Renúncia de Bento XVI

Data de publicação: 12/02/2014


Por Antônio Edson

Perplexidade, atordoamento e comoção. Essas foram as palavras apresentadas para descrever as sensações experimentadas por religiosos, leigos, jornalistas e auxiliares por volta das 11 horas da manhã de 11 de fevereiro de 2013, uma segunda-feira, na sala do Consistório do Palácio Apostólico do Vaticano, em Roma. E que logo depois seriam acompanhadas por um rastilho de incredulidade em todo o mundo, rendendo manchetes e edições extras em todos os meios e veículos de comunicação. Sim! O papa Bento XVI, o 265º pontífice da Igreja Católica, acabava de ler, em latim, uma nota de 18 linhas e 260 palavras, anunciando sua renúncia. A primeira em quase 600 anos – o último a abdicar do trono de Pedro até então havia sido Gregório XII, em 1415. Em mais de 2 mil anos da Igreja Católica não mais de dez papas abriram mão de seus pontificados. No caso de Bento XVI, a renúncia foi anunciada após 7 anos, 10 meses e 10 dias de governo.

O posto de papa tornou-se vacante 17 dias após a declaração da renúncia, às 20 horas do dia 28 de fevereiro, quando Ben¬to XVI deixou suas funções. O papa emérito ou bispo emérito de Roma hoje mora no único mosteiro do Vaticano, o Mater Ecclesiae. No mesmo dia, o camerlengo, cardeal Tarcisio Bertone, então secretário de Estado da Santa Sé, convocou um conclave, reunião do colégio eleitoral formado por 118 cardeais (todos com me¬nos de 80 anos), cuja missão é eleger o novo papa. Para tanto, esse precisaria receber dois terços dos votos não importando quantos escrutínios sejam necessários. Segundo o padre Federico Lombardi, diretor da Sala de Imprensa da Santa Sé, a expectativa é de que o sucessor de Bento XVI fosse anunciado em meados de março. E antes da Páscoa, foi anunciado “habemus papam”.

O que aconteceu? – Como se sabe, Bento XVI alegou, em sua renúncia, limitações físicas – “Minhas forças, em consequência de minha idade avançada, não são mais adequadas ao exercício do pontificado” – e não há razões para descrer de sua sinceridade. Com 85 anos, ele acumula vários problemas de saúde. Mas Bento XVI também deixou claro que se fosse outra a situação do mundo – “sujeito a tan¬tas mudanças rápidas e abalado por questões de profunda relevância para a vida da fé” – poderia continuar por mais algum tempo no trono de Pedro. Tal frase ajuda a entender a razão de a sua renúncia ter causado uma avalanche de teorias conspiratórias e de análises e interpretações mais e menos ajuizadas por parte de vaticanistas, historiadores, sociólogos, teólogos e pessoas de dentro e de fora da Igreja. Afinal, é da natureza humana procurar explicações lógicas para fatos que surpreendem. Algo nem sempre fácil...

“Todo mundo ainda quer entender o que aconteceu”, resumiu, com franqueza, o sociólogo Francisco Borba, coordenador do Núcleo Fé e Cultura da Pontifícia Universidade Católica (PUC) de São Paulo (SP). “Mesmo que uma renúncia sempre fosse possível, seria improvável antes de o Ano da Fé terminar”, afirmou. Então por que ocorreu?! “Foi antecipada para fortalecer a posição dos que querem maior transparência na Igreja e de uma hierarquia mais despida de poder e aberta a autocríticas. O que serve para conservadores e progressistas, pois dos dois lados há pessoas disponíveis às mudanças e outras aferradas ao poder”, interpreta o sociólogo, para quem Bento XVI somou um terceiro polo às duas correntes. “Como João Paulo II, ele não é progressista renovador nem reacionário tradicionalista, mas adepto da renovação conservadora ou de uma Igreja mais mística, de onde processos de mudança devem partir da recuperação da tradição. Sua renúncia foi um passo gigantesco para a Igreja se assumir como tal. Uma modernização e tanto!”, classifica.

Desapego e rupturas – Não restaram dúvidas a respeito da posição de Bento XVI em prol de uma Igreja mais mística e de uma hierarquia mais despida de poder, uma vez que, pouco mais de 24 horas após a leitura de sua renúncia, o então papa, na homilia da Missa de Quarta-Feira de Cinzas, 13 de fevereiro do mesmo ano, afirmou que o rosto da Igreja muitas vezes é deturpado pela divisão do seu corpo eclesial e que nela não deveria existir a procura por carreiras pessoais em detrimento de um projeto comunitário. O recado foi entendido... “Ele disse isso porque, aparentemente, há fenômenos nesse sentido e ele quer corrigi-los. Eles, no entanto, sempre existiram não apenas junto à alta hierarquia da Igreja Católica, mas em toda a humanidade. Por isso, religiosamente, somos chamados a superá-los através de chamamentos como o de Bento XVI”, interpreta Matthias Grenzer, doutor em Teologia Bíblica pela Faculdade de Filosofia e Teologia St. Georgen de Frankfurt, Alemanha, e professor da Faculdade de Teologia da PUC de São Paulo.

A própria renúncia foi interpretada como prova de humildade e de desapego ao poder. “O que surpreendeu na renúncia foi Bento XVI ter aberto mão do costume de um papa precisar morrer para ser substituído e, assim, ter inaugurado um novo modelo de gestão da Igreja Católica que precisa, de fato, ser renovada. Isso é animador”, interpreta o filósofo e escritor Mario Sergio Cortella. “Ao renunciar, Bento XVI considera possível promover ruptu¬ras! De agora em diante, se alguém argumentar que algo, na Igreja, não pode ser permitido em razão de um costume, o argumento não terá a mesma força”, acredita. Outro lega¬do de Ratzinger, segundo o filósofo, foi ter aberto, com sua inteligência e erudição de teólogo, um diálogo cultural com pensadores contemporâneos. “As polêmicas levantadas por eles ajudaram bastante. Afinal, a colaboração em uma discussão não se dá exclusivamente com uma pessoa que concorda comigo, mas também por quem apresenta argumentos sólidos do outro lado, para serem confrontados”, enfatiza.

Enfim, Vaticano II –
“De fato, essa abertura de Bento XVI a um diálogo cultural com a contemporaneidade, assim como sua renúncia, leva à humanidade a mensagem de que, finalmente, chegou ao fim a era dos papas pré-conciliares. Definitivamente, entramos no tempo dos papas pós-Concílio Vaticano II, em que esses líderes religiosos do catolicismo se relacionam com o mundo da mesma forma com que o mundo – incluam-se aí os líderes não religiosos e de outras religiões – se relaciona com eles. E sem abrir mão de uma dimensão espiritual e de um desejo divino”, complementa o sociólogo Francisco Borba.

Outro argumento a favor da preocupação de Joseph Ratzinger em deixar a Igreja conectada à contemporaneidade foi sua coragem de abrir as portas da instituição para um sucessor com mais força para reagir aos desafios que a humanidade de hoje apresenta. “Foi algo muito sereno”, acredita Matthias, para quem além das questões humanas e políticas de sua renúncia não podem ser esquecidas as questões de fé. “Sua renúncia foi apresentada como fruto de seu diálogo com Deus. Às vezes, a gente não leva mais em conta o fato de alguém se abrir livremente à vontade de Deus e segui-la com firmeza”, interpreta Matthias. Assim, depois de um papa pastor (João XXIII), de um papa cerebral (Paulo VI), de um papa brevíssimo (João Paulo I) e de um papa midiático, carismático e peregrino (João Paulo II), Bento XVI, possivelmente, poderá passar a história como o papa que assumiu como teólogo e renunciou como místico. E que optou por sair de cena e deixar a Igreja nas mãos de Deus. Onde, espera-se, deverá ficar até o fim dos tempos.




Fonte: Família Cristã 927 - Mar/2013
Postado por: Família Cristã




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