Sete vidas e um coração

Data de publicação: 12/11/2014


Texto e fotos Andreza Espezim




Na cidade de Joinville (SC), um casal e seus filhos especiais quebram preconceitos, exercitam a tolerância e, contrariando  a lógica do mundo, testemunham o amor.

A primeira coisa que uma mulher precisa, ao abrir o coração para ser mãe, é pedir a Deus capacidade para amar a criatura da forma que vier. Agradeço a Deus por ter essas crianças para amar”, conta Auta E. de Souza, mãe de sete filhos. Natural de Imbituba (SC), Autinha, como é conhecida, herdou dos pais, Auta e Nivaldo, o carinho pela família, a dedicação ao trabalho e uma história de vida não muito comum. Prestes a completar 54 anos, lembra-se da infância com alegria. “Quando era criança, pegava minhas bonecas e rezava para Jesus transformá-las em bebês. Colocava-as embaixo das minhas cobertas porque se elas esquentassem eu acreditava que virariam crianças. Fiz isso muitas vezes, até perceber que não aconteceria aí pedi à minha mãe que adotasse uma criança”, lembra. Mas já com nove filhos, sua mãe não adotou outro. O trabalho já era árduo o bastante para criar seis filhos, pois três tinham falecido.

Com 18 anos, Autinha casou com José Sélito e, logo, veio o primeiro filho. Com dificuldades financeiras e problemas de saúde durante a gravidez, mas tendo sempre a atenção da família, ela seguia feliz com a possibilidade de ver o sonho de criança concretizado. A pequena Midian nasceu e, logo depois, um desafio. Aos 19 anos, com um segundo filho, Júnior, descobriram no bebê um câncer nos olhos. “Estava viajando de caminhão com o Sélito quando percebi o primeiro sinal estranho nos olhos dele. Por morarmos no sítio, demoramos um pouco a levá-lo ao médico, inclusive por não ter dinheiro para a consulta. Quando soube da doença, saí do Hospital Infantil, em Florianópolis (SC), pelo meio da rua, gritando. Meu filho era lindo, mas não cresceu. Morreu com 1 ano e 8 meses. Daí em diante, comecei a ver a vida diferente: comer bolacha e deixar farelo no sofá não era mais um problema. Um monte de coisas que as crianças querem fazer e não permitimos é, no fundo, tão sem importância... Tudo tem limite, claro, mas não podemos ser radicais”, diz.

Cabe mais um? – Para engravidar novamente, Autinha precisou fazer um tratamento. Aos 21 anos, adotou um menino com 45 dias de vida. Israel chegou à família e, com o tempo, descobriu-se que ele tinha um atraso parcial no desenvolvimento. A causa? A mãe biológica usou drogas durante a gravidez e tentou o aborto inúmeras vezes. Durante o processo de adoção, Autinha descobriu-se novamente grávida. Nasceu Elias, um menino saudável e companheiro do irmão. “Ele sempre andou junto do Israel. Elias sentava na bicicleta e saía com o mano. Se ia jogar bola, o levava. Meus meninos cresceram, e o carinho e cuidado do Elias por Israel continua o mesmo”, alegra-se.

Aos 34 anos, o casal adotou outra criança. A busca foi longa e, quando encontraram a criança, ela nem sequer tinha nascido. “A mãe biológica pegou uma Bíblia e disse que a criança em seu ventre seria minha. João Pedro nasceu, mas ficou internado por mais de um mês. Descobrimos que ele era soropositivo, mas não nos importamos, embora ficássemos tristes. Ele morreu com 11 anos, mas foram 11 anos de alegria na vida dele e na nossa. Foi morar no céu”, lembram, emocionados, Autinha e Sélito. Perseverante, o casal adotou uma menina quando Autinha estava com 39 anos. Maria Ruth, com 3 meses, também chegou doente à família. Desconfiado, o casal procurou a médica de João Pedro, que deu o mesmo diagnóstico: a menina também era soropositivo. Mas seu destino, felizmente, foi diferente. Após um longo tratamento, Maria Ruth aguarda, saudável, a celebração dos seus 15 anos.

E, como a vida segue em frente, aos 46 anos, Autinha resolveu adotar outra criança. Tudo acertado com a mãe biológica, assim que a menina nasceu souberam que ela era portadora da síndrome de Down. Com a saúde comprometida, Ana Vitória ficou por seis meses no hospital antes de vir para casa. Mas, finalmente, veio e foi recebida de braços abertos. “Eu não sei o que Deus quer da gente, mas vou aceitar tudo o que vier. Sinto uma alegria tão grande por ser mãe da Ana Vitória! Ela é muito querida”, revela a supermãe.

Tem tudo – Mesmo com tantos filhos, o sonho de aumentar a família continua. Agora mesmo chegou a hora de ser avó. Quando soube que sua filha mais velha, Midian, lhe daria um neto de presente, Autinha não se conteve: “A alegria foi tão grande que todos os dias eu agradecia a Deus e pedia a Ele que a capacitasse a ser uma boa mãe e, a mim, uma boa avó”, recorda ela. “As primeiras palavras da minha neta, Elise Dóris, foram ‘oi, bobó’. Ela chamou a vovó!, claro”, garante Autinha.

O sonho de Autinha é aumentar a casa, com mais quartos para adotar mais crianças. “As pessoas rejeitam um ser humano por não ser bonito, ainda mais quando é diferente. Mas os meus dias não são vividos por mim. Vivo pelos meus filhos. Para ver em cada rostinho a alegria e o brilho nos olhos. Só fico triste quando as crianças pedem alguma coisa e eu não posso suprir ou quando a família não está em harmonia”, lamenta. Em sua casa, como não poderia deixar de ser, a educação dada aos filhos biológicos é igual à dos adotivos. “Sempre explico aos meus filhos o motivo do sim e do não. Isso é amor, respeito pelo outro. Quando se fala de amor não se fala de possessão. O amor possessivo não traz alegria, escraviza. Amar sem pensar em receber nada em troca é o mais importante numa família. Antes de ser mãe, a gente tem que ser amiga, porque amigo verdadeiro nunca cobra nada”, conclui Autinha. Como prova, uma cena corriqueiramente se repete na vida dela. Israel chega perto da mãe e pergunta se ela o ama e por quê. Assim que tem a resposta, ele diz: “Quem tem mãe tem tudo!”.




Fonte: Família Cristã 946 - Out/2014
Postado por: Família Cristã




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