Crianças refugiadas

Data de publicação: 12/11/2014

Larissa Leite *


Quase a metade dos refugiados e deslocados internos de todo o mundo é composta de crianças, e só entre janeiro e setembro a Cáritas-SP recebeu cerca de 200 menores de 18 anos

Eles abandonam suas casas e saem do seu país às pressas, com seus pais, com um deles ou com outro familiar ou conhecido. Deixam para trás a guerra, o medo ou a violência e, apesar da pouca idade, muitas vezes são responsáveis por amenizar momentos de angústia extrema.

Foi no ano de 2005 que o colombiano S., hoje com 19 anos, chegou ao Brasil. Ele tinha apenas dez anos de idade. Sua família precisou fugir do país após ser ameaçada gravemente pelas Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc). Da viagem para o Brasil, ele lembra apenas de alguns flashes, embora também tenha a sensação de que muito pouco tempo se passou desde então.

“Quando começamos a arrumar as malas, tive a sensação de que iríamos sair de férias, que alguma coisa divertida iria acontecer. Só depois de um tempo aqui é que notei que viemos para ficar.” A irmã, M. P., de 16 anos, lembra que, antes de embarcarem, o pai ensinava algumas palavras em português, e a única lembrança dramática do casal de irmãos sobre este momento é a do esquecimento de Ted, um boneco de pernas e braços longos, feito pela mãe, o preferido de S.

Local de refúgio – Situações de grave e generalizada violação de direitos humanos, ou de perseguição religiosa, étnica, política ou baseada em sua nacionalidade ou grupo social, destroçam famílias e as expulsam para fora de sua terra natal. Muitas delas encontram no Brasil o seu local de refúgio, trazendo pequenos cidadãos a tiracolo. Muitas dessas famílias são assistidas pelo Centro de Acolhida para Refugiados, mantido pela Cáritas Arquidiocesana de São Paulo (Cáritas-SP), com convênios com o Ministério da Justiça e o Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (Acnur).

Quase a metade dos refugiados e deslocados internos de todo o mundo se compõe de crianças, e só entre janeiro e setembro a Cáritas-SP já recebeu cerca de 200 menores de 18 anos. Destes, 158 têm menos de 14 anos e vieram acompanhados de algum responsável. Mas dentre os adolescentes, alguns chegaram a viajar totalmente desacompanhados. Esta realidade de desamparo tem se multiplicado e, desde 2012, há registros da chegada à Cáritas-SP de quase 50 estrangeiros menores, totalmente desacompanhados e em situação de refúgio.

Adolescentes e crianças refugiados correm um grande risco de abuso, negligência e exploração, mas, ainda assim, eles são altamente resilientes e encontram maneiras criativas de superar mudanças, muitas vezes acabando por transformar o seu entorno.

É o que conta Maria do Céu, assistente social da Cáritas-SP. Segundo ela, a presença de uma criança pequena na instituição comove automaticamente toda a equipe, que passa a distribuir carinhos e pegar no colo os pequenos. “Isso acaba confortando a mãe, que sente que o seu filho ou filha são queridos.” A alegria das crianças visivelmente contagia e colore o ambiente do Centro de Acolhida para Refugiados, por onde diariamente se veem pimpolhos de diversas nacionalidades, que não se importam se o coleguinha de brincadeira fala sua língua ou segue sua religião.

Com grande capacidade de adaptação, as crianças são quem primeiro aprendem a língua do novo país e, frequentemente, acabam atuando como intérpretes dos pais. “A criança chega e já vai brincar com o vizinho, em seguida faz amizade no parquinho com outras crianças. Isso naturalmente acaba aproximando os pais das pessoas e ajudando na sua integração à nova comunidade”, afirma Maria.

Ainda assim, não são pequenos os obstáculos enfrentados por famílias refugiadas que chegam com crianças. M., do Sudão, vive em São Paulo há três anos e relata a dificuldade que passou, no início, para matricular na escola suas duas filhas, V. e D. “Quando chegamos, vivíamos mudando de casa, muitas em diferentes bairros de São Paulo. Não havia como manter as crianças em uma escola sem antes estabilizarmos a questão da moradia, que era uma prioridade”, conta.

Após matriculá-las em uma escola na Penha, foi aconselhado pela coordenação que a mais velha repetisse o 40 ano, por conta da falta de fluência na língua portuguesa. Mas isso não desanimou a pequena V., que agora só tira notas altas em todas as matérias. “Principalmente em Matemática, minha preferida”, conta. Em português impecável, ela responde sem pestanejar aquilo de que mais gosta no Brasil: “A comida. Arroz, feijão, farinha, bife e batata frita”.

Do Sudão, V. diz que sente falta dos parentes que ficaram, especialmente da avó, de quem era muito próxima. M. completa dizendo que se a adaptação à cultura local não é problema para as crianças, a dificuldade maior está em se habituar à nova realidade financeira da família. “Lá, tínhamos uma vida totalmente confortável, podíamos comprar tudo que queríamos. Aqui temos que começar do zero e ponderar muito mais nossos gastos.”

É o mesmo caso de uma família síria que chegou a São Paulo há menos de quatro meses. Se em Damasco dispunham de um conforto material grande, aqui ainda passam por dificuldades para dar conta das necessidades mais básicas. “Mas, mesmo pequenos, eles têm compreendido a situação, de que não temos mais computador, iPad e brinquedos novos o tempo todo”, conta E., mãe de três crianças, de 8, 6 e 5 anos. O pequeno F., o mais velho, conta que o que mais sente falta no momento é justamente da escola, pois ainda não está matriculado em São Paulo.

Integração – A adolescente M. P., que chegou ao Brasil quando tinha seus poucos seis anos de idade, conta que, quando vai à Cáritas e vê crianças recém-chegadas imagina que elas não estejam confortáveis num ambiente tão diferente do seu. Mas também pensa que elas não possuem noção alguma sobre o que estão vivenciando. “Foi mais ou menos assim que me senti quando cheguei.”

Entretanto, a advogada da Cáritas Vivian Holzhacker pondera que não se pode subestimar o quanto uma criança absorve do que acontece à sua volta. Vivian observa que muitas mães não se constrangem ao realizar a entrevista de solicitação de refúgio na frente dos filhos, muito embora seja o momento em que tenham que relatar em detalhes, por exemplo, os momentos em que sofreram violência física ou sexual. “Muitos pais acreditam que os filhos não entendem ou não estão prestando atenção na conversa, o que, na nossa opinião, não é o que acontece”, conta. Por isso, sempre respeitando a postura dos pais, a equipe de advogados da Cáritas-SP procura maneiras de distrair os pequenos durante as entrevistas. “Chamamos as psicólogas para brincar ou dar uma atenção a eles em outra sala, caso elas estejam livres. Mas nem sempre isso é possível.”

Uma vez que suas necessidades básicas estejam supridas, as crianças refugiadas encontram uma facilidade incrível para se integrar ao Brasil, que, em grande parte dos casos, acaba sendo adotado como seu país. S., por exemplo, carrega memórias vivas dos seus primeiros momentos nas duas cidades em que viveu no Brasil. “Lembro-me do meu primeiro dia de aula aqui em São Paulo. Até hoje tenho amigos que conheci naquele dia.” As amizades feitas quando viveu no estado do Amazonas também prosseguem: com saudade, S. lembra da banda de rock e dos shows que faziam pela região.

M. P., que chegou ao Brasil ainda menor que o irmão, também fala dos amigos brasileiros e não pensa em voltar para a Colômbia. “Eu torci para o Brasil na Copa do Mundo e chorei nos 7 x 1. Ao contrário dos meus pais, eu não quero voltar para a Colômbia. Acho que sou um pouco diferente, pois cheguei aqui pequenininha”, conta.


 
*Larissa Leite é advogada e responsável pelo Setor de Relações Externas do Centro de Acolhida para Refugiados, Projeto Acnur, da Cáritas Arquidiocesana de São Paulo.




Fonte: Famíia Cristã 946 - Out/2014
Postado por: Família Cristã




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