Limites, é preciso

Data de publicação: 07/07/2014


Adriana Foz

 

É importante e urgente em buscarmos informações relevantes a cerca do desenvolvimento do cérebro para nortearmos a educação no século 21

Em um supermercado, por exemplo, não é pouco comum encontrarmos a cena de uma criança impondo à sua mãe o que vai comprar e também não é pouco frequente ver os pais cedendo aos caprichos de seus filhos. Muitas dessas crianças, espertas como só elas, afinal, se encontram um de seus auges sinápticos, já ganham, no primeiro chilique, o objeto de seu desejo, que então passa a ser outro e mais outro...

Como poderíamos interpretar essas cenas? Apenas um chilique, falta de educação, imaturidade cerebral, novos tempos, Geração Alpha (Nascidos a partir de 2010)? Na última década, estudos e pesquisas neurocientíficas vêm, por um lado, confirmar muitas práticas educativas e, por outro, desmistificar muitas outras. É importante e urgente buscarmos informações relevantes a cerca do desenvolvimento do cérebro para nortearmos a educação no século 21. O cérebro é o órgão mais importante para nossas aprendizagens. É nele que se encontra nosso comando central.

Mas o que o cérebro tem a ver com a cena descrita acima? Uma criança nasce com quase 100 bilhões de neurônios e, até chegar aos 3 anos de idade, já houve uma grande poda significativa destas células nervosas. Há uma nova grande poda na adolescência. Ora, o que são podas senão limites? Sim, o cérebro também precisa de limites para se desenvolver de modo saudável! Sim, o cérebro é programado para as possibilidades mas também para os limites! Se uma criança, após o nascimento, continuar com os quase 100 bilhões, será deficiente mental, por exemplo. Apenas essa informação neurocientífica já deve causar um certo espanto aos pais muito permissivos, principalmente. Dizer "não" para uma criança muitas vezes é a confirmação de sinapses "positivas". O "não" é fortalecer sinapses competentes, de acordo com cada época do desenvolvimento neurocognitivo.

 

Um não que faz bem − Há um estudo muito interessante sobre o controle de impulsos em crianças, ou seja, controle de impulsos é uma competência que a criança desenvolve quando está sob o estímulo do limite. Conduzido por um cientista da Universidade de Stanford, nos Estados Unidos, foi desenvolvido em 1982, o início de tal pesquisa que tinha a proposta de estudar a capacidade de autocontrole de crianças entre 4 e 6 anos. Este estudo longitudinal teve 600 crianças submetidas a um teste no qual deveriam controlar a vontade de comer um marshmallow delicioso colocado à sua frente. Após passado um determinado tempo, se conseguissem então ganhariam outro. Depois de alguns anos, investigaram como foi o desempenho escolar dessas crianças e, mais tarde, o desempenho no vestibular. O que você acha que aconteceu com a criança que não conseguia controlar sua vontade de saborear o doce? E com a criança que conseguiu controlar seu impulso? Lógico que a segunda conseguiu ganhar outro doce.

Mas, do ponto de vista de seu desempenho cognitivo, esta última obteve maior competência na vida acadêmica. Logo a pesquisa corrobora com a necessidade de treinar na criança sua capacidade de autocontrole, afinal esta função está localizada em uma região do cérebro, no pré-frontal, que só termina de se formar por volta dos 28 anos.

Sabendo que essa região do cérebro precisa ser estimulada desde cedo para ao final do processo de desenvolvimento cerebral estar plena de suas capacitações, é que eu volto à pergunta inicial e ainda acrescento mais uma: será que não é também importante darmos limites claros e competentes para que as crianças desenvolvam suas habilidades cerebrais de modo mais eficiente? Sei que não é uma tarefa fácil, mas quem disse que o que realmente vale a pena é fácil? Talvez seja mais fácil dizer um "não" aos chiliques e ao que não é saudável.

Adriana Fóz  é educadora, pós-graduada em Psicologia da Educação pela Universidade de São Paulo (USP), especialista em Psicopedagogia (Instituto Sede Sapientiae) e Neuropsicologia ( Universidade Federal de São Paulo, Unifesp).

 





Fonte: FC edição 925
Postado por: Família Cristã




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