Famílias urgência pastoral

Data de publicação: 08/10/2014

Filipe Domingues, especial de Roma



Papa Francisco convoca amplo debate sobre situações de sofrimento na vida em família


É praticamente impossível resolver sozinho uma situação urgente. Para o papa Francisco, os problemas relacionados às famílias são verdadeiras “urgências pastorais”, e isso o levou a convocar uma ampla reflexão entre os bispos do mundo inteiro. “Os desafios pastorais sobre a família no contexto da evangelização” é o tema da próxima assembleia do Sínodo dos Bispos, órgão por meio do qual eles se reúnem para discutir mudanças e traçar ações. A primeira assembleia sobre as famílias ocorre já em outubro deste ano, a pedido de Francisco, e outra está prevista para 2015.

É preciso que a Igreja realize “um caminho de discernimento e adote os meios pastorais adequados para melhor ajudar as famílias a enfrentar os desafios atuais”, disse o papa, em carta aberta às famílias, publicada em fevereiro. No mesmo mês, ele afirmou aos cardeais reunidos em Roma que a Igreja necessita de uma pastoral “inteligente, corajosa e permeada de amor”, que responda a “esta realidade humana tão simples e tão rica, feita de alegrias e esperanças, de fadigas e sofrimentos”.

O documento de preparação do Sínodo lista alguns dos problemas que as famílias enfrentam na atualidade, entre eles a família monoparental; as “barrigas de aluguel”; a poligamia; os matrimônios arranjados; as uniões de pessoas do mesmo sexo e de casais que não buscam o sacramento do Matrimônio; o acesso dos divorciados aos sacramentos. São “numerosas novas situações que exigem a atenção e o compromisso pastoral da Igreja”, resume o documento. Segundo o cardeal húngaro Péter Erdö, que o analisou por escrito, um dos objetivos é associar a chamada Nova Evangelização aos desafios da vida em família. “A família aparece como uma realidade que descende da vontade do Criador e constitui uma realidade social. Não é, portanto, uma mera invenção da sociedade humana, nem de qualquer poder puramente humano, mas principalmente uma realidade natural”, avalia.

É por isso que para Francisco a questão é urgente. Em entrevista ao jornal L’Osservatore Romano, o secretário-geral do Sínodo dos Bispos, cardeal italiano Lorenzo Baldisseri, explicou que “essa urgência é tomar consciência das realidades vividas pelas pessoas, retomar o diálogo pastoral com as pessoas que se afastaram por diversas razões internas à Igreja e externas da sociedade”. O cardeal alemão Walter Kasper, convidado pelo papa para induzir os bispos à reflexão sobre o tema, declarou à Rádio Vaticano que é preciso olhar para as situações em que as pessoas fracassam na vida em família. “A Igreja precisa estar próxima a elas, ajudá-las, apoiá-las e encorajá-las. Para ele, a grande dificuldade é achar o equilíbrio entre o excesso de rigor, “que não é o caminho normal dos cristãos”, e o total relaxamento das normas morais. “O ensinamento da Igreja precisa ser aplicado a questões concretas”, afirma o cardeal Walter Kasper.

Pergunta e resposta
– Buscando entender melhor quais são essas questões concretas, o Sínodo enviou um questionário às igrejas de todo o mundo, e a Revista Família Cristã vem trabalhando essas questões em reportagens no decorrer deste ano. As perguntas abrangem as mais variadas circunstâncias, como o Matrimônio de pessoas batizadas que não praticam a religião, a aproximação dos divorciados aos sacramentos, as uniões sem vínculo sacramental, o nível de aceitação do ensinamento da Igreja para o Matrimônio e a família... “Das respostas, resulta muito sofrimento, sobretudo daqueles que se sentem abandonados pela Igreja por se encontrarem em um estado de vida que não corresponde à sua doutrina e à sua disciplina”, esclareceu dom Lorenzo. “Com a iniciativa do Sínodo, abriu-se um caminho de confiança para muitos que a tinham perdido.” Já chegaram ao Vaticano mais de 80% das respostas de conferências episcopais; 60% daquelas dos dicastérios romanos (órgãos que ajudam o Papa a conduzir a Igreja), além de 700 respostas de outros grupos ou indivíduos.

Divorciados – O fator mais controverso atualmente é a situação dos casais separados que vivem em uma segunda união e que, por isso, não podem participar dos sacramentos. Como para a Igreja o Matrimônio é indissolúvel, esses católicos se encontram em uma condição irregular. De acordo com o padre Federico Lombardi, porta-voz do Vaticano, a problemática obviamente está na mente do Sínodo. Para exemplificar o problema, o cardeal Walter Kasper remete à sua própria experiência pastoral: “Um pároco me procurou para relatar o caso de uma mãe divorciada e em segunda união, cujo filho estava se preparando para a Primeira Comunhão. Ele iria receber a comunhão, mas a mãe, não. Então, eu me pergunto: como isso é possível? Temos arrependimento, misericórdia e perdão de Deus. Podemos realmente negar a remissione peccatorum (remissão dos pecados)?”, declarou ao jornal italiano La Stampa.

Entretanto, ainda não há um consenso. Alguns bispos não acreditam na possibilidade de grandes mudanças para os divorciados. O cardeal norte-americano Sean O’Malley sugere uma facilitação do acesso aos processos de nulidade matrimonial – pelos quais, após uma ampla análise de cada caso, é possível descobrir que o sacramento do Matrimônio nunca foi válido. Mas entende que “a Igreja precisa ser fiel ao Evangelho e ao ensinamento de Cristo” quanto à indissolubilidade do Matrimônio, conforme disse ao jornal Boston Globe. Para o prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, o cardeal alemão Gerard Ludwig Müller, o Matrimônio não pode ser visto com “critérios mundanos e pragmáticos”, pois o vínculo conjugal “permanece estável diante de Deus” e as partes “não são livres para contrair um novo Matrimônio enquanto o outro cônjuge estiver vivo”.

E o debate não se restringe ao ambiente episcopal. Associações de leigos, mulheres, grupos de jovens e universidades de todo o mundo vêm promovendo encontros para apresentar propostas aos bispos. “A Igreja precisa saber encontrar a aplicação da doutrina no caso concreto das pessoas. Essa abordagem não deve nos fazer imaginar conclusões gerais, normas para todos. Pode-se também desenvolver uma maneira nova de considerar a doutrina. A pastoral não é um esquema”, afirmou o cardeal Lorenzo Baldisseri ao La Stampa.




Fonte: Família Cristã 940 - Abr/2014
Postado por: Família Cristã




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