Wilheim morre aos 85 anos

Data de publicação: 14/02/2014

O arquiteto Jorge Wilheim falece aos 85 anos

Jorge Willheim morreu na madrugada da sexta-feira, 14 de fevereiro. Em dezembro do ano passado o arquiteto envolveu-se em um acidente de carro e há dois meses estava internado, mas não resistiu. Veja, a seguir, a entrevista que Jorge Willheim concedeu à Revista Família Cristã em setembro de 2013.

Renunciar a quatro rodas

César Vicente

 

“Refletir sobre a questão da mobilidade urbana não é atributo exclusivo de políticos”, garante o arquiteto e urbanista Jorge Wilheim

Planejador do município de Angélica (MS), que surgiu há exatos 50 anos em meio à floresta, no Centro-Oeste brasileiro, coordenador de mais de 20 planos diretores – como os de São Paulo (SP),Curitiba (PR) e Goiânia (GO) – e criador de uma série de projetos urbanos como os do Vale do Anhangabaú, Parque Anhembi e Páteo do Colégio, todos na capital paulista, o arquiteto e urbanista Jorge Wilheim, 85 anos, é um homem, por opção e profissão, preocupado com a mobilidade urbana. “Tivemos um avanço espantoso na mobilidade da transmissão das ideias, mas o mesmo não acontece com as cargas ou com as pessoas. E, quando jogamos isso sobre a geografia das regiões urbanizadas e as grandes metrópoles, o problema se agrava”, compara. Para o secretário municipal de Planejamento Urbano do governo de Marta Suplicy (2001-2004) e secretário estadual do Meio Ambiente do governo Orestes Quércia (1987-1990), a solução está na consciência da cidadania, principalmente em um século e em um mundo onde mais da metade da população urbana já se concentra nas cidades – serão 70% em 2050, segundo a Organização das Nações Unidas (ONU). “Em um curto prazo, uma solução, para quem pode, deveria ser a de morar perto do seu principal destino cotidiano, como a escola e o trabalho, e se abastecer no próprio bairro, de modo a diminuir a necessidade de deslocamentos, principalmente de automóvel”, aponta. Outras soluções estão na entrevista a seguir.

FC – Recentemente, o País presenciou manifestações públicas cuja pauta foi a deficiência da mobilidade urbana. O que os urbanistas e os planejadores de cidades teriam a dar como resposta? Ou a questão diz respeito apenas aos políticos?

Jorge Wilheim – Em absoluto. Refletir sobre essa questão não é atributo exclusivo de políticos, embora ela se concretize, de fato, na esfera da política urbana. O artigo 6º da Constituição inclui “circular” entre os direitos fundamentais sociais. De modo semelhante, fala-se no direito à educação, à saúde e à habitação. O próprio Estatuto da Cidade, criado em 2001, em seu artigo 2º, refere-se ao “direito à cidade”. Mas essas afirmações são parcialmente retóricas e nenhuma delas diz que, para o cidadão, o direito à habitação, à saúde e ao transporte deve resultar em alguma gratuidade. E essa me parece ter sido uma das reivindicações... O definido apenas é que o estado deve ter esses serviços fundamentais como sua responsabilidade. Logo, ele não pode se eximir de encontrar solução para seus problemas. Em consequência, o estado criou programas específicos para a habitação, para a saúde, como o SUS (Sistema Único de Saúde), e para a educação básica. Em 2012, criou a Lei 12.587, a chamada Lei Nacional de Mobilidade Urbana, com dispositivos genéricos a serem regulamentados localmente. E isso ainda precisa ser feito.

FC – Então, a solução, para o senhor, não viria através de uma lei que instituísse o transporte como um direito? Nem se o transporte público fosse, por exemplo, financiado pelos pedágios urbanos?


Jorge Wilheim – Em primeiro lugar é preciso esclarecer o que se deseja alcançar… Se falamos na fluidez do trânsito, na gratuidade de um direito ou na melhoria do serviço. O pedágio, certamente, reduz o trânsito em determinada região, como em centros de negócios, áreas portuárias etc. Mas, no caso da cidade de São Paulo, por exemplo, onde deveria ficar a “porta de entrada” da região a ser pedagiada? Creio que o pedágio se converteria em uma taxação pelo uso do automóvel e se desvincularia da relação uso-região. Também generalizaria o usuário e, talvez, não fosse uma solução justa.

FC – Quais as dificuldades de se instituir a tarifa zero em uma sociedade capitalista?

Jorge Wilheim
– O transporte público é uma concessão do governo. No caso de São Paulo, ele é resultado de uma licitação e permitiu que a privatização fosse cartelizada, quando o interesse público deve se sobrepor ao interesse privado. E não o contrário. Como já disse e repito, o estado não pode se eximir de encontrar solução para seus problemas, inclusive o da cartelização do transporte público. A questão, portanto, é política e cabe ao governo resolvê-la.

FC – Mas enquanto ele não resolve, a cidade para com tantos automóveis particulares nas ruas. Não haveria uma solução em curto ou médio prazo?

Jorge Wilheim – Olha, em um curto prazo, falando da cidade de São Paulo, uma solução, para quem pode, deveria ser a de morar perto do seu principal destino cotidiano, como a escola e o trabalho, e se abastecer no próprio bairro, de modo a diminuir a necessidade de deslocamentos, principalmente de automóvel. Em médio prazo, devemos retomar o Plano de Transporte, de 2004, que permaneceu interrompido durante oito anos, e construir os corredores exclusivos para ônibus. O que começou a ser feito somente este ano, agora, pela Prefeitura de São Paulo. E os ônibus deveriam ser modernizados. Já em um longo prazo, entre 15 e 20 anos, deve-se concluir a malha metroviária e, eventualmente, implantar linhas de bonde. Não como existiam antigamente, mas os chamados Veículos Leves sobre Trilhos, os VLTs, ligando bairros próximos entre si.

FC – E o metrô? Por que, no caso de São Paulo, estamos atrasados na construção de novas linhas?

Jorge Wilheim – Por miopia e falta de vontade política. Se a alegação é de que construir metrô é muito caro, não podemos dizer que São Paulo seja uma cidade pobre. O metrô de São Paulo começou a ser construído em 1968 com o prefeito Faria Lima, um administrador de muita visão. Ele também fez o primeiro Plano Diretor da cidade. Quando ainda era candidato a prefeito, logo depois do golpe de 1964, Faria Lima pediu minha opinião sobre de que São Paulo precisava. A primeira coisa que disse foi a encomenda de um Plano Diretor. Lembro que simultaneamente, a Cidade do México começou a construir seu metrô. E hoje o metrô mexicano tem mais de 200 quilômetros em linhas enquanto nós temos apenas 74,3 quilômetros. Evidentemente, falhamos. Mas não por causa de dinheiro, mas por falta de visão! É claro que construir metrô em São Paulo é mais caro do que na Cidade do México. É até mais fácil fazer metrô em Paris do que aqui, pois nossas topografia e geologia não ajudam. O problema é que o metrô é absolutamente necessário.

FC – Principalmente para tirar os veículos particulares das ruas, não?


Jorge Wilheim – Sem dúvida. Esse é o desafio. O dramaturgo italiano Luigi Pirandello escreveu certa vez,  ironicamente, que o automóvel é uma “invenção do diabo”. De fato, é difícil renunciar a esse objeto bonito, sensual e poderoso, que nos seduz com a liberdade de movimento! Com ele, nós nos locomovemos quando, para onde queremos e com quem queremos! Por causa dessa cultura e de nosso individualismo, acabamos por relutar em deixar o carro em casa. Contribui para isso a constatação de que o ônibus nem sempre é moderno ou confortável. Para piorar, o governo estimula a produção automobilística, renunciando a impostos, como medida anticíclica correta face à crise econômica de 2008 e ao risco de desemprego.

FC – Em muitas cidades brasileiras há, ainda, a resistência contra o transporte coletivo, a julgar pelas críticas que a implantação dos corredores exclusivos para ônibus vem recebendo, ultimamente, em São Paulo...

Jorge Wilheim
– Sim, ainda não nos rendemos à preocupação de que é absolutamente necessário os ônibus circularem em faixas próprias. A resistência aqui em São Paulo contra os corredores de ônibus foi e continua fantástica. Acionaram até o Ministério Público contra isso. Mas, além do ônibus em faixa própria, modernizado e com as portas abrindo e fechando em ambos os lados, precisamos
do metrô e do trem, fundamentais na integração do transporte de massa.

FC – Diante de tantas necessidades, o senhor acredita que o individualismo e o egoísmo vencerão as demandas coletivas?


Jorge Wilheim – Não, meus amigos dizem que minha doença é o otimismo, eu creio que nosso espírito de cidadania vencerá. Apesar dos apelos tão fortes para o individualismo, acredito que num futuro próximo o automóvel deverá ser um objeto de uso temporário e não uma propriedade particular. Essa é uma tendência que há de ser imposta pela nossa consciência. A conscientização chegou a tal ponto que, hoje em dia, a indústria automobilística, em alguns países da Europa, já se sente até obrigada a fazer propaganda incentivando o uso do automóvel.




Fonte: Família Cristã 933 - Set/2013
Postado por: Família Cristã




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