticamente imperceptíveis, se considerarmos a distância que a água consumida por 49% da população paulistana percorre até chegar ao Sistema Cantareira. Curvas e mais curvas levam o líquido até Joanópolis, este município a escorre depois para

Piracaia, Nazaré Paulista e Mairiporã, antes de chegar à Serra da Cantareira. É através desse sistema que a água, praticamente limpa, chega aos canos das casas das zonas norte, leste e oeste de São Paulo. A água de Extrema, pelos cuidados, não é poluída como aquela dos reservatórios de Guarapiranga, Billings, Alto Tietê e outros.




Fonte: Família Cristã 930 - Jun/2013
Postado por: Família Cristã




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