Traição: dor sem perdão?

Data de publicação: 15/04/2014

Cleusa Tewes*


Numa sociedade que valoriza o desejo e o prazer em si e os afetos são comercializados, o amor conjugal necessita de Deus, diálogo e perdão.

“Quem é fiel nas pequenas coisas, também é fiel nas grandes” (Lc 16,10). O que significa trair? Trair é ser infiel, descumprir juras de fidelidade, de pertença exclusiva à pessoa amada. Por que a traição habita vidas e a verdade desabita o amor?  A traição distancia; a fidelidade aproxima. Homens e mulheres, finitas criaturas, unem-se buscando viver o infinito amor. Ora limitam o amor autorizando a traição e na dor o amor procura um lar, crendo ser na vida o seu lugar.

Pensamentos, sentimentos e atitudes são pilares da personalidade. Qual sua fonte geradora de decisões, afeto e busca? Pilastras alicerçadas constroem relacionamentos estáveis. Na desregrada onda dos relacionamentos fluídicos e descartáveis, a traição integra-se como variável. Dizia a esposa: “Ele me traiu. Também o trairei”. Só há esta opção?

Casais perdem o horizonte da fidelidade. Relacionamentos vulneráveis rompem-se. Sentimentos escoam em paixões instantâneas, fugazes. No entanto, o amor supõe raízes. Cadê o amor que doa a vida? Afetos são comercializados na sociedade que minimiza o corpo em desejo.
 
A ideologia consumista, o troca-troca substitui amores tal qual trocam-se fogão, carro. Como interromper a geração do descartável? Descartamos amores. Relacionamentos secretos são mantidos, ausentes de compromisso. A sociedade polui o amor. Vida sem amor é insustentável. Homens e mulheres desamados aceitam migalhas de afeto, consumindo-se por amantes passageiros. Lembrem-se de que o amor veio para ficar. São Paulo afirma: “O amor jamais passará” (1Cor 13,8 ).

Um problema

 A traição é grave, um doloroso problema na vida conjugal. Ela é como cupim, age escondida, destrói, causa danos na relação: distâncias, mentiras, indiferenças, desafetos, dificuldades financeiras. Na internet, há traições virtuais, até  a manutenção de sucessivos e secretos encontros. A infidelidade leva 50% dos casamentos ao divórcio.
 
Quando auxiliamos pessoas nessa situação, devemos evitar julgamentos e moralismos. É necessário analisar o contexto em que ocorre a traição. Geralmente, deparamo-nos com relacionamentos já desestruturados antes da traição. Ressalta-se, porém, a traição não se justifica.

Todo relacionamento exige cuidados e atendimento. Quando o divórcio se efetiva, no lar a separação já se consumou há algum tempo. Da traição decorrem perdas, mágoas, tristezas, depressão, rejeição, se constituída num problema familiar.

Traição merece perdão?


O marido de Dolores aceitou que não dava a atenção que ela merecia. Mesmo sofrendo, perdoou a fraqueza dela. Restabeleceram a confiança, pois quem ama nunca desiste (cf. 1 Cor 13,7). A esposa de Raul compreendeu que o marido buscava outro caminho para a felicidade porque se sentia triste e desvalorizado. Ela o perdoou e prosseguiu a vida ao lado dele. O casal traçou novos projetos conjugais. Estes casais aceitaram tratamento terapêutico. São pessoas de fé, coerentes com o juramento: “Te amarei na alegria e na tristeza, na saúde e na doença...”

O Deus de Moisés perdoou a infidelidade do povo no deserto. Jesus perdoou Judas, o traidor. Jesus falou amorosamente: “Quem de vocês não tiver pecado, atire a primeira pedra nesta mulher!” (...) “Ninguém condenou você? Pois eu também  não a condeno. Vai e não peque mais” (Jo 8,7.10-11).

O amor de Deus habita em nós. Ele cura mágoas e infidelidades. Casais, amem-se com o amor de Deus. Famílias, olhem-se com os olhos do amor. Maria Mãe, conservai-nos fiéis. Amém!

Por que as mulheres traem?

Dolores, 36 anos, fez cirurgia, retirou o útero, achou-se feia, menos feminina, insignificante para o marido. Fragilizada, reencontra um amigo de colégio (casado), que lhe dá atenção. Carente, ela abre oportunidade para um encontro íntimo.
Comentário - Algumas mulheres, após anos de casadas, se decepcionam. Desiludidas, enfraquecem-se, abrindo precedentes a aventuras. O desapontamento no casamento pode ser consequência de excesso de trabalho, frieza sexual, ausência de diálogo, brigas, manias, rotina tediosa, sofrimentos que um cônjuge provoca no outro. Há mulheres que se entristecem, ficam deprimidas, e assim tornam-se vulneráveis, receptivas a relacionamentos extraconjugais. E se sentem novamente vivas. Prestes a se apaixonarem facilmente. A emoção conta muito para elas, que integram prazer e amor.

Por que os homens traem?


Raul, 50 anos, casado há 28, envolve-se com uma moça solteira de 23 anos. Ele perdera o emprego. Seu histórico era de insucesso profissional. O casamento caíra na rotina. Permaneciam juntos como pais de três filhos. Deixaram de namorar, passear, planejar e até rezar juntos. Ele percebia-se cansado, desanimado, envelhecido. A aventura, ilusoriamente, o fez sentir-se jovem, bonito, desejado e capaz de arrumar emprego. Mas a jovem o decepcionou e a família descobriu o caso.
Comentário - O homem, ao trair, não pensa em se separar. Quer apenas aventura, prazer sexual. Ele difere da mulher, separa sentimentos em compartimentos: amor e prazer. Ele entra e sai objetivamente do relacionamento extraconjugal, vive o momento. Raramente a traição masculina objetiva encontrar alguém para reorganizar a vida sentimental. Nos casos acima, Dolores, Raul e seus cônjuges precisam de ajuda profissional, restabelecer a autoestima, a confiança, olhar as dificuldades e descobrir as possibilidades. A traição não é alternativa para conflitos conjugais.


*Terapeuta familiar, especialista em orientação familiar.






Fonte: Família Cristã 907 - Jul/2011
Postado por: Família Cristã




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