À espera de um renascer

Data de publicação: 07/11/2014

César Vicente

Quanto mais elevada a faixa etária da população, maior a incidência da doença de Parkinson. Mas há exceções

Quase uma exceção à regra, o produtor rural Célio Pulita (foto), de 57 anos, de Romelândia (SC), foi diagnosticado com a doença de Parkinson com apenas 47 anos. Ele vive em contagem regressiva para entrar no centro cirúrgico do Hospital Brigadeiro, em São Paulo (SP), e receber o dispositivo Deep Brain Stimulation (DBS) ou o chip de Estimulação Cerebral Profunda, que deverá livrá-lo dos sintomas da doença. E não sem tempo. Há três anos, ele recorreu à Justiça para ter direito à cirurgia pelo Sistema Único de Saúde e, assim, resgatar uma vida normal, o que deverá acontecer até dezembro.

Tomando 20 comprimidos diários para repor a dopamina não fabricada por seu cérebro, o produtor rural conta, em São Paulo, com a companhia da esposa, Ignês, para lhe prestar assistência física e moral. É ela quem lhe ministra a medicação a cada duas horas e o auxilia nos momentos em que esta, à noite, perde o efeito e seu corpo se torna rígido. Não é um cotidiano fácil. “Quando recebi o diagnóstico, caí em depressão profunda. Pensei em suicídio, mas descobri o trabalho artesanal, que me ajudou a recuperar a alegria de viver”, diz. Hoje, Célio exercita corpo e mente produzindo esculturas em raízes e placas em madeira, com mensagens cheias de coragem e otimismo. “Vou lutar pela vida até o limite das minhas forças”, é a sua preferida.

Para 2015, já “chipado”, Célio tem planos. Um deles não está muito longe de seus braços: carregar o neto de 1 ano, Felipe, no colo, coisa que a doença hoje impede. Também pretende retomar sua vida comunitária, como ministro da Eucaristia ou em outra pastoral da Igreja Católica, e viajar. “O ser humano perde muito tempo pensando em ter e se esquecendo de ser. Para viver bem, a gente precisa apenas de saúde, que já é uma grande riqueza”, argumenta.

Dentre as grandes conquistas da humanidade do século 20 e que tende a se consolidar neste milênio, a crescente expectativa de vida desponta como a mais animadora. Se em 1950 a esperança de vida do brasileiro era de 46,5 anos, esta saltou para 62,7 em 1980 e chegou a 73,9 em 2013. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), teremos condições – escolaridade, saneamento básico, segurança alimentar, políticas públicas de erradicação de doenças evitáveis (vacinações) etc. – para superar a barreira dos 80 anos até 2030. Mas, como tudo tem outro lado, viver mais implica conviver com contratempos próprios – mas não exclusivos – da velhice ainda não resolvidos pela ciência.

Um exemplo são as patologias degenerativas como a de Parkinson. Segundo estatísticas epidemiológicas, quanto mais elevada a faixa etária da população, maior a incidência dessa doença descrita pelo médico inglês James Parkinson, em 1817. Isso porque 80% dos casos ocorram entre pessoas de 65 e 75 anos e apenas 10% dos casos surgem antes dos 45 anos. Embora os números, no País, careçam de precisão, o Ministério da Saúde calcula que o problema já acomete hoje 200 mil brasileiros.

Imperceptível – A doença ocorre em homens e mulheres de todas as etnias e classes sociais. O que pode diferir, segundo o neurologista e professor da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) João Carlos Limongi, são os sintomas. “De modo geral, eles se mostram de maneira lenta e insidiosa, tão imperceptíveis que é difícil precisar quando surgiram”, diz. O que mais chama a atenção é o tremor nas mãos, que compromete a coordenação motora e as tarefas simples. A marcha também é afetada, pois o caminhar se torna curto e vagaroso. Há, ainda, rigidez muscular, desequilíbrio e alterações na fala. “Os pacientes perdem a amplitude dos movimentos e a extensão dos gestos”, completa.

O diagnóstico se dá através da observação dos sintomas e por exclusão. O médico recomenda uma bateria de exames – eletroencefalograma, tomografia computadorizada, ressonância magnética etc. –, para saber se não há outra doença no cérebro. Ela, na verdade, é provocada pela degeneração das células denominadas substâncias negras localizadas no tronco encefálico: dois pequenos núcleos do tamanho de um caroço de azeitona onde se produz a dopamina, neurotransmissor responsável pelos impulsos nervosos entre os neurônios. A doença é causada pela falta dessa substância.

Chip – Ainda incurável, a doença pode ter os sintomas controlados pela reposição farmacológica da dopamina. Como, porém, o problema se manifesta quando boa parte da capacidade do cérebro em produzir dopamina está comprometida, a reposição não impede a evolução da doença, e, cada vez mais, o paciente fica dependente da medicação. Nas etapas mais avançadas, além do declínio cognitivo e movimentos involuntários, podem surgir alterações psiquiátricas, psicose, hipotensão, incontinência urinária e constipação intestinal. O importante é saber, porém, que, quando bem tratada, a doença não leva à morte, ainda que comprometa a qualidade de vida. Tratamentos auxiliares como fisioterapia, fonoterapia e terapia ocupacional podem amenizar os sintomas.

Uma esperança para os parkinsonianos é a introdução de um microeletrodo no cérebro, uma espécie de marca-passo que estimula a produção da dopamina. Em um procedimento pouco invasivo, feito por meio de um orifício no crânio, um chip é inserido nas estruturas cerebrais profundas e alivia os sintomas. Segundo o neurocirurgião Nilton Lara, da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo, o chip não precisa ser substituído, mas apenas a bateria colocada no mesmo local (tórax) de um marca-passo cardíaco. A cirurgia custa cerca de 150 mil reais na rede particular, mas é feita gratuitamente pelo Sistema Único de Saúde (SUS). O problema, nesse caso, é a longa espera, que obriga muitos pacientes a recorrer à Justiça para garantir o direito a ela. A tendência, porém, é a cirurgia se tornar mais acessível com o tempo.




Fonte: Família Cristã 946 - Out/2014
Postado por: Família Cristã




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