Sempre é tempo

Data de publicação: 12/09/2014

Por Nayá Fernandes Fotos Osnilda Lima, fsp


Aos 65 anos, Lydia Silva Gonçalves “começou a viver” quando aprendeu a ler, a partir de então não parou mais, concluiu Pedagogia e está cursando Direito

"Esperem na garagem. Ela está lá no fundo, no galinheiro, já vou chamar.” Assim a reportagem da Revista Família Cristã foi recebida na casa de Lydia Silva Gonçalves, 79 anos, na Estância Santa Cruz, um pedaço do litoral paulista na cidade de Itanhaém. A garagem é uma biblioteca improvisada e, além das tantas histórias contadas nos livros, carrega em si a história de Lydia, que passou no vestibular para outra faculdade, desta vez de Direito.

Analfabeta até os 65 anos, ela diz que “começou a viver depois que aprendeu a ler”. Lydia ia a pé até o asfalto, um pouco mais de 2 quilômetros da sua casa, onde se pega o ônibus para o centro de Itanhaém. Lá, fez a Educação de Jovens e Adultos (EJA), para concluir o Ensino Médio, e também terminou sua primeira graduação, em Pedagogia.

“Tudo começou quando pedi a uma amiga que lesse o contrato preparado por um advogado para tentar recuperar algumas terras que eram do meu pai e foram tomadas de nós. Mas o contrato dizia que metade das terras iria para ele, o advogado, se eu ganhasse a causa. Fiquei extremamente chateada e, a partir daquele dia, prometi que não iria mais ser enganada por ninguém.”

A caiçara, que mora a poucos metros da praia, é uma das únicas entre os dez irmãos que permaneceu por ali. “As pessoas não valorizam suas origens. Eu não. Tenho ótimas lembranças daqui. Fui criada como indígena, no meio da natureza, com os pés no chão e banho no rio. Tenho orgulho disso.”

Desde que começou a estudar, Lydia desenvolveu uma grande motivação. Ela sentiu que tinha de ajudar outras pessoas que passam por situações semelhantes às que ela viveu. “Ajudar as crianças que são abandonadas e, muitas vezes, não têm quem as auxilie nas dificuldades escolares, ajudar as pessoas que não têm com quem conversar, ajudar a tantas mulheres que moram por aqui, minhas vizinhas, e não sabem ler, ajudar... Para que não sejam enganadas, como eu”, esta foi a resposta quando questionada sobre a decisão de começar mais uma faculdade com quase 80 anos.

“Fui dando um passo de cada vez. Eu sabia só fazer o meu nome. Quando ia comprar as coisas, não entendia as informações na loja; para pegar um ônibus, precisava sempre perguntar. A analfabeta é a pessoa mais desprezível do mundo. Eu não era nada. E agora, sinto que estou continuamente subindo uma escada. Desde quando aprendi a ler, comecei a ver as coisas ao contrário.”

Mas as lágrimas nos olhos da esposa de Paulo da Silva caíram quando ela começou a contar sobre seus professores. “Não tive ninguém que me ajudasse, porque meu marido só tem até a 4a série e os filhos logo saíram de casa para trabalhar. Foi muito difícil terminar o colegial. Ninguém tinha tempo de fi car ensinando o ‘beabá’ para a vovó e só consegui chegar ao fim por causa dos professores que me auxiliaram. Eu queria que a classe dos professores fosse muito, muito mais valorizada.”

Estudando em meio aos adolescentes, com mais de 65 anos, era Lydia que ajudava os colegas. “No início, eles me olhavam assim, meio de lado, mas depois vinham me procurar para que eu os ajudasse nas provas, nas tarefas. Porque eu não sabia ler nem escrever, mas tinha a faculdade da vida, e, por isso, de alguma maneira era um pouco mais fácil para mim.”

Assim, ela foi fundo nos estudos desde o começo e era sempre a primeira da classe. “Eu perguntava tudo, queria saber tudo, ler tudo.” Claro que difi culdades não faltaram neste caminho do saber. “Todos os dias meu marido me acompanhava até o ponto de ônibus e também ia me buscar, quase à meia-noite. Quando chovia, tinha que ir com uma bota até a ponte, pois toda a passagem fi ca alagada. Então, depois que eu atravessava, calçava outros sapatos para chegar com os pés limpos na cidade.”

Nota dez – Quando terminou a graduação em Pedagogia, a estudante nota dez foi convidada para ocupar uma cadeira na Academia de Letras de Itanhaém. “Fiquei muito feliz. É uma coisa que eu nunca imaginaria que acontecesse na minha vida. Foi um presente de reconhecimento, depois que publiquei o meu primeiro livro, sozinha, com muito esforço.” O segundo foi um pouco mais fácil porque Lydia conseguiu o apoio de uma editora. Agora, ela está atrás de patrocinadores para publicar os outros, o quarto, que já escreveu.

“O primeiro livro, Mosaico caiçara, foi um desabafo. Por exemplo, sinto uma espécie de culpa por não saber muitas coisas que deixei de ensinar aos meus filhos. Meu avô era índio e minha mãe, filha de imigrantes espanhóis. Ela, minha mãe, perdeu a mãe aos 12 anos e com 16 o pai queria fazê-la de mulher, de esposa, porque aquilo antigamente era fácil. Contar a história da minha mãe foi uma libertação. Minha mente se abriu, muita coisa mudou.”

Atualmente, essa paulista mãe de cinco filhos toca contrabaixo numa banda, dá palestras na EJA para adolescentes, jovens e adultos, cuida da casa, do quintal, mas lamenta não ter conseguido conquistar nenhum de seus filhos para o mundo da literatura. “Dos meus filhos, apenas um gosta de ler. Penso, porém, que nenhum deles tenha lido um livro meu inteiro, nem o primeiro.”

E folheando rápido o livro, Lydia começou a declamar Liberdade, poesia na qual a escritora homenageia seus professores. “Eu nunca consigo dizê-la inteira, porque me emociono. Mas vou tentar.”

“Rompe-se a corrente [...]
Meus olhos revelam a minha liberdade
Um interminável descobrimento de inédita beleza.”

Com algumas de suas poesias, ela já ganhou prêmios e muitos diplomas de mérito. Os quadros com os certificados, os diplomas e as premiações estão pendurados em uma das paredes da biblioteca. Em caixas, encontram-se guardadas as últimas doações que ela recebeu para a biblioteca.

“Já li todos os livros daquela prateleira. Alguns livros não quero deixar na biblioteca. Entre eles, a autora abraça um com o título: Como fazer quase tudo. Quando eu vi este livro, os meus olhos brilharam. Os autores de que mais gosto são Carlos Drummond de Andrade, Graciliano Ramos, Clarice...” A Lydia, determinada e sonhadora, na sua biblioteca colorida, e depois do café oferecido por ela, seria uma gentileza oferecer uma das mais belas frases de Clarice Lispector: “Minha liberdade é escrever. A palavra é meu domínio sobre o mundo”.


Lydia Gonçalves recebe doações para a biblioteca. Quem quiser colaborar pode entrar em contato pelo telefone (13) 3429-3228.




Fonte: Família Cristã 944 - Ago/2014
Postado por: Família Cristã




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