Pode ser a gota d’água

Data de publicação: 18/11/2014

César Vicente

Entrevista

“É necessário reaprender a olhar a água com outro entendimento”, afirma a ambientalista Malu Ribeiro, da SOS Mata Atlântica


A mais populosa e economicamente importante região do Brasil, a Sudeste, convive com uma crise hídrica sem precedentes, evidenciada, em setembro, por um fato carregado de simbolismo: pela primeira vez na História a nascente do Rio São Francisco, chamado de Rio da Unidade Nacional, localizada no centro-sul do estado de Minas Gerais, secou. A rigorosa estiagem afeta ainda a Represa de Três Marias (a 224 quilômetros de Belo Horizonte), cuja atual vazão é crítica, e muitos pontos do interior paulista, onde o serviço de abastecimento de água de vários municípios foi privatizado pelo governo do estado. Neles se convive com o rodízio do fornecimento desde o início do ano. Enquanto isso, na região metropolitana da capital, acompanha-se com angústia o declínio diário e constante dos níveis das seis represas – Jaguari, Jacareí, Cachoeira, Atibainha, Águas Claras e Paiva Castro – que compõem o chamado Sistema Cantareira, responsável pelo fornecimento de água para quase 9 milhões de pessoas.

“Culpar São Pedro ou o clima não é o caso. O problema está no alto adensamento populacional das metrópoles da região, poluição dos rios, desmate das florestas e matas ciliares em torno das nascentes, grande desperdício produzido,  em especial, por alguns setores do agronegócio, e na falta de uma política de reflorestamento. Enfi m, na má gestão dos nossos recursos naturais”, resume a ambientalista Malu Ribeiro, coordenadora da Rede de Águas da SOS Mata Atlântica, organização não governamental pioneira na defesa, proteção e conservação do bioma mais ameaçado do País. Nesta página e nas que se seguem, a entrevistada lança um alerta inquietante. “Precisamos aprender a compartilhar a água na mesma medida em que é necessário rever os nossos modelos de consumo e de desenvolvimento.”

FC – A nascente do Rio São Francisco, localizada no Parque Nacional da Serra da Canastra, secou. Podemos interpretar esse fato como surpresa ou algo previsto?
Malu Ribeiro – O acontecimento pegou muita gente, inclusive climatologistas, de surpresa. Não é normal isso acontecer com nascentes dentro de um parque ou de uma área protegida, como a do Rio São Francisco. Mas, observando o fato de um contexto mais amplo, não é totalmente estranho. A nascente do São Francisco fica na Serra da Canastra, em Minas Gerais. Não por coincidência, segundo o Atlas dos Remanescentes Florestais da Mata Atlântica, esse estado foi recordista em desmatamento pelo quinto ano consecutivo. Logo, não podemos deixar de ligar essa consequência a uma causa. Podemos atribuí-lo à superexploração das atividades minerais da região, ao uso abusivo da mata seca mineira para a produção de carvão e ao ritmo acelerado do desmatamento ali promovido nos últimos cinco anos.

FC – Falando de uma forma que qualquer pessoa possa entender, como o desmatamento compromete as nascentes e os rios?
Malu Ribeiro – A lógica das águas subterrâneas, da natureza, não é a mesma lógica dos homens que acreditam, segundo o novo Código Florestal, ser suficiente deixar apenas 50 metros de matas ciliares em torno das nascentes para preservá-las. Não é. A região que a gente chama de recarga dos aquíferos, onde estão as florestas para as águas se infiltrarem no solo e reabastecerem os lençóis freáticos, muitas vezes está bem distante das nascentes dos rios. Fica lá nas regiões mais baixas das serras denominadas de zonas ripárias das bacias hidrográficas. Essas zonas ripárias têm solos mais porosos que permitem a entrada das águas superficiais nas águas subterrâneas. O que ocorre é que, sem as árvores, sem a floresta, não acontece essa infiltração no solo. O solo vai embora, ocorrem as erosões e se criam aquelas vossorocas, imensas rachaduras no solo, tanto em extensão quanto em profundidade. Isso contribui muito para um processo de desertificação.

FC – Quais outras causas podem ser associadas à prolongada estiagem na Região Sudeste e, em particular, no estado de São Paulo?
Malu Ribeiro – Pela sua intensidade e prolongamento, a estiagem registrada este ano, particularmente em São Paulo, não tem nenhuma semelhança histórica anterior. Climatologistas, técnicos e ambientalistas chegam a compará-la com a registrada há 83 anos. Mas naquele período a gente não tinha como avaliar a situação mais precisamente. A população não era a mesma, e o cenário era outro. De lá para cá, o crescimento populacional e desenvolvimento urbano, industrial e mesmo agrícola vem dificultando nossa capacidade em repor os recursos naturais. E esse é um grande desafio! Como fazer as pessoas que cresceram com abundância de água, no Sudeste rico do Brasil, de repente terem de conviver com estiagem e seca? Isso não faz parte da cultura do Sudeste. Estamos acostumados com a superoferta e o desperdício. Mas a situação mudou e precisamos reaprender a olhar a água com outro entendimento.

FC – Em resumo, aprender a economizar?
Malu Ribeiro – Se aprendemos a produzir automóveis mais econômicos e menos poluentes, podemos também construir indústrias que poluam menos, devolvam aos rios uma água tão ou mais limpa quanto a que captaram, e casas e prédios que usem a água com mais inteligência. O crescimento populacional das metrópoles precisa também ser controlado para os reservatórios poderem dar conta do abastecimento. Certos setores do agronegócio, que utilizam a irrigação de forma abusiva, precisam ser mais responsáveis. Alguns deles chegam a desperdiçar até 70% da água captada e, em muitos casos, a água vai de volta para a terra contaminada por agrotóxicos e defensivos agrícolas. É em função disso que uma das propostas da SOS Mata Atlântica apresentadas aos candidatos das últimas eleições foi implementar a cobrança pela água junto aos grandes produtores rurais, em 100% das bacias da Região Sudeste. Não se trata de taxar os pequenos e médios produtores da agricultura familiar, que põem alimento na mesa dos brasileiros e têm uma real noção da importância da água, mas os produtores de commodities, que produzem em larga escala para exportação. Esses devem pagar pela água captada e pela poluição lançada. A cobrança poderia ser estendida aos grandes usuários que captam a água bruta, como os do setor elétrico, indústria e as companhias de saneamento. Sem o valor a ser repassado ao consumidor final, claro.

FC – Mas taxar não vem a resolver o problema da escassez...
Malu Ribeiro – É claro que não. A SOS Mata Atlântica não acredita exclusivamente em medidas punitivas, como multas. Elas têm sua importância, mas o fundamental é a gente conscientizar a sociedade de que a água é essencial e ela não vem de forma mágica para as torneiras. O objetivo é buscar a eficiência no uso e, de preferência, até no reuso da água. É que, como sabemos, o bolso é o órgão mais sensível de muitas pessoas. Algumas indústrias de refrigerantes e bebidas, por exemplo, já aprenderam a fazer um uso intensivo e inteligente da água. Para você ter ideia, para cada litro de refrigerante produzido, são utilizados de 4 a 5 litros de água. O que as indústrias aprenderam a fazer? Reutilizar a mesma água. Hoje, muitas já reutilizam a mesma água sete ou até oito vezes e ainda a devolvem limpa aos rios. O ideal seria o agronegócio fazer o mesmo, investindo mais no uso tecnológico da água.

FC – A propósito das recentes eleições, a senhora entende que a questão da crise hídrica no Sudeste e da utilização mais racional da água, de modo geral, foram bem exploradas nos debates, bem enfocadas pelos candidatos?
Malu Ribeiro – Não foi e perdemos uma grande oportunidade. Para nós, literalmente, faltou água aos debates. Em São Paulo, particularmente, as discussões em torno da crise hídrica foram equivocadas. Elegeu-se a Sabesp, a concessionária gerida pelo governo do estado para prestar os serviços de saneamento básico, como grande vilã em função do governador Geraldo Alckmin ocupar a liderança nas pesquisas de intenção de voto. O resultado é que, entre informações e contrainformações da propaganda política, a população não se ateve à real gravidade da escassez da água.

FC – Em resumo, haverá, em São Paulo, na maior região metropolitana do País, racionamento de água?
Malu Ribeiro – Em muitos municípios do interior, onde o fornecimento de água foi privatizado, já está havendo rodízio no fornecimento. Em Itu mesmo, onde está a sede da SOS Mata Atlântica, há racionamento desde fevereiro para a população, que está se virando com caminhões pipas. Em São Paulo e região metropolitana, a Sabesp não tem penalizado tanto os consumidores. Em vez de cortar a água, diminuiu a pressão nos canos. É uma forma de evitar o desperdício, pois faz com que muitos canos não arrebentem com a pressão do ar. Quanto a 2015, ou a curto ou médio prazos, não há previsão de recuperação para o Sistema Cantareira. Assim, boa parte da Grande São Paulo precisará buscar água em outros sistemas, como o do Alto Tietê e Guarapiranga, onde as chuvas já estão chegando. Oxalá todos nós possamos aprender algo com isso: que a água existente no universo é a mesma desde o começo dos tempos. Precisamos usá-la, tratá-la e reusá-la sempre. Sem desperdiçar.




Fonte: Família Cristã 947 - Nov/2014
Postado por: Família Cristã




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