Pelos caminhos da roça

Data de publicação: 18/06/2014


A dança da quadrilha surgiu no interior rural e voltou para ele. Mas, agora, com uma roupagem estilizada para sobreviver e ser admirada pela mídia

César Vicente
Xilogravuras: Valdeck de Garanhuns, Regina Drozina
Do Livro Folias e folguedos do Brasil - Editora Paulinas


“Olha a chuva! É mentira. Olha a cobra! Já mataram...” Que atire a primeira pedra quem nunca ouviu tais marcações de dança as quadrilhas, obrigatórias nas festas populares, que, sempre em junho, fazem do Brasil um imenso arraial. Em escolas, comunidades e clubes, entre fogueiras, pratos de comidas típicas e bandeirinhas coloridas estendidas por varais, os pares se compõem e, caracterizados por matutos ou caipiras estereotipados, recontam uma história que remonta à Inglaterra medieval. Foi durante a Guerra dos Cem Anos (de 1337 a 1453) entre Inglaterra e França que esta última incorporou alguns costumes culturais do então inimigo, como uma dança típica do interior rural inglês cujo bailado era executado por grupos de quatro pares, a quadrille. Nos salões franceses, a novidade conquistou a nobreza e se espalhou por toda a Europa. Daí – a bordo da corte real portuguesa, em 1822 – chegar ao Brasil foi um pulo.

As quadrilhas se tornaram a dança oficial dos saraus do Rio de Janeiro e logo se vulgarizaram, caindo em cheio no agrado popular nacional. Sucessivos processos de aculturação fizeram a dança ser praticada ao ar livre e ser assimilada pelo calendário da Igreja Católica em festas a louvor de São João, Santo Antônio e São Pedro, celebrados em junho, especialmente nos meios rurais, o que explica a indumentária campesina de seus participantes, inspirada na cultura caipira ou sertaneja. As finas sedas dos salões da nobreza, por exemplo, deram lugar à chita, um tecido bem mais barato e acessível. E, como na roça, o casamento é sempre motivo de longos festejos, as quadrilhas adotaram a forma de uma união fictícia, o que não foge demais das primitivas festas de São João na Europa, que já celebravam aspirações matrimoniais. É claro que, como em todos os festejos populares, nada é para ser levado a sério. No enredo desses casamentos, a noiva está indisfarçavelmente grávida, e o noivo se apresenta ao padre espontaneamente, ou seja, após ser dissuadido por um aparato policial, delegado incluído, fortemente armado e subvencionado pelo futuro sogro, geralmente um coronel ofendido.

Recriação – “A dança começou no campo e voltou para ele. A diferença é que agora ela também é evento midiático com direito a superprodução. Organizadas em agremiações, as quadrilhas, no Nordeste brasileiro, se apresentam em concursos transmitidos pela TV, onde há regras semelhantes aos desfiles das grandes escolas de samba do País”, argumenta o professor Osvaldo Meira Trigueiro, do Programa de Pós-graduação de Comunicação da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), presidente da Comissão Paraibana de Folclore e pesquisador da Rede Brasileira de Folkcomunicação. Além de atrair o público, elas turbinam a economia e a indústria cultural nordestinas. Caruaru (PE) e Campina Grande (PB), por exemplo, cidades que promovem as maiores festas de São João do País – os eventos se estendem pelos 30 dias de junho –, acolhem mais de 3 milhões de pessoas que injetam cerca de 320 milhões de reais nas economias locais e criam não menos de 25 mil empregos temporários, de garçons a músicos. Faturam, entre outras, as indústrias de bebida, do turismo, de comidas típicas e de tecidos, com a fabricação de quilômetros de chita florida.

Mas nem sempre foi assim. Inseridas como festejos nos calendários escolares e preservadas por associações rurais ou mesmo urbanas, as quadrilhas nunca foram uma tradição cultural brasileira totalmente deixada de lado, mas o fato é que elas mergulharam em um plano secundário por volta dos anos 70 do século passado com o advento da música eletrônica, nas então chamadas discotecas, e o avanço de uma indústria cultural de massa agressiva, com a TV, via satélite, chegando a todos os cantos do País e impondo uma estética de mão única. O que se viu, então, a partir daí foi algo quase inesperado: uma resposta de algumas comunidades locais. Elas incorporaram a linguagem midiática para mostrar ao mundo que também tinham suas próprias manifestações culturais. O povo, então, passou a recriar localmente suas expressões, entre elas as festas juninas. Em algumas cidades do Nordeste, por exemplo, a festa deSão João foi institucionalizada como um evento oficial.

Autenticidade – “Inseridas no contexto midiático”, como dizem os teóricos da comunicação, as quadrilhas sobreviveram. O que se vê, porém, está tão longe da originalidade como os desfiles das escolas de samba do Rio de Janeiro estão dos batuques produzidos pela Velha Guarda da Estação Primeira de Mangueira. Os brincantes, como são chamados os participantes das quadrilhas, deletaram os matutos desdentados de roupas remendadas e pés descalços para mostrar luxo e coreografias ensaiadas em salões e academias. “Essas transformações devem ser observadas pelos investigadores do folclore não com a preocupação preservacionista, mas para compreender a dinâmica do fenômeno. Não vamos esquecer que, com elas, jovens e adolescentes de 16 a 26 anos, mais ou menos, que estavam fora das festas juninas porque não queriam aparecer com uma imagem feia, hoje se apresentam de forma elegante.

Se eles incorporam elementos da cultura midiática é certo, também, que mantêm vivas as tradições da estrutura da quadrilha”, defende o professor Osvaldo Trigueiro. Antes de torcer o nariz para a estilização contemporânea dessas agremiações, é preciso levar em conta que nem tudo que a mídia enquadra e veicula condiz necessariamente com as realidades locais. “Quando os brincantesvoltam para a periferia de suas metrópoles ou para a zona rural e se apresentam para suas comunidades, já longe do foco das câmeras de TV, vemos espontaneidade, improvisação e uma maior interação com quem assiste dança da quadrilha. Um verdadeiro arraial renasca”, aponta o pesquisador Osvaldo.

Parece não cultura haver polêmicas quanto à questão. “É mesmo pelos caminhos da roça, pelos interiores da Bahia, Minas Gerais, Sergipe, Alagoas e Maranhão, onde a indústria do consumo ainda não chegou totalmente, que a gente encontra não apenas as quadrilhas mais autênticas, que valorizam a sanfona, a zabumba e o triângulo, mas também a catira, a ciranda, o cururu, o fandango, o carimbó, o siriri e muitas outras expressões da tradição cultural festeira”, aponta o músico, folclorista e arte-educador Inimar dos Reis, autor de Folias e folguedos do Brasil (ciclo junino), publicado por Paulinas Editora, um verdadeiro guia para quem quer mergulhar na tradição mais profunda das festas populares no Brasil.




Fonte: Família Cristã 930 Junho 2013
Postado por: Família Cristã




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