Xixi na cama sem drama

Data de publicação: 07/03/2014

Fúlvio Giannella Júnior

Até os 5 anos de idade, é comum a criança fazer xixi na cama.A partir dessa idade, porém, já se torna um problema que exige tratamento

Sandra e Carlos (eles preferiram não ser identificados pelos sobrenomes) ficaram preocupados ao perceber que o filho, Marcos Vinícius, hoje com 14 anos, não conseguia controlar a urina durante o sono. “Quando ele ainda era pequeno, achávamos tudo normal, pois é comum a criança passar por esse problema. No entanto, como ele já estava com 10 anos e continuava a fazer xixi na cama praticamente todas as noites, vimos que havia algo de errado” – afirma Sandra. Ela e o marido, porém, não sabiam o que fazer, pois alguns pediatras consultados diziam que o controle da bexiga viria naturalmente, sem qualquer tratamento específico. “Por isso, chegamos até a colocar o Marcos de castigo, acreditando que a culpa era dele” – conta.

Foi apenas depois de conhecerem o Projeto Enurese, ligado ao Instituto de Psicologia da USP (Universidade de São Paulo), que Sandra e Carlos passaram a entender melhor o problema do filho e descobriram que era possível tratá-lo com sucesso. Eles descobriram também que fazer xixi na cama – um transtorno conhecido como enurese noturna – não é coisa só de criança, mas aflige, mesmo que em menor número, adolescentes e até adultos. Aliás, 1% da população com mais de 18 anos sofre desse mal, que atinge três vezes mais homens que mulheres.

“Para que o descontrole da bexiga seja classificado como enurese é preciso que a criança tenha mais de 5 anos de idade e faça xixi na cama pelo menos duas vezes por semana durante três meses seguidos” – afirma Rodrigo Fernando Pereira, doutor em Psicologia Clínica e membro do Projeto Enurese. Antes dessa idade, é grande a chance de o problema desaparecer sem qualquer tratamento, mesmo porque, até os 5 anos, a criança ainda não tem o desenvolvimento completo da micção, ação responsável pela coordenação dos órgãos do sistema urinário. Assim, os pais só devem se preocupar caso o filho continue molhando o lençol a partir dos 6 anos de idade.

Sem broncas – É bom ficar atento, porém, para o fato de que o número de dias nos quais a criança solta a urina durante o sono não é o fator principal para se recomendar o tratamento. “Há aquelas que fazem xixi na cama apenas uma vez a cada 15 dias. No entanto, se a situação deixa a criança incomodada, trazendo impacto negativo na autoestima e prejudicando a vida social, pois ela fica com receio de dormir na casa dos amigos ou de trazê-los para sua casa, é hora de buscar ajuda” – recomenda Rodrigo.

Sandra e Carlos sabem bem o que é isso. Até passar pelo tratamento, Marcos Vinícius vivia angustiado com a sua situação. “Nem na casa de parentes ele queria dormir para não passar vergonha. Na época o Marcos era escoteiro e isso o prejudicava nas viagens que o grupo fazia, porque ele tinha medo de amanhecer com a cama molhada e ser gozado pelos colegas” – recorda Sandra. É justamente para evitar esse sofrimento desnecessário que os pais precisam procurar tratamento especializado. “Nada de dar bronca, suspirar, reclamar, colocar de castigo e muito menos bater quando a criança faz xixi na cama, pois isso não traz nenhum benefício sobre o controle urinário e só a deixa mais abalada emocionalmente” – adverte o psicólogo.

Muitos acreditam também que a enurese noturna seja motivada por fatores psicológicos, como traumas e estados de grande ansiedade. Não é verdade. “A maior parte dos casos tem origem genética ou fisiológica” – esclarece Rodrigo. Nesse sentido, se um dos pais sofreu do mesmo mal na infância ou adolescência, a chance de o filho ser enurético chega a 41%. A probabilidade sobe para 77%, se o problema acometeu o casal. Mesmo sem essa predisposição genética, calcula-se em 15% a possibilidade de qualquer criança acima dos 5 anos apresentar descontrole urinário. Mas por que isso ocorre?

Ato involuntário – O primeiro passo é afastar, por avaliação médica, a existência de doenças como diabetes tipo 1 e espinha bífida (uma anormalidade congênita do sistema nervoso), que podem provocar incontinência urinária. Descartadas essas hipóteses, a criança, na maioria dos casos, faz xixi na cama simplesmente porque, por uma questão de maturação do sistema nervoso, não consegue, dormindo, despertar nem reter a urina quando sua bexiga está cheia. O problema piora se ela possui uma bexiga de tamanho menor que o normal. “Não se trata de preguiça para levantar da cama e ir ao banheiro, como pensam muitos pais, mas de um ato involuntário sobre o qual a criança ainda não adquiriu controle” – afirma o psicólogo.

Outro motivo pode estar relacionado à baixa incidência durante o sono do hormônio antidiurético, que inibe a produção de urina. “Em condições normais, a produção de urina cai à noite, mas, num número reduzido de pessoas, isso não acontece, o que faz com que a bexiga encha rapidamente. E aí, se a pessoa é enurética, fatalmente acordará molhada” – assegura Rodrigo. É por isso que, nesses casos, não funciona a técnica utilizada por muitos pais de impedir que a criança beba líquido à noite. “Mesmo que essa criança não beba nada, sua produção de urina não diminui. Aliás, impedir que se tome líquido antes de dormir pode até funcionar em casos pontuais, assim como fazer xixi antes de ir para cama, mas isso não resolve o problema da enurese, que só estará sanada de fato se a criança ou o adolescente conseguir acordar ou segurar o xixi quando sua bexiga estiver cheia” – adverte o especialista.

Para Sandra, Carlos e Marcos Vinícius, a vida mudou muito depois do tratamento, que durou sete meses. “Logo depois que teve alta, ele voltou a fazer xixi na cama apenas duas vezes. Depois disso, nunca mais. Ele aprendeu a controlar a bexiga e hoje tem uma vida completamente normal. Se soubéssemos antes que havia um tratamento específico para a enurese, teríamos evitado que o problema se estendesse por tanto tempo” – afirma Sandra.

Alarme ajuda paciente no tratamento

Além de reuniões feitas separadamente com pais e filhos para discutir os transtornos causados pelo descontrole da bexiga e dar orientações de como agir nesses casos, o Projeto Enurese utiliza no tratamento um aparelho de alarme para auxiliar o enurético a controlar sua micção. O objetivo é fazer com que a criança consiga acordar ao perceber que sua bexiga está cheia ou aprenda a controlar o xixi até a manhã seguinte.

O aparelho – emprestado às famílias que fazem parte do Projeto – é composto por um tapete com sensores muito sensíveis, colocado sob o lençol e ligado a um alarme que dispara tão logo o xixi comece a sair. Com isso, a criança acorda, interrompe a micção e acaba de esvaziar a bexiga no banheiro. “Como no início a criança pode demorar a acordar, recomendamos que os pais não a ajudem a trocar o pijama e o lençol por outros secos. Ela deve fazer isso sozinha” – afirma Rodrigo. Com o tempo, ela passa a identificar e controlar, mesmo dormindo, os sinais de bexiga cheia.

O índice de sucesso nos casos acompanhados pelo Projeto chega a 70%. Em relação aos 30% restantes, metade abandona o tratamento e a outra metade, mesmo seguindo as orientações à risca, continua a apresentar o problema. Nesses casos, é recomendado que se faça uma investigação médica mais profunda para tentar descobrir as causas do descontrole urinário.

O Projeto Enurese aceita inscrições de todo o Brasil, pois as orientações e o acompanhamento também são feitos a distância. O tratamento é totalmente gratuito. Outras informações podem ser obtidas no site do Projeto Enurese ou pelo telefone (11) 3091-1961.




Fonte: Família Cristã 904 - Abr/2011
Postado por: Família Cristã




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