O Anjo Bom do Brasil

Data de publicação: 26/11/2014

André Bernardo


Com estreia marcada para o dia 27 de novembro, o filme Irmã Dulce conta a vida da religiosa baiana que dedicou sua vida a amar a Deus e a servir os pobres

Transformadora. É assim, numa única palavra, que as atrizes Bianca Comparato, 28 anos, e Regina Braga, 67, descrevem a experiência de interpretar Irmã Dulce no cinema. No filme dirigido pelo cineasta Vicente Amorim, que estreia em circuito nacional no dia 27 de novembro, Bianca dá vida à religiosa baiana, da juventude até os 45 anos, e Regina segue dali até 1992, quando o Anjo Bom da Bahia, como ficou nacionalmente conhecida, morreu, vítima de problemas respiratórios, aos 77 anos. Bianca foi convidada a interpretar a personagem depois que Deborah Secco, cotada inicialmente para o papel, declinou do convite. Ao ler o roteiro pela primeira vez, a atriz não resistiu e foi às lágrimas. “Fiquei tocada pelo exemplo de vida de Irmã Dulce. Ela tinha um olhar generoso e maternal pelos pobres. O fato de ter construído um hospital a partir de um galinheiro é algo que sempre me comove”, cita Bianca, que traz uma medalhinha de Irmã Dulce no pescoço.

O hospital a que Bianca se refere é o Santo Antônio, em Salvador. Até 1949, o que funcionava ali era o galinheiro do antigo convento. Sem ter onde atender 70 doentes que perambulavam pelas ruas da capital baiana, Irmã Dulce pediu à Irmã Gaudência que transformasse o galinheiro em albergue. “Mas, onde vamos colocar as galinhas?”, preocupou-se a superiora. “Deixe comigo, madre”, tranquilizou a freira. Dias depois, improvisou uma canja e a serviu aos pacientes. A história de como Irmã Dulce transformou um galinheiro em enfermaria é apenas uma das muitas narradas no filme. A inglória tarefa de contar 77 anos de vida em pouco menos de duas horas ficou a cargo dos roteiristas L. G. Bayão e Anna Muylaert. Apesar de já ter escrito outras cinebiografias, Bayão confessa que, por diversas vezes, mal conseguia teclar. “É difícil não se emocionar com a cena em que a freirinha invade casas interditadas na Ilha dos Ratos para abrigar os pobres e indigentes”, recorda.

Todos os membros da equipe técnica, da atriz Bianca Comparato ao roteirista L. G. Bayão, parecem ter sido tocados por Irmã Dulce. A começar pela produtora Iafa Britz. Responsável por alguns dos maiores sucessos do cinema brasileiro, como Se eu fosse você, de 2006; Nosso Lar, de 2010, e Minha mãe é uma peça, de 2012, Iafa lembra que a ideia de transpor a vida e obra de Irmã Dulce para as telas surgiu meio por acaso, durante um bate-papo com Bruno Wainer, dono da distribuidora Downtown Filmes. Lá pelas tantas, Bruno perguntou: “Já ouviu falar da Irmã Dulce?”. “Pouco”, respondeu Iafa. Os dois, então, resolveram viajar para a Bahia e conhecer de perto as Obras Sociais Irmã Dulce (OSID). Lá, conheceram Maria Rita Pontes, sobrinha e atual diretora da instituição que leva o nome da religiosa. “Quando chegamos a Salvador, fomos totalmente arrebatados. Na mesma hora, decidimos que havia ali uma história que merecia ser contada”, recorda Iafa.

Para escrever o roteiro, Anna Muylaert leu diversas biografias da religiosa baiana, como Irmã Dulce dos Pobres, de Maria Rita Pontes; Irmã Dulce – O Anjo Bom da Bahia, do historiador italiano Gaetano Passarelli, e Irmã Dulce, da escritora baiana Mabel Velloso. Algumas das passagens mais tocantes da vida de Irmã Dulce não poderiam ficar de fora do filme. Como a vez em que ajudou a socorrer as vítimas carbonizadas de um ônibus que colidiu contra um bonde. Ou, então, o dia em que levou uma cusparada na mão ao pedir esmolas a um feirante da Cidade Baixa. Na mesma hora, Irmã Dulce enfiou a mão cuspida no bolso e estendeu a outra. “Bem, essa foi para mim. Agora, dê alguma coisa para os meus pobres, por gentileza”, insistiu a freira. “Li vários livros a respeito, mas só entendi Irmã Dulce realmente quando visitei o Hospital Santo Antônio, em Salvador. Entrei lá como curiosa e saí como devota. É impressionante”, relata Anna.

Objeto de devoção
– Terminado o roteiro, Iafa Britz convidou o cineasta Vicente Amorim para dirigir o filme. No currículo dele, constam longas-metragens, como O caminho das nuvens, de 2003; Um homem bom, de 2008, e Corações sujos, de 2011. “Meus filmes, todos eles, são inspirados em histórias reais. A diferença é que nenhum dos filmes que rodei até agora tinha sido sobre alguém que, além de real, era objeto de devoção. Nesse caso, a adaptação torna-se algo muito mais delicado”, analisa Amorim. Quando soube que a vida de Irmã Dulce seria adaptada para o cinema, dom Murilo Krieger, arcebispo de Salvador (BA) e primaz do Brasil, pediu que o filme fosse o mais fiel possível aos fatos. “Este filme poderá apresentar um pouco da grandeza de Dulce, que era uma irmã ao mesmo tempo frágil e gigante. Digo pouco porque livro algum, homilia alguma, palestra alguma conseguirá dizer quem, realmente, Dulce é. Isso, a gente só descobre ao longo da vida”, admite dom Murilo.

Sobrinha de Irmã Dulce e atual diretora da OSID, Maria Rita revela que já assistiu ao filme umas cinco vezes. E garante que gostou muito do que viu. Para rodar o filme, a equipe de produção passou 40 dias em Salvador. Na capital baiana, Amorim usou 36 locações diferentes, como a Ordem Terceira de São Francisco, a Favela de Alagados, o Forte do Barbalho, o Convento da Divina Providência e o Largo da Glória. “Sempre que podia, acompanhava de perto as filmagens. Se pudesse, teria ficado no set da primeira à última cena”, brinca. Do elenco, quem mais chamou a atenção de Maria Rita foi Bianca Comparato. Na primeira vez que ouviu a atriz, teve a nítida impressão de que ela estava dublando Irmã Dulce. “Ainda hoje, quando ouço Bianca, fico impressionada. Chego a pensar que é minha tia quem está falando. A voz das duas é igualzinha”, espanta-se Maria Rita, que elogia também a composição de Regina Braga. “Incorporou muito bem a personagem”, salienta.

Mudança de hábito – Quando recebeu o convite para interpretar a personagem, Regina chegou a duvidar se teria capacidade para aceitar o papel. Primeiro porque, com quase 50 anos de carreira,nunca fez cinema. E, depois, porque, loura e de olhos verdes, não se achava parecida com Irmã Dulce. Foi Maria Adelaide Amaral, dramaturga portuguesa radicada no Brasil, quem a convenceu do contrário. Convite aceito, Regina emagreceu 5 quilos, assistiu a inúmeros vídeos de Irmã Dulce e, com a ajuda de Maria Sílvia Siqueira Campos, a preparadora de elenco, assimilou o gestual da religiosa. Não satisfeita, ela e Bianca combinaram de viajar para Salvador um mês antes do início das filmagens. Lá, conversaram com amigos, parentes e devotos de Irmã Dulce, conheceram os lugares por onde ela passou e, principalmente, visitaram o Convento do Desterro. “Ter dormido no convento foi uma experiência rica que eu e Bianca vivemos juntas. Ajudou muito na composição da personagem”, garante.

Bianca concorda. E avisa que, mesmo depois do início das filmagens, sempre dava uma passadinha no convento para visitar as irmãs e rezar com elas. “Era fundamental aprofundar a minha fé para entender melhor a personagem”, explica. Em geral, Bianca, o elenco e a equipe técnica acordavam às 4h30 e às 5 horas em ponto já estavam no set para filmar. Dependendo da luz, rodavam até às 17 horas. Uma das cenas mais trabalhosas foi a que reproduziu o encontro de Irmã Dulce e o Papa João Paulo II, por ocasião da primeira visita do Santo Padre ao Brasil, no dia 7 de julho de 1980. Para rodá-la, Amorim reuniu cerca de 1.600 figurantes no Aeródromo de Salvador. Por coincidência, o último dia de filmagens caiu em 26 de maio. Neste dia, se viva estivesse, o Anjo Bom do Brasil teria completado 100 anos. “Espero que o filme toque o coração da juventude. Nossos jovens estão carentes de bons exemplos. E Irmã Dulce foi modelo de religiosa, cidadã e mulher”, exalta Maria Rita.





Fonte: Família Cristã
Postado por: Família Cristã




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