Missão na Amazônia

Data de publicação: 11/09/2014

Experiência missionária eclesial na Amazônia

 

Por Osnilda Lima, fsp – enviada especial da Signis Brasil

 

 

Pesquisador apresenta a ação missionária da Igreja na Amazônia brasileira desde a colonização até os dias de hoje com seus acertos e equívocos

 

O historiador, padre Raimundo Possidônio, (foto), fez um resgate da memória histórica da Igreja na Amazônia ao apresentar as grandes expressões da caminhada da Igreja nessa região brasileira, durante o encontro da Rede Eclesial Pan-Amazônica em Brasília (DF).

Segundo Possidônio, a Igreja que está na Amazônia tem um rosto próprio constituído a partir de uma história singular e de uma expressiva caminhada de evangelização. Possui uma rica experiência de ações pastorais que buscam responder aos desafios que a realidade amazônica apresenta e são expressão da solidariedade evangélica com a sócio-diversidade e que revelam a preocupação com a bio-diversidade e sua degradação. É a realidade de uma “Igreja que se faz carne e arma sua tem da na Amazônia”.

 

Memória – “Evangelizar na Amazônia sempre foi uma tarefa desafiadora devido as distâncias geográficas, as condições climáticas, a pobreza dos recursos e a contingência ou insuficiência dos quadros.  Mas estes obstáculos foram superados pelo heroísmo e santidade dos primeiros agentes que aqui chegaram e não mediram esforços para realizar sua missa”, relata o historiador.

De acordo com o historiador, no primeiro momento da evangelização, período da colonização denominado de “conquista espiritual da Amazônia”, religiosos, padres, bispos e leigos, de acordo com a mentalidade e segundo os métodos da época deram tudo de si para concretizar o Reino de Deus, entre luzes e sombras da caminhada. O resultado do encontro do evangelho com as cosmovisões amazônicas e africanas engendrou uma religiosidade original e diversificada.

Num segundo momento, Séculos XIX e XX, Possidônio, define como período da “romanização”. O pesquisador descreve que nessa fase vieram outros grupos de missionários. Desta vez chegaram na Amazônia religiosos e religiosas com outras impostações culturais e eclesiológicas, provocando também mudanças na formação do clero local.

Ele narra que com espírito missionário e com muito sacrifício penetraram os espaços amazônicos objetivando a evangelização. Foi o momento em que a Igreja redimensionou sua presença, com a criação de dioceses e prelazias tornando essa presença mais abrangente, efetivando e consolidando um modo de evangelizar próprio do tempo. Embora também nesse novo processo evangelizador os amazônidas mantivessem seu modo próprio de assimilar os ensinamentos e a mensagem do evangelho trazida  pelos novos missionários”, ressalta Possidônio.

Mais próximo do nosso tempo, podemos falar ainda de um terceiro ciclo evangelizador, a partir da década de 1950/60, assumindo as mudanças eclesiológicas que clamavam por uma abertura e à participação de leigos e leigas na Igreja através da Ação Católica e outros movimentos, a renovação provocada pelo Concílio Vaticano II, pelas Assembleias continentais de Medellín e mais tarde Puebla, motivaram mudanças significativas no ambiente eclesiológico”, lembra Possidônio

A partir de então, recorda o historiador que a Igreja faz uma passagem, de uma Igreja centrada na estrutura paroquial e na figura clerical passa para a comunidade a serviço do Reino, Povo de Deus encarnado na história. “Isso significou inculturar-se na realidade do povo e levar uma mensagem mais centrada no Reino de Deus. Tendo a encarnação como método, assumido aqui entre nós, Amazônia brasileira, na Assembleia de Santarém (1972)”, indica.

O historiador lembra que Igreja amazônica avançou e realizou uma evangelização libertadora. Plenificou sua presença chão amazônico, quando em Manaus (1997), se declarou como a Igreja que arma sua tenda na Amazônia, ensejando assumir-se uma Igreja com rosto amazônico. E comprometeu-se a tornar-se ianomâmi com os ianomâmi, seringueiros com os seringueiros. Mais recentemente, ele recorda que a Igreja se declarou discípula missionária na Amazônia (2007).

“Chamo a atenção para estas marcas no tempo na Igreja amazônica. Elas ainda estão aí, consolidaram-se, deixaram sulcos profundos na alma popular e se refletem na medida de nossa sabedoria ou não de lidar com isto. Aqui caberia um estudo à parte dessa questão, embora, no meu modo de ver, se nós quisermos trabalhar com os povos daqui, precisamos mergulhar com mais profundidade e sabedoria para deciframos este verdadeiro paradigma da fé amazônida. Não basta ser solidário na sua luta, precisamos atentar para algo que é mais profundo, está na alma, e às vezes a gente não percebe. E por não percebermos de forma clara podemos repetir atitudes passadas, danosas ou prejudiciais à missão”, adverte Possidônio.

Mas ressalta que esses marcos referenciais fizeram a Igreja na Amazônia assumir profeticamente a causa dos oprimidos dentro de uma realidade de exclusão, chegando mesmo a ser uma Igreja com marcas ou signos de uma Igreja profética/martirial.

 

Contexto atual dos povos da Amazônia – Raimundo Possidônio lembra que realidade atual socioeconômica e política impressiona pela agregação de diferenças sociais, culturais e econômicas na região Amazônica.

“Na vastidão da Amazônia vivem povos indígenas, habitantes ancestrais com sua cosmovisão própria, diversidade de línguas e de culturas milenares, alguns vivendo em suas terras e outros tantos vivendo nas cidades, sofrendo as agruras de um meia cidadania sem chances de viver a dignidade plena.

Outro segmento significativo são os ribeirinhos, os povos das águas, que sobrevivem do extrativismo, da agricultura familiar, da caça e da pesca: são os habitantes da várzea amazônica, da beira dos rios, furos e igarapés”, contextualiza, o historiador”.

No entanto, lembra ainda, que há os que vivem em outro ecossistema amazônico, a terra firme, composto de florestas altas e densas, as savanas, os cerrados e os campos naturais, que vivem e sobrevivem do extrativismo e da agricultura de subsistência.

Destaca também o fenômeno da urbanização, rápido e violento. “Costumo dizer que nosso povo é um povo que caminha peregrino nas estradas de um mundo desigual. É um povo que se move rio abaixo rio acima à procura de vida melhor”, descreve.

O historia conclui que o grande resultado desses “êxodos em busca da terra prometida” ou da “terra-sem-males” é o crescimento do fenômeno da urbanização na região.

Lembra que mais de 70% da população amazônica é urbana. E evidência o estado do Amapá (AP) onde a taxa de urbanização chega a 90%.  E ressalta que esse processo de urbanização fizeram surgir grandes centros urbanos, como Manaus (AM), que concentra a maior parte da população do estado do Amazonas.

Em Manaus, segundo o historiador, convivem povos indígenas, caboclos e ribeirinhos atraídos pela perspectiva de prosperidade promovida pelas indústrias de alta tecnologia. Já Belém (PA), acontece o processo de estagnação econômica, mas que tem um movimentado comércio, principal sustentáculo econômico.

Possidônio lembra ainda, que há na Amazônia, cidades de médio porte formadas pelo processo de migração constante, de pessoas que vieram de fora da região, atraídos pela propaganda oficial que, depois de abandonados pelo insucesso dos projetos governamentais, foram aumentar o cinturão de miséria dessas cidades.

Êxodos constantes – Possidônio observa que, existe também, o fenômeno constante do êxodo interno. E as razões são a expulsão da terra devido aos grandes projetos que não atendem às demandas de emprego, às estradas que vão rasgando a floresta em todas as direções, às queimadas, às terras invadidas pelo gado, à derrubada da floresta, à pesca predatória e à poluição dos rios e, ultimamente, ao plantio da soja.

O historiador faz a pertinente ressalva que da noite para o dia surgem novos aglomerados urbanos originando cidades de pequeno ou médio porte com todas as seqüelas que o fenômeno urbano provoca. “Tudo somado: as cidades da Amazônia possuem enorme contingente de marginalizados urbanos que formam uma diversidade sociocultural exótica, com seus ‘déficits de cidadania’.

Entre os déficits esta desigualdade social, a exploração do trabalho humano, a baixa escolaridade, a violência, o narcotráfico, o contrabando, o tráfego de pessoas para os mais diversos fim, a exploração sexual de crianças e adolescente. Contribui para isso a ausência de políticas públicas que geram dívidas sociais. “Tudo isso provoca o uso destrutivo, inadequado e insustentável dos recursos naturais”, sentencia, Possidônio.

“A cultura, a religião e outros aspectos da vida são rapidamente mudados em vista de atender aos novos apelos da metrópole. Ou seja, a urbanização e a ‘metropolização’ estabelecem um novo processo, cria novos atores que comandam e determinam a evolução da situação atual na região amazônica”, computa. 

 

A Igreja que está na Amazônia – Segundo o historiador, a Igreja tem marcado sua presença de modo original, criativo e inculturado. Lembra que o programa evangelizador da mesma corresponde não a uma mera estratégia diante dos apelos da realidade, nem para responder a chavões que de momento a momento chamam os cristãos para alguma missão desaparecendo logo depois. 

“A Igreja tem sido a expressão de uma caminhada que responde ao kayrós divino que impulsiona o povo de Deus em vista de implantar o seu Reinado nessas bio-sócio-diversidades. A realidade amazônica, uma região que se move, em muitos lugares ainda ao ritmo da canoa’, exige que a Igreja caminhe junto com seu povo, com o seu ritmo”, conclama Possidônio. 

O historiador ressalta a presença de leigos e leigas, padres, bispos, diáconos, religiosas e religiosas que assumiram a mística do verdadeiro Discípulo Missionário do Senhor, enfrentam o sol e o calor, as chuvas e as enchentes, doenças e a morte, a precariedade da alimentação e dos meios, estradas sem condições de trafegabilidade e de barco, de carro, canoa, bicicleta, moto ou a pé, percorrem longas distâncias para se chegar a uma pequena comunidade onde pessoas sedentas de Deus estão à espera, para a celebração dos Sacramentos ou da Palavra. “Estes quadros da Igreja não parecem suficientes para a grandiosidade dos desafios. Mas não se pode deixar de relatar que estão dando conta das exigências que a evangelização e o programa pastoral exigem, apesar das dificuldades e limites”, adverte.

Padre Raimundo Possidônio enfatiza o serviço que as Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) continuam prestando na Amazônia. “Nos mais distantes grotões dessa imensa região, onde o sacerdote não chega ou só vai esporadicamente,  a presença da Igreja Católica está garantida pelas Cebs”, ressalta.

Ele observa que nessa convivência eclesial e comunitária é possível unir as “sementes do verbo” presentes nas culturas do povo e na sua profunda religiosidade com um anúncio da Palavra vivenciado e transformador. E destaca que a Leitura Popular, Orante e Ecumênica da Bíblia está se difundindo sempre mais.

Afirma, inclusive, que essa leitura alimenta as pastorais, os grupos eclesiais, as comunidades religiosas e está provocando uma adesão mais consciente ao serviço do Reino e de sua justiça, está animando a resistência dos oprimidos e excluídos, está fortalecendo a coragem dos que lutam e está ajudando a ver, como que enxergando o invisível, que outra Amazônia é possível. (foto à direita:dom Moacyr Crechi, arcebispo emérito da Porto Velho - RO)

 

Esperança que impulsiona - “Não podemos perder de vista que a Igreja na Amazônia está inserida num contexto eclesiológico mais amplo que é a Igreja no continente americano e caribenho. Por isso, ao concluir essa reflexão, não poderia deixar de destacar que a vivência eclesial em nossa região encontra-se em plena correspondência ao tema da V Conferência Episcopal Continental realizada em Aparecida, e que gerou o Documento de Aparecida”, recorda Possidônio. (foto à esquerda: participantes do REPAM)

Lembra que na região já se deparam com a possibilidade de rever as estruturas eclesiásticas, como as paróquias. “Nossas paróquias precisam ser não só comunidades de acolhida, mas também comunidades de partidas missionárias, comunidades que vão ao encontro dos mais distantes, abandonados, refratários, que estão à margem da fé”.

Posidônio sugere que a vida das paróquias precisa girar não só em torno do eixo doutrinal-sacramental-clerical, mas, igualmente, do eixo da Palavra, formando mais intensamente discípulos missionários, em grande quantidade, para essa nova configuração e, sobretudo, apoiar e criar novas comunidades eclesiais de base com missionárias que, se sentirem apoiadas e alimentadas, serão a esperança de mudanças e transformações profundas na eclesialidade amazônica, pois correspondem melhor ao apelo da missionariedade. 

“Aqui se encontra, a meu ver, a grande intuição da V Conferência de Aparecida, envolver toda a Igreja numa grande missão continental, missão essa que pode e deve ser articulada, integrada, compartilhada”, .

 

 

 

 





Fonte: Signis Brasil
Postado por: Família Cristã




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