Famílias, um só amor

Data de publicação: 17/03/2015


“A família atravessa uma crise cultural profunda, como todas as comunidades e vínculos sociais”, papa Francisco

 Karla Maria


A família está em pauta entre os bispos do mundo e entre os parlamentares brasileiros. É tema em paróquias, comunidades, casas. A família são os agrupamentos consanguíneos ou por afeição, refletidos em pesquisas que apontam uma realidade distante da dita “família convencional”. Dados de 2010 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) revelam, por exemplo, que pouco mais de um terço dos brasileiros vive algum tipo de união conjugal não formalizada. A união consensual passou de 28,6% para 36,4%. A proporção de pessoas casadas no civil e no religioso, no mesmo período, caiu de 49,4% para 42,9% na década. As famílias monoparentais também são uma realidade: 12,2% das mulheres vivem apenas com os filhos, sem o cônjuge. Entre os homens, o número é de 1,8%. A mesma pesquisa registra a presença de cerca de 60 mil casais formados por pessoas do mesmo sexo, o que representa crianças com dupla “maternidade” ou dupla “paternidade”.
Para refletir sobre o olhar da Igreja Católica diante dessas realidades, das famílias, o papa Francisco realizou o Sínodo Extraordinário dos Bispos; para regulamentar o funcionamento e seus direitos, os parlamentares brasileiros discutem no Congresso Nacional o estatuto da família; e a Revista Família Cristã, por aqui, recorre à doutora em teologia Maria Inês de Castro Millen, coordenadora de Pesquisa do Centro de Ensino Superior de Juiz de Fora (CES/JF), para dar o pontapé inicial nos trabalhos de compreensão e descoberta do rosto dessas não “tão novas” famílias brasileiras.

FC – Qual a definição de família? A senhora concorda com antropólogos que afirmam que a família é uma instituição cultural? Por quê?
Maria Inês Castro Millen − O Dicionário Michaelis define a família, retomando conceitos antropológicos e sociológicos, como: 1) Conjunto de pessoas, em geral ligadas por laços de parentesco, que vivem sob o mesmo teto, particularmente o pai, a mãe e os filhos; 2) Conjunto de ascendentes, descendentes, colaterais e afins de uma linhagem ou provenientes de um mesmo tronco, estirpe; 3) Pessoas do mesmo sangue ou não, ligadas entre si por casamento, filiação ou mesmo adoção, que vivem ou não em comum, parentes, parentela; 4) fig. Grupo de pessoas unidas por convicções, interesses ou origem comuns.

FC – Qual a definição de família a partir da perspectiva da Teologia Moral?
Maria Inês Castro Millen − Retomo aqui a conceituação de família oferecida pela Igreja, através da sua Doutrina Social. Esta a define como “uma íntima comunhão de vida e de amor entre pessoas, fundada no matrimônio entre um homem e uma mulher”. Diz ainda que é “lugar primário de relações interpessoais, que é a célula primeira e vital da sociedade”, que “é uma instituição divina, colocada como fundamento da vida das pessoas, como protótipo de todo ordenamento social”.

FC – A definição da Igreja coaduna com a definição apresentada pela sociedade?
Maria Inês Castro Millen − Essa definição que a Igreja traz é importante e necessária, porque nos coloca diante do ideal moral, mas que nem sempre coincide com o real. Por essa razão, não podemos desconsiderar a experiência concreta das pessoas, na sua riqueza, mas, sobretudo na sua fragilidade, que faz com que elas vivam e sobrevivam em outros contextos e em outros modelos organizacionais, às vezes distantes do ideal proposto, mas hoje aceitos e considerados na sua dignidade pelas diferentes culturas e sociedades. 

FC – A união consensual aumentou no Brasil. As famílias monoparentais são uma realidade, bem como aquelas formadas por pessoas do mesmo sexo e assim crianças com dupla “maternidade” ou dupla “paternidade”. Diante de tais fatos, como a Teologia Moral lê a realidade dessas pessoas?
Maria Inês Castro Millen − Aqui visito o papa Francisco. Este, na sua exortação Evangelii Gaudium, reconhece que “a família atravessa uma crise cultural profunda, como todas as comunidades e vínculos sociais”. E diz mais: “No caso da família, a fragilidade dos vínculos reveste-se de especial gravidade, porque se trata da célula básica da sociedade, o espaço em que se aprende a conviver na diferença e a pertencer aos outros, e no qual os pais transmitem a fé aos filhos.” Assim, a Teologia Moral percebe que essas realidades precisam ser consideradas, vistas, lidas e refletidas de maneira séria e serena, para que o Evangelho de Jesus Cristo possa ser proposto e considerado uma notícia alegre a ser comunicada a todos e não como fardo pesado que as pessoas não suportam carregar.

FC – A Igreja Católica, preocupada com essas “novas e diferentes” configurações familiares, está pronta pastoralmente para lidar com tais realidades?
Maria Inês Castro Millen − Todas essas realidades, que não são novas, mas agora mais visibilizadas, precisam ser consideradas, olhadas pela Teologia Moral católica com o mesmo olhar misericordioso e amoroso de Jesus, que não julga, mas acolhe, se aproxima, cuida e salva.

FC – Qual o papel do Sínodo nesse contexto?
Maria Inês Castro Millen − O Sínodo sobre a Família, que começou pela consulta pública, na busca do sensus fidelium, mostra que a Igreja está disposta a refletir sobre essas situações reais, apontando para ações pastorais que, sem negligenciar os ensinamentos que garantem o ideal desejado, possam, de modo criativo e responsável, buscar novos caminhos.

FC – Esta é uma abertura do papa Francisco?
Maria Inês Castro Millen − É útil recordar as palavras do papa Francisco ditas na missa de 9 de maio de 2014, na Casa Santa Marta: “A vinhos novos, odres novos. A novidade do Evangelho. O que ele nos traz? Alegria e novidade. Os doutores da lei estavam fechados em seus mandamentos, em suas prescrições. São Paulo, falando deles, nos diz que antes da fé – ou seja, de Jesus – todos nós estávamos protegidos como prisioneiros sob a lei. A lei dessas pessoas não era má: protegidos, mas prisioneiros, à espera que chegasse a fé. Aquela fé que teria sido revelada, no próprio Jesus. [...] O Evangelho – disse ainda Francisco – é novidade! O Evangelho é festa, e só se pode vivê-lo plenamente em um coração alegre e renovado! Que o Senhor nos dê a graça de observar esta lei no mandamento do amor, nos mandamentos que provêm das bem-aventuranças”... Que o Senhor nos dê a graça de ‘não permanecermos prisioneiros’, mas também a graça ‘da alegria e da liberdade que nos traz a novidade do Evangelho’”.

FC – A Pastoral da Diversidade é realidade em alguns estados como Rio de Janeiro e São Paulo. Não é, contudo, legitimada por suas dioceses. Por quê?
Maria Inês Castro Millen − Muitas vezes, temos medo do diferente. Estamos presos aos nossos conceitos e às nossas pretensões de verdade. No entanto, precisamos ter presente, com a Escritura, que no amor não há temor. A grande novidade trazida por Jesus, que escandalizou a muitos do seu tempo, e que continua escandalizando hoje, é aquela que aponta para o amor incondicional oferecido, sobretudo, àqueles considerados pela ordem vigente não merecedores deste amor, como diferentes indesejados, que devem permanecer à margem da vida.

FC – Por que a mulher ainda está distante da paridade aos homens na Igreja? Onde isto se justifica?
Maria Inês Castro Millen − Aqui é preciso que a longa História do Ocidente cristão seja considerada na sua cultura patriarcal machista. A ascensão social da mulher é muito recente. A Igreja caminha devagar, em função de sua pesada estrutura bimilenar, mas também de sua prudência, às vezes pouco criativa.

FC – Mas há esperança?
Maria Inês Castro Millen − Há esperança! Recorro novamente ao papa Francisco, na entrevista que deu aos jornalistas, no avião, de volta a Roma, depois da Jornada Mundial da Juventude: “Uma Igreja sem as mulheres é como o Colégio Apostólico sem Maria. O papel das mulheres na Igreja não é só a maternidade, a mãe de família, mas é mais forte: é precisamente o ícone da Virgem Maria, de Nossa Senhora; aquela que ajuda a Igreja a crescer. Mas pensem que Nossa Senhora é mais importante que os apóstolos! É mais importante! A Igreja é feminina: é Igreja, é esposa, é mãe. Mas, na Igreja, a mulher não deve apenas... –  não sei como dizer em italiano – o papel da mulher na Igreja não deve se circunscrever a ser mãe, trabalhadora... Limitá-la não! É outra coisa! Mas os papas... Paulo VI escreveu uma coisa bonita sobre as mulheres, mas acho que se deve avançar mais na explicitação desse papel e carisma da mulher. Você não pode entender uma Igreja sem mulheres, mas mulheres ativas na Igreja, com o seu perfil, que fazem avançar. Vem-me à mente um exemplo que não tem nada a ver com a Igreja, mas é um exemplo histórico na América Latina: o Paraguai. Para mim, a mulher do Paraguai é a mulher mais gloriosa da América Latina. Você é paraguaio? Após a guerra, ficaram oito mulheres para cada homem, e essas mulheres fizeram uma escolha um pouco difícil: a escolha de ter filhos para salvar a pátria, a cultura, a fé e a língua. Na Igreja, temos de pensar a mulher sob essa perspectiva de escolhas arriscadas, mas como mulheres. Isso deve ser explicitado melhor. Eu acho que ainda não se fez uma profunda teologia da mulher na Igreja. Limitamo-nos a dizer que pode fazer isto, pode fazer aquilo, agora faz a coroinha, depois faz a leitura, é a presidente da Cáritas... Mas há muito mais! É necessário fazer uma profunda teologia da mulher. Isso é o que eu penso.”

FC – É possível uma teologia da mulher?
Maria Inês Castro Millen − Como ele (o papa Francisco) também penso que ainda não se fez uma profunda e frutuosa teologia da mulher. Sua condição de criatura, com a dignidade que lhe é inerente, pelo fato de ser imagem e semelhança de Deus na sua relacionalidade com o homem, ainda não foi devidamente considerada. Sem essa reflexão, que apontará passos concretos a serem dados, não faremos jus, como Igreja, a tudo que as mulheres representam e a todo o seu potencial criativo e genial, como diz o papa, ainda a ser descoberto.




Fonte: FC ediçao 949 -Jan 2015
Postado por: Família Cristã




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