Da Ucrânia à Venezuela

Data de publicação: 24/07/2014


Rubens Diniz*

 Na Europa na América do Sul ou em qualquer lugar do mundo, violência e democracia não combinam

 

Nas últimas semanas, o noticiário internacional foi dominado por dois países localizados em latitudes distintas. Um deles é a longínqua Ucrânia, de formação histórica peculiar e frágil coesão nacional, posicionada em uma situação estratégica da Europa. Parte da população do país, que pertenceu à antiga União Soviética, vê no russo sua língua materna. Na atualidade, ele está submetido a uma crise econômica e social de grandes proporções, polarizada por alguns setores que defendem uma incorporação à União Europeia (UE) e por outros que buscam se manter sob a influência da Rússia. Manifestantes foram às ruas de forma pacífica com o sonho de que uma aproximação com a UE mudaria as condições de vida. As ações, porém, se tornaram violentas com a incorporação de setores ultranacionalistas e de perfil fascista, como o Partido Svoboda e o Setor de Direita (Pravy Sektor), cujos objetivos são os de criar o caos e derrubar o governo. Aproveitando-se da situação, a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) busca instalar bases nas fronteiras da Ucrânia com a Rússia. Para muitos, trata-se de um retorno à Guerra Fria.

Já a vizinha Venezuela, país fronteiriço com o Brasil e rico em petróleo, tem vivido em sua história recente um processo de profundas transformações políticas, sociais e econômicas, denominado de Revolução Bolivariana. Nos últimos anos, ela conquistou importantes avanços sociais reconhecidos pela Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal). Mesmo assim, o país vive uma contínua polarização política que levou, em 2002, alguns setores a uma tentativa frustrada de golpe que durou 48 horas. Após voltar a participar das disputas eleitorais, em 2013, o candidato oposicionista Henrique Capriles perdeu por uma pequena margem de votos para Nicolás Maduro, herdeiro político de Hugo Chávez.

Há poucas semanas, foi realizado um inusitado encontro entre o governo e o líder da oposição, com o intuito de reunir forças para enfrentar a violência urbana. Isso gerou a ira da ala mais radical da oposição, liderada por Leopoldo López, que se recusa a manter qualquer diálogo com o governo. López organizou o movimento A Saída, de clara pretensão extraconstitucional. Uma parcela importante do movimento estudantil aderiu às manifestações, que culminaram nos episódios violentos de 12 de fevereiro e resultaram em três mortos e dezenas de feridos, além da destruição de vasto patrimônio público. No total, até agora, 20 pessoas perderam a vida.

 

Regime change – Tanto na Ucrânia como na Venezuela, podemos afirmar que alguns setores buscam promover mudanças políticas em marcos fora da legalidade, estimulando situações de confrontação social a partir de movimentos de rua e visando romper a legalidade de governos democraticamente eleitos – situação que coloca em alerta as democracias representativas e seus mecanismos de participação. Tal modelo denominado de Regime change foi formulado por um professor de Ciências Políticas, o norte-americano Gene Sharp, da Universidade de Massachusetts Dartmouth, e já vem sendo utilizado em inúmeros outros países. A proposta consiste em solapar a estabilidade econômica, política e militar de um Estado sem recorrer ao uso da insurreição armada ou de golpe militar, mas provocando violentas medidas a serem denunciadas, como o emprego de força brutal, abuso dos direitos humanos, gerando o descrédito do governo. O que cabe perguntar é até onde vai o egoísmo humano e a sede de poder de alguns que colocam em risco a vida de centenas de pessoas em nome de seus projetos de poder? Como já foi dito neste espaço, violência e democracia não combinam. Ninguém pode negar o direito a protestar. No entanto, existem em todos os lados meios legais de mudar o governo e suas instituições.

 

*Diretor do Centro Brasileiro de Solidariedade aos Povos e Luta pela Paz (Cebrapaz)





Fonte: FC edição 940
Postado por: Família Cristã




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