Viver o verde

Data de publicação: 06/11/2014

Por Irene Paz
Fotos Sonia Mele



Está provado que viver mais perto da natureza contribui com a felicidade e o bem-estar. Para quem mora nas grandes cidades, uma alternativa são os parques públicos

Se em 1940, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), entre os habitantes do país, 31% moravam nas cidades e 69% concentravam-se em zonas rurais, em 2010, 84% já estavam nas cidades e 16% estavam nos campos. A rapidez dessa inversão corresponde ao processo de industrialização do País, iniciado na primeira metade do século 20, que acelerou dramática e desordenadamente o êxodo rural, provocando, inclusive, o surgimento, nas grandes e médias cidades, de aglomerações de submoradias como favelas, palafi tas e cortiços. Em 2011, mais de 11 milhões de pessoas, ou 6% da população do País, moravam em 6.329 favelas de 323 municípios. Principalmente nas grandes regiões metropolitanas necessitadas de mão de obra barata e não especializada, como São Paulo (SP), Rio de Janeiro (RJ), Belo Horizonte (MG), Porto Alegre (RS), Brasília (DF), Recife (PE), Fortaleza (CE), Salvador (BA), Curitiba (PR) e Campinas (SP), onde vivem mais de 61 milhões de habitantes ou cerca de 30% da população brasileira.

Forçado a trocar o meio rural pelo urbano, o brasileiro, previsivelmente, muitas vezes se esforça para reproduzir em seu habitat um pouco de seu espaço perdido. Se não por ele, por seus pais e avós que um dia vieram do interior ou até de outros países. O contato com a natureza, nas metrópoles, pode ser mantido através dos oásis verdes dos parques públicos. E as opções são muitas. Para citar alguns exemplos: no Rio de Janeiro, a Floresta da Tijuca, Bosque da Barra, Jardim Botânico, Quinta da Boa Vista ou os Parques Lage, Catacumba, Pedra Branca, Estadual do Grajaú, da Cidade e da Chacrinha; em Porto Alegre, Jardim Botânico e Parques Farroupilha, Moinhos de Vento e da Marinha do Brasil; em Brasília, Parques Nacional de Brasília, da Cidade e Ermida Dom Bosco; em Florianópolis (SC), Parque de Coqueiros; em Belo Horizonte, Parque Municipal; e em São Paulo, Pico do Jaraguá, Horto Florestal, Butatã, Parques do Ibirapuera, Ecológico do Tietê, Villa-Lobos, do Carmo, da Independência, Água Branca, do Povo e da Juventude.

Terapia verde – Convém não menosprezar os efeitos de um dia tranquilo junto ao verde, principalmente para quem mora nas grandes cidades e é sugado pelo trabalho ou pelas responsabilidades durante a maior parte do tempo. Um estudo publicado recentemente na revista inglesa especializada Environmental Science and Technology pelo doutor Mathew White, do Centro Europeu para o Desenvolvimento e Saúde Humana da Universidade de Exeter, no Reino Unido, e que acompanhou 10 mil pessoas por 17 anos, comprovou que o acesso a áreas verdes provoca impactos positivos à saúde dos habitantes das grandes cidades. Entre outras descobertas, os pesquisadores constataram que habitantes de bairros com menos de 10% de áreas arborizadas eram muito mais propensos a relatar sintomas de depressão, estresse e ansiedade, em relação aos que tinham mais acesso às áreas verdes. Estes apresentavam menos sinais de transtornos mentais.

Para surpresa de muitos viciados em trabalho, o estudo descobriu que passar a morar em um local com acesso a áreas  verdes gera um efeito positivo mais duradouro do que, por exemplo, receber um aumento de salário, que produz efeitos positivos de curto prazo. “Uma pessoa pobre que vive em uma estrada próxima a uma floresta é mais propícia a se sentir feliz do que outra mais rica vivendo em um lugar cinza”, relatava o estudo. “As pessoas fazem todo tipo de coisas para ficarem mais felizes. Mas o problema é que, depois de um ano, elas voltam aos níveis originais. Então estas coisas não nos fazem felizes no longo prazo”, comparou White. Nem por isso, claro, devemos deixar de lutar pelo pão de cada dia. Mas uma pausa nessa luta, junto à natureza, certamente dá mais força para combater o bom combate. “Pessoas com acesso a espaços verdes são menos estressadas e, quando somos menos estressados, tomamos decisões mais razoáveis e nos comunicamos melhor”, afirmou o pesquisador.

Piquenique – Não à toa, desde que o clima ajude, os parques públicos das metrópoles do País ficam lotados aos feriados e fins de semana. Ainda mais agora quando os efeitos da primavera, que bateu às portas oficialmente em 22 de setembro, se fazem sentir principalmente nas regiões Centro-Oeste, Sul e Sudeste do País. Em São Paulo, cidade que conta com apenas 5,5 metros quadrados de área verde de lazer por habitante – bem abaixo dos 12 metros quadrados recomendados pela Organização Mundial da Saúde (OMS) –, os espaços junto aos lagos, bosques e gramados públicos são tão disputados quanto as areias das praias mais badaladas. E por razões óbvias: confi guram-se em um lazer barato, agradável e agregador, em que adultos,crianças, idosos e até animais domésticos podem conviver em relativa paz. Em algumas situações, os parques servem como cenários para encontros de famílias e até para algo que parecia estar fora de moda: o piquenique.

“Este ano, no lugar de fazer a festa de aniversário de minha filha em um buffet, fizemos um piquenique. Ela adorou e agora, semana sim, semana não, reunimos amigos e amigas da escola dela, com suas famílias. Cada um traz o que o filho gosta de comer e todos se divertem”, afi rma a auxiliar administrativa Talitha de Freitas, 27 anos, mãe da menina Pietra, 7 anos, que em um domingo de setembro brincava livre pelo Parque da Aclimação, zona sul de São Paulo, ao lado do pai, o promotor de vendas Rodrigo Munhoz, 31 anos. Eles faziam parte de um grupo de oito adultos e sete crianças, que, munidos das tradicionais toalha xadrez e cesta de vime, dividiam lanche, bolo, refrigerantes etc. “Herdei essa tradição do meu pai. Quando era criança, ele nos levava para fazer piquenique no Parque do Ibirapuera”, lembra a analista de administração Alessandra Souza, 36 anos, que fazia parte do grupo, ao lado da irmã, Marília Souza, da mãe, Márcia Souza, e dos sobrinhos, Lucas e Mariana. “Acho que é o melhor que podemos fazer por nós mesmos, principalmente para as crianças, que passam a semana toda em um mundo virtual de computadores, celulares, televisão e video games. É como se esse verde nos libertasse”, resume Marília.




Fonte: Família Cristã 946 - Out/2014
Postado por: Família Cristã




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