Profetas da História

Data de publicação: 28/04/2014

Testemunhas e profetas da história

A Comissão Brasileira de Justiça e Paz e a Comissão de Anistia do Ministério da Justiça promoveram o seminário “Memória e Compromisso” no Colégio Marista Arquidiocesano em São Paulo (SP)

Há 50 anos o Brasil viveu um dos momentos mais tristes de sua história: a ditadura militar. E justamente para resgatar a memória da atuação dos cristãos nesse período, a Comissão Brasileira de Justiça e Paz (CBJP) – órgão da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) – e a Comissão de Anistia do Ministério da Justiça promoveram, no dia 25 de abril, o seminário “Memória e Compromisso” no Colégio Marista Arquidiocesano, na Vila Mariana, em São Paulo, com a participação de alunos, professores e convidados.

A realização dos seminários – este já é o terceiro – consiste na segunda fase do projeto Memória e Compromisso, cuja proposta é relembrar o papel dos cristãos no processo de anistia política e na reconstrução democrática do Brasil no período de 1964 a 1988. 

Os seminários contam com o apoio da União Marista do Brasil (UMBRASIL), da Pastoral da Juventude, do Levante Popular da Juventude e da Comissão de Anistia do Ministério da Justiça, além da organização direta das Comissões Justiça e Paz de cada local onde ocorrem os eventos.

O Seminário foi repleto de momentos marcantes, e alguns relatos e testemunhos de militantes que foram presos, torturados e exilados serão aqui destacados. Antônio Funari, advogado e Secretário Executivo da Comissão Justiça e Paz da Arquidiocese de São Paulo, leu trechos de uma carta escrita em abril de 1964 para sua namorada quando sua casa no interior de São Paulo estava cercada: “Uma noite estrelada de abril de 64... aceitamos situações que estão por aí por hábito... acabamos nos resignando com a pobreza e com a miséria como se fossem a ordem social da vida... precisamos estabelecer uma nova ordem social e o preço é estar em um arquipélago.”

Funari fez referência positiva à Igreja Católica ao assumir posição favorável às reformas de base – bandeira do governo do presidente João Goulart que privilegiava as reformas bancária, fiscal, urbana, administrativa, agrária e universitária. O Secretário Executivo da Comissão Justiça e Paz da Arquidiocese de São Paulo contou sobre o motivo de sua primeira prisão: alfabetizar adultos pelo método Paulo Freire. Ele assumiu papéis importantes de engajamento político como integrante da Ação Popular (movimento da esquerda católica): participou da organização do 1° Congresso Nacional na UNE (União Nacional dos Estudantes), entre outros. 

“Importante esclarecer que o processo da ditadura foi crescendo. Fizemos eleições diretas para a UNE em pleno processo ditatorial. Para fundar a democracia, é necessário ter liberdade de expressão, algo que só se consegue lutando”, afirmou Funari. O militante teve acesso inclusive a seus dados sigilosos, retidos no SNI (Sistema Nacional de Informações). “Hoje sou militante dos direitos humanos. A luta atual é contra a criminalização dos movimentos sociais”, concluiu categoricamente.

Vicente Trevas, um dos fundadores do Partido dos Trabalhadores (PT) e atual Secretário-Adjunto de Relações Internacionais e Federativas da Prefeitura de São Paulo, destacou a importância do encontro por promover um diálogo intergeracional, além de refletir sobre as particularidades do país: “Somos uma nação muito jovem na qual sempre houve descontinuidade. Qual a herança da colonização que recebemos?”, refletiu. 

Segundo ele, a ditadura foi se tornando mais dura. No ano de 68, com o AI 5, as coisas pioram muito. Tanto que Trevas parte para o exílio na França. Além de mencionar sentimentos que marcaram a época – dor, perseguição, o silêncio da opressão –, ele definiu a ditatura como um período de lutas, resistência e aprendizado. “Para mim, a ditadura significou uma contrarrevolução. Lutávamos por uma reforma de base. Vivíamos em um país jovem, que necessitava de transformações com uma forte herança escravagista, uma economia agrária exportadora. E o Golpe de 64 é um dos capítulos dessa trajetória”, afirmou.

Chico Bezerra, membro do grupo Tortura Nunca Mais, representou a oposição sindical metalúrgica na região do ABC Paulista na época de Dom Jorge Marcos – primeiro bispo católico de Santo André. O início da conversa girou em torno de sua história de vida: “Fui educado por mãe e pai analfabetos. Fui congregado mariano aos 12 anos. Em 1964, estava desempregado e em abril fui para o Sindicato dos Metalúrgicos. Afastei-me da Igreja quando mudei de Recife para São Paulo, por não poder mais pular carnaval... Porém nunca deixei de ter compromisso. Considero-me um comunista cristão”, disse Bezerra. 

Mencionando diretamente o período da ditadura, o membro do Tortura Nunca Mais disse que muitos companheiros foram presos e até mesmo exterminados. Para ele, o golpe também aconteceu por conta das reformas de base. “O compromisso do Bispo Dom Jorge Marcos de Oliveira foi essencial nesse período”, esclarece. “Um dos momentos mais lindos da minha vida aconteceu em 1° de maio na Praça da Sé”, emocionou-se.

Waldemar Rossi, fundador da Pastoral Operária, também esteve no Salão Nobre do Colégio Marista Arquidiocesano. Os alunos tiveram o privilégio de escutar o homem que teve sua vida transformada a partir da primeira visita do Papa João Paulo II ao Brasil, em 1980 – a nação estava em plena ditadura militar e os operários tinham o apoio da Igreja contra o governo ainda de exceção. Rossi leu o discurso de saudação no encontro do Papa com operários no estádio do Morumbi. 

Apesar de seu discurso ter sido diminuído às vésperas do evento, Waldemar Rossi contou a história de dois trabalhadores assassinados por militares, meses antes da visita do Papa. A imensa multidão presente na ocasião começou a gritar a palavra “Liberdade”.

Padre Luigi Giuliani foi também uma das presenças ilustres no Seminário Memória e Compromisso e despertou emoção pela descrição do forte trabalho social que desempenha na periferia de São Paulo. Contou também que teve uma atuação bem interessante no movimento contra a Carestia; sempre com uma câmera nas mãos, filmava os que possivelmente seriam “infiltrados”. Uma curiosidade: um desses encontros do movimento referido aconteceu no Colégio Marista Arquidiocesano, em 1976.

A partir dos testemunhos e da postura assumida, é inegável afirmar que a participação dos cristãos foi essencial no processo de redemocratização do Brasil.

 





Fonte: Assessoria de imprensa Marista Arquidiocesano
Postado por: Família Cristã




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