Ser ou Aparecer?

Data de publicação: 21/02/2014

Padre Reginaldo Carreira*

Lamentável! Não é possível ficar alheio a um fato tão violento como o ocorrido naquela escola do Rio de Janeiro. E, tristemente, uma das consequências se deu com outro ex-aluno de outra escola que ameaçou abrir fogo contra sua ex-diretora e quem estivesse por perto. Não existem justificativas, é óbvio. Mas, sem querer abordar aqui as motivações inconscientes dos problemas sociais, familiares ou mentais que levaram a tal atitude, o fato trágico, que terminou com a morte de diversas crianças e o trauma de toda uma sociedade, trouxe de volta a discussão sobre o porte de armas e suas consequências. Assim como a importância dos valores familiares e sociais que fundamentam a estrutura e a formação do indivíduo.

Muito se foi abordado nos meios de comunicação e nos comentários de internet sobre o porte de arma e assuntos de segurança; mas o que quero refletir aqui é sobre qual valor orientou o assassino e tantos outros, até crianças, que pensam poder tudo e fazer tudo porque lhes foi tirado supostamente tudo.

Segundo as investigações, um dos motivos que nortearam o assassino foi a confirmação de que ele sofria de bullying, e que por isso precisava se vingar não diretamente dos agressores, mas da história de vida com sofrimento e isolamento motivados por tais agressões e xingamentos.

Sem negar aqui as consequências e a gravidade do bullying, há de se pensar no que se passa na mente e no coração de quem sofre com tal perseguição: a necessidade humana, e coerente, de ser aceito e reconhecido, mas também, por diversas vezes, o excesso desta necessidade, a ponto de achar que não ser aceito, reconhecido ou aplaudido é sinônimo de fracasso. E é esse contexto que quero abordar neste artigo.

Nos meios de comunicação e na internet, portanto na mente de quase todo adolescente e jovem, é mais importante ou admirável ser o astro da TV, conhecido e reconhecido, do que ser aquele trabalhador bem-sucedido e realizado no que faz, mas que não é aplaudido por todos ao seu redor. A questão não é julgar qual profissão é mais digna ou menos digna, mas entender que o valor do “ser” está sendo superado pelo do “aparecer”.

Sentido da vidaReality shows são usados para reafirmar isso: a necessidade de aparecer, para ser reconhecido e ser feliz. Inclusive muitas personagens de TV são caricaturas de pessoas que querem a fama a todo custo. Na verdade, quando a fama é consequência de um trabalho, pode ser boa, mas quando é o objetivo de um trabalho, jamais será sadia. Aquele que precisa aparecer para ser feliz sofre para manter essa postura, e quando não o é, se isola, cai nos vícios, agride e, em alguns casos, perde até o sentido da vida, podendo chegar inclusive ao suicídio.

Se insistirmos em acreditar que apenas “aparecendo” é que alcançaremos algo, seremos dignos de pena, pois não manteremos sempre nossa “máscara”, e a mentira não subsistirá. Porém, se cultivarmos o valor de “ser” o que se é de fato, e formos felizes em ser quem somos, teremos a possibilidade de crescer muito mais, pois o fundamento será sólido: a verdade, que liberta, e que é Jesus! (cf. Jo 14,6).


*Conferencista, cantor e compositor.


                                                   




Fonte: Família Cristã 905 - Mai/2011
Postado por: Família Cristã




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