Um refúgio, uma acolhida

Data de publicação: 01/05/2014

A reportagem “História de um refúgio”, escrita por Fernando Geronazzo e com as fotos de Sonia Mele, publicada na edição de novembro de 2013 da revista Família Cristã, recebe hoje (01/05) o prêmio Dom Helder Câmara de Imprensa - 2014, concedido pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB).


Jovem africana sobrevive à perseguição em seu país e encontra no Brasil uma pátria para reconstruir a sua vida

 

Olhar assustado, carregado de sofrimentos e traumas, mas com um tímido sorriso que deixa transparecer uma ponta de esperança de que dias melhores virão. Essa é a expressão da jovem Marie (nome fictício), 18 anos, há quase dez meses no Brasil. Ela aguarda ansiosamente a aprovação de sua solicitação de refúgio no país, depois de ser enviada sozinha de sua terra natal, a República Democrática do Congo, quando ainda tinha 17 anos.

 

Perseguição – No Congo, Marie tinha uma vida de jovem normal. Morava com os pais e dois irmãos e um tio na capital, Kinshasa. De repente, sua vida mudou completamente. A situação no Congo se agravou após as eleições presidenciais realizadas em 2011, nas quais o atual presidente, Joseph Kabila, há uma década no poder, teve a sua reeleição proclamada. Etienne Tshisekedi, opositor e principal rival de Kabila, rejeitou os resultados provisórios anunciados que o deixavam em segundo lugar e se autoproclamou “presidente eleito” do país africano, porém, Kabila permaneceu no poder, o que desencadeou revolta na oposição e uma guerra civil. 

“No Congo, quando alguém faz alguma coisa contra o governo, é perseguido até a morte”, ressalta Marie, sobrinha de um coronel que se rebelou contra o governo. “Por isso, meu tio fugiu. Mas como minha família morava com ele, os perseguidores sabiam que éramos seus familiares e iam até nossa casa em busca dele e nos ameaçavam.”

O pai de Marie também teve de fugir. “Eu estava passando as férias na casa de um amigo do meu pai, porque ele tinha filhas da minha idade, quando recebi a notícia de que o governo havia mandado pessoas até a minha casa em busca do meu pai. Como não o encontraram, sequestraram minha mãe e meus dois irmãos e queimaram a minha casa.”

Marie estava sozinha, contava apenas com este amigo de seu pai que a alertou de que se ela tentasse voltar para casa, os soldados do governo também a pegariam. “Então este amigo do meu pai fez de tudo para que eu saísse do país e providenciou minha vinda para o Brasil. Não podia ficar na casa desse amigo, pois poderia prejudicá-lo também.”


Sozinha – “Eu vim sozinha para o Brasil e não conhecia ninguém aqui. Não sabia falar português, só falava francês e os dialetos do Congo”, conta a jovem, que passou dois dias no Aeroporto Internacional de Guarulhos (SP). “Eu estava com minha bolsa na qual estavam todos os meus documentos, um pouco de dinheiro e um celular com o contato do Congo. Estava muito cansada. Nunca havia feito uma viagem tão longa. Eu me descuidei com a bolsa e fui roubada. Fiquei apenas com a minha mala de roupas.”

Após esses dois dias, Marie encontrou um grupo de moças das quais algumas falavam francês. “Eu pedi ajuda a elas, expliquei toda a minha história e elas me disseram que eu poderia ficar na casa delas, mas eu teria que trabalhar para poder me manter.” Mas, somente quando chegou ao local Marie percebeu que se tratava de uma casa de prostituição.

“Eu não imaginava que esse era o ‘trabalho’ a que elas se referiam. No primeiro dia eu consegui convencê-las de não me prostituir porque não estava me sentindo bem. No dia seguinte, elas insistiram novamente. Mas eu não queria. Nunca havia feito isso. Então a mulher que mandava na casa ameaçou chamar alguns rapazes para me violentar caso eu não aceitasse fazer programas.”

Tomada de medo, Marie fugiu da casa. “Eu fiquei na rua, andando e andando, quando eu encontrei um rapaz conversando ao telefone e identifiquei que ele falava a língua que falávamos em Kinshasa. Eu pedi ajuda e ele me indicou o Centro de Acolhida para Refugiados da Cáritas Arquidiocesana de São Paulo.”

A jovem foi encaminhada para um abrigo de menores e foi dada entrada no seu processo de solicitação de refúgio. Nunca mais Marie teve notícias de sua família, pois perdeu o único contato que tinha do Congo no celular que foi roubado com a bolsa no aeroporto.

 

A pátria – Quanto ao seu país de origem, Marie não pensa em um dia voltar para lá. “Eu não creio que a realidade do Congo vai mudar. Quando nós nascemos, o Congo era o mesmo, e a situação só está piorando.”

A vida de uma jovem mulher naquele país não é fácil, além das desigualdades sociais, a cultura predominante coloca a mulher à margem da sociedade. “O Congo é pobre. Quando uma família tem um filho e uma filha, a prioridade para estudar é sempre do menino, enquanto a menina estuda apenas se houver condições. Mas também há pais que pensam que mulher não pode estudar e ter uma profissão, que deve apenas cuidar da casa. Felizmente, meu pai não pensava assim e me incentivava a estudar”, relata Marie.

Porém, o maior sofrimento das mulheres congolesas é a violência. “Ouvia casos de militares que invadiam as casas e não só estupravam as mulheres, como chegavam ao ponto de forçar, por exemplo, um rapaz a violentar sua própria mãe. Isso é cruel!”


Acolhida – A coordenadora do Centro de Acolhida para Refugiados da Cáritas Arquidiocesana de São Paulo, Maria Cristina Morelli, ressalta que tem chamado a atenção o aumento do número de menores de idade refugiados que chegam ao Brasil desacompanhados. “Em 2012, só aqui em São Paulo recebemos dois menores nesta situação. Este ano até setembro, acolhemos 14 menores de idade desacompanhados.”

De acordo com o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR), que no Brasil atua em convênio com a Cáritas, o número de pedidos de refúgio triplicou desde 2010. As solicitações de menores de idade cresceram de 4% para 8% no último ano. A maioria é de meninos, que chegam fugindo de serem cooptados pelas milícias, mas também há meninas que, como Marie, viram suas famílias desaparecerem ou serem mortas.

Quando um menor chega nessas circunstâncias, a primeira medida a ser tomada é entrar em contato com a Vara da Infância e da Juventude, que providencia abrigo e cuidados até que complete 18 anos, enquanto a documentação fica aos cuidados da Cáritas. “Nossa preocupação maior nesses casos é que o adolescente já está em uma fase muito delicada de sua vida. Como ele administra as questões próprias da idade mais o fato de ter sido obrigado a deixar seu país para salvar a vida e chega sozinho a um país estranho?”, salienta a coordenadora.

Uma vez solicitado o refúgio, a pessoa tem um documento provisório de permanência, que dá direito a emitir Carteira de Trabalho e Cadastro de Pessoa Física (CPF). Quando a solicitação de refúgio não é concedida, há a possibilidade de recorrer ao Ministério da Justiça. Mesmo que esse recurso seja negado, tentam-se outras vias migratórias.

 

Sonhos – De acordo com os relatos dos próprios refugiados, eles geralmente vêm para o Brasil porque recebem informações de que se trata de um país acolhedor, que tem possibilidades de trabalho e está crescendo economicamente. “Há a questão da proximidade da língua e há também os que tentaram refúgio em outros países e não conseguirem”, explica Maria Cristina. “Na escola, estudávamos sobre o Brasil. Sabia que aqui tinha carnaval e futebol, mas não sabia mais nada sobre o País. Eu não tive escolha, fiquei sabendo qual era o meu destino no dia de partir do Congo”, relata Marie.

No Congo, Marie estudava e sonhava com um futuro melhor para seu país. “Eu sempre sonhei em ser médica. O serviço de saúde no Congo é muito precário e, por isso, eu queria estudar para ajudar principalmente as muitas crianças que morrem por falta de atendimento médico. Sonhava em ser uma médica reconhecida e ajudar o meu país. Mas tudo mudou...”, lamenta.  

Mas a jovem ainda não desistiu desse sonho. No Brasil, Marie aprendeu a língua portuguesa e já conseguiu um emprego como caixa de supermercado e faz um curso de copeira hospitalar. 

Marie também quer ter uma profissão para poder juntar dinheiro para encontrar a família. Outro grande sonho que a jovem não perdeu, é a esperança de que seus pais e irmãos estejam vivos. E é esta esperança que a motiva a reconstruir sua vida na que ela chama de sua nova pátria, o Brasil.





Fonte: Familia Crista ed. 935
Postado por: Família Cristã




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