A mártir da Amazônia

Data de publicação: 12/02/2015

Por Felício Pontes Jr.*

 

“Não vou fugir, nem abandonar a luta desses agricultores, que estão desprotegidos no meio da floresta”, irmã Dorothy Stang.

 

Em 12 de fevereiro de 2005, acordamos todos assustados com uma notícia que chamaria a atenção do Brasil para o que se passava na Amazônia. Uma mulher, idosa, professora, religiosa da Congregação Notre Dame de Namur, nascida americana e naturalizada brasileira, era assassinada com seis tiros à queima-roupa, aos primeiros raios de sol daquele dia. Chamava-se irmã Dorothy Stang – ou simplesmente Doti, para os povos da floresta.

Naquele tempo, o desmatamento da Amazônia estava na casa dos 27 mil quilômetros quadrados por ano – hoje está em torno de 4 mil quilômetros quadrados por ano –, e havia forte migração de trabalhadores, sobretudo nordestinos expulsos de suas terras, para a Transamazônica. O destino de muitos era Anapu (PA), a pequena cidade à beira da estrada. Sem terem para onde ir, eles eram levados a uma casa feita de madeira, pintada de verde-água, ao lado da Igreja de Santa Luzia, na qual seriam acolhidos com comida e lugar pra atar a rede.

A Doti lhes dizia que o lugar que havia sido destinado pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), para ocupação ficava a 40 quilômetros de distância, num travessão quase intransitável da Transamazônica. Muitos aceitaram como tábua de salvação. Seria um assentamento diferente, sem a devastação altíssima naquele tempo.

O assentamento foi batizado com o sugestivo nome de Projeto de Desenvolvimento Sustentável Esperança, e se desenvolvia a passos largos. Doti levou sementes de cacau, nativo da região, e promoveu o consórcio com outras espécies: açaí, castanha, banana etc. Para resumir, ajudou a região a se tornar uma das maiores produtoras de cacau do Brasil. Produziu melhoria econômica não vista em nenhum outro assentamento na Amazônia.

Isso atraiu a ganância da elite econômica da região – grileiros, madeireiros e fazendeiros. Aquele exemplo de projeto de desenvolvimento era pequeno, mas muito “perigoso” aos olhos dessa elite. Se a ideia se espalha, o poder político-econômico mudaria na Amazônia. E, assim, a juraram de morte e consumaram o ato, como mostrado no premiado filme Mataram Irmã Dorothy.

Em uma de suas famosas cartas, Doti declarou: “Não vou fugir, nem abandonar a luta desses agricultores, que estão desprotegidos no meio da floresta. Eles têm o sagrado direito a uma vida melhor, numa terra onde possam viver e produzir com dignidade, sem devastar”.   

Na homilia da missa de corpo presente, dom Erwin Kräutler, o bispo do Xingu, confessou que, quando de sua apresentação, em 1982, ela pediu que fosse enviada ao trabalho com os mais pobres entre os pobres. E completou: “Agora Dorothy fala com Jesus do alto da cruz: ‘Tudo está consumado’ (Jo 19,30). Sua vida e sua morte são o testemunho inequívoco do amor levado até as últimas consequências. ‘Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida por seus amigos’” (Jo 15,13). Sim, Dorothy deu sua vida! Deu o testemunho mais eloquente de seu amor: derramou seu sangue. Nós perdemos a Doti. E a Amazônia ganhou sua mártir.

* Felício Pontes Jr. é procurador Geral da República, no Pará, e mestre em Teoria do Estado e Direito Constitucional.





Fonte: Família Cristã
Postado por: Família Cristã




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