Anchieta

Data de publicação: 01/04/2014

O Abaré das terras novas e dos tempos futuros!
Julio Rodrigues Neves *


Amante do conhecimento, disciplinado e austero, o padre José de Anchieta redigiu belíssimos textos não somente de intenção catequética, mas também literários



Neste mês em que recebemos a canonização do padre José de Anchieta, que foi um dos fundadores da cidade de São Paulo (SP), nossa reflexão quer observar uma faceta sua que talvez poucas vezes é tratada. Além de padre, missionário, catequista, religioso jesuíta e homem de fé, esse tal “abaré”, modo como era chamado pelos indígenas, foi um artista das palavras e um grande escritor. Nascido na ilha de Tenerife, no arquipélago das Canárias, Espanha, em 19 de março de 1534, José era filho de um grande devoto da Virgem Maria e era também parente dos Loyola, daí a ligação de Anchieta com o fundador da Companhia de Jesus, Inácio de Loyola.

Anchieta chegou ao Brasil em 13 de junho de 1553, com menos de 20 anos de idade, ainda noviço. Ele veio na armada de Duarte Góis e só mais tarde conheceria o padre Manuel da Nóbrega, de quem se tornaria particular amigo. Nóbrega lhe deu a incumbência de continuar a construção do Colégio e foi a partir dali que Anchieta abriu os caminhos do sertão, aprendendo a língua tupi e compondo genial¬mente a primeira gramática desta que, na América Portuguesa, seria chamada de “língua geral” – participou da fundação, no Planalto de Piratininga, do Colégio de São Paulo, do qual foi regente. Era o embrião da cidade de São Paulo, em 25 de janeiro de 1554, que contava, no primeiro ano da sua existência, com 130 pessoas, das quais 36 haviam recebido o Batismo.

Homem eclético – Sabe-se que a data da fundação de São Paulo é o dia 25 de janeiro por causa de uma carta de Anchieta aos seus superiores da Companhia de Jesus, na qual diz: “A 25 de Janeiro do Ano do Senhor de 1554 celebramos, em paupérrima e estreitíssima casinha, a primeira missa, no dia da conversão do Apóstolo São Paulo, e, por isso, a ele dedicamos nossa casa!”. Ainda também por essa época ele escreveu ao fundador de sua ordem, Inácio: “Aqui fizemos uma casinha pequena de palha, e a porta estreita de cana. As camas são redes que os índios costuram; os cobertores, o fogo, para o qual, acabada a lição à tarde, vamos buscar lenha no mato e a trazemos às costas, para passarmos a noite. A roupa é pouca e pobre, sem meias ou sapato, de pano de algodão... A comida vem dos índios, que nos dão alguma esmola de farinha e algumas vezes, mas raramente, alguns peixinhos do rio e, mais raramente ainda, alguma caça do mato” (trecho de carta de Anchieta a Inácio de Loyola, de 1554, que dá conta das adversidades a que se submeteu).

Anchieta foi um homem eclético, um amante do conhecimento, disciplinado e austero, redigiu belíssimos textos não somente de intenção catequética, mas também a gramática do idioma tupi, poemas diversos (confira a seguir alguns exemplos), inúmeras cartas (dotadas de conteúdos históricos relevantes), peças teatrais em forma de autos (muitos inclusive encenados pelos nativos da terra, educados por ele). Foi um homem que, sem dúvida, contemplava a natureza exuberante e o ser humano existente nela, o conjunto harmonioso da criação. Um grande humanista e educador, no sentido pleno das expressões! Há alguns textos seus, que, pela beleza e sensibilidade, dão conta da capacidade intelectual e da vasta cultura da qual era dotado. O período literário no qual a obra de Anchieta se insere se chama Quinhentismo e seu destaque está no fato de usar o teatro, cujos autos, pequenas peças, serviam para catequizar e instruir os povos nativos e os demais públicos presentes: soldados, marinheiros, viajantes, portugueses moradores etc.

Pioneirismo épico – Segundo a publicação Brasiliana da Biblioteca Nacional (2001), “o Apóstolo do Brasil”, fundador de cidades e missionário incomparável, foi gramático, poeta, teatrólogo e historiador. O apostolado não impediu Anchieta de cultivar as letras, compondo seus textos em quatro línguas – português, castelhano, latim e tupi –, tanto em prosa como em verso. Duas das suas principais obras foram publicadas ainda durante a sua vida. De Gestis Mendi de Saa (Os Feitos de Mem de Sá), impressa em Coimbra (1563), retrata a luta dos portugueses chefiados pelo governador-geral Mem de Sá para expulsar os franceses da baía da Guanabara, onde Nicolas Durand de Villegagnon fundara a França  Antártica. Esta epopeia renascentista, escrita em latim e anterior à edição do mais famoso Os Lusíadas, de Luís de Camões, é o primeiro poema épico das Américas, tornando-se assim o primeiro poema brasileiro impresso e, ao mesmo tempo, a primeira obra de Anchieta publicada.

Arte de Gramática da Língua mais Usada na Costa do Brasil foi impressa em Coimbra (1595) por Antônio de Mariz. É a primeira gramática contendo os fundamentos da língua tupi. Apresenta folha de rosto com o emblema da Companhia de Jesus. Desta edição, conhecem-se apenas sete exemplares, dois dos quais se encontram na Biblioteca Nacional do Rico: o primeiro pertenceu ao imperador dom Pedro II (1840 - 1889) e o outro é oriundo da coleção de José Carlos Rodrigues.

Aos curumins - O movimento de catequese influenciou seu teatro e sua poesia resultando na melhor produção literária do Quinhentismo brasileiro. Entre suas contribuições culturais, podemos citar os poemas em verso medieval (sobretudo o conhecido como Poema à Virgem com 4.172 versos), os autos que misturavam características religiosas e indígenas, além da já citada primeira gramática da língua tupi (A Cartilha dos Nativos). Boa parte da sua produção, no entanto, continua desconhecida do grande público, apesar de toda ela ter sido publicada no Brasil na segunda metade do século 20.

Homem incansável, extraordinário!  Gastou literalmente sua vida em prol do Brasil, percorreu grande parte do seu território, construiu, ensinou, escreveu, compôs, relatou, testemunhou e, no outono de sua vida, Anchieta só podia percorrer curtas distâncias a pé, apoiado no inseparável cajado: a corcunda que adquiriu já não lhe permitia mais andar a cavalo. Mesmo assim, não deixava de cumprir suas visitas pastorais, uma herança da época em que era mais ativo. Aproveitou o tempo entre elas para escrever 8 dos 12 autos para a catequese. Nessas obras, ele falava diretamente ao coração dos curumins (crianças indígenas), que assim recebiam a Palavra de Deus pelas palavras do Apóstolo do Brasil.

*Julio Rodrigues Neves é sacerdote, do clero da Diocese de Santo André (SP). Filósofo, teólogo, sociólogo e professor, alimenta uma página de literatura e cultura em geral no Facebook, na qualcompartilha várias formas de beleza. E-mail: p.juliorodrigues@terra.com.br


A poesia do padre José de Anchieta

Vi-me agora
num espelho...

“Vi-me agora num
espelho
e comecei de dizer:
Corcós, toma bom conselho
porque cedo hás de morrer.
Mas, com justamente ver
o beiço um pouco vermelho,
disse: fraco estás e velho
Mas pode ser que Deus quer
Que vivas, para conselho.”

Poema à Virgem
(fragmento)

“Eis os versos que outrora,
ó Mãe Santíssima,
te prometi em voto,
Enquanto entre tamoios
conjurados,
pobre refém, tratava
as suspiradas pazes,
tua graça me acolheu
em teu materno manto
e teu poder me protege
intatos corpo e alma.”


Jesus na Manjedoura


– Que fazeis, menino Deus,
Nestas palhas encostado?
– Jazo aqui por teu pecado.

– Ó menino mui formoso,
Pois que sois suma riqueza,
Como estais em tal pobreza?

– Por fazer-te glorioso
E de graça mui colmado,
Jazo aqui por teu pecado.

– Pois que não cabeis no céu,
Dizei-me, santo Menino,
Que vos fez tão pequenino?

– O amor me deu este véu,
Em que jazo embrulhado,
Por despir-te do pecado.

– Ó menino de Belém,
Pois sois Deus de eternidade,
Quem vos fez de tal idade?

– Por querer-te todo o bem
E te dar eterno estado,
Tal me fez o teu pecado.



Anchieta para ler e ver


Livros


A Vida do Venerável Padre José de Anchieta, de Simão de Vasconcellos, sj - 1623. Publicado pela Loyola.

Textos Históricos, Rio de Janeiro: Loyola, 1989, VIOTTI, H.A. de Poesias de José de Anchieta: manuscrito do século 16, em português, castelhano, latim e tupi. Transcrição, traduções e notas de M. de L. de Paula Martins. São Paulo: Comissão do IV Centenário da Cidade de São Paulo, 1954.

O Cancioneiro Ibérico em José de Anchieta: Estudo sobre a Música na Poesia de Anchieta (Dissertação de Mestrado) ECA-USP 1996. Rogério Budasz.

Anchieta e as Metamorfoses do Imaginário Medieval na América Portuguesa. Davis Moreira Alvim; Ricardo da Costa. In: Revista Ágora, Vitória (ES), no 1, 2005.

Arte de Gramática da Língua mais Usada na Costa do Brasil. Coimbra: Antônio Mariz. Biblioteca Nacional do Rio (há cópias digitais na internet).

Filmes

Anchieta, José do Brasil. Produção brasileira de 1977, do gênero drama, dirigida por Paulo Cesar Saraceni (ainda se encontra disponível e vale a pena ser assistido).

O Abaré. Documentário sobre Anchieta, produzido pela Fundação de mesmo nome alguns anos atrás (é possível pedir uma cópia por encomenda junto ao endereço eletrônico filmesraros.com.br).




Fonte: Família Cristã 940 - Abr/2014
Postado por: Família Cristã




Comentários

Enviado por: Pe José de Anchieta

Parabéns pela riqueza de detalhes. Gostei da matéria.


Comente





Compartilhe este conteúdo:


Veja Também

Caldos, sopas e consumês
Neste inverno, além dos cuidados com a pele, é importante se preocupar com a alimentação.
Conservas caseiras
Resgate o antigo hábito de fazer conservas caseiras. Além da economia, aproveitando os legumes.
Páscoa
Na Páscoa, é muito comum as famílias se reunirem para uma confraternização.
A fruta do mês
Para se alimentar melhor e ainda economizar, os nutricionistas orientam o consumo de frutas
Sabor mineiro
A arte culinária é uma das tradições mais significativas de Minas Gerais.
1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 Próximo Final

Termos mais pesquisados

Busca avançada
Copyright © Pia Sociedade Filhas de São Paulo - Brasil - Direitos Reservados