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Data de publicação: 23/03/2015

As lógicas da Igreja de Francisco: descentralizar e reintegrar todos os tipos de marginalizados na vida da comunidade eclesial



Por Moisés Sbardelotto *

Cabo Verde, Haiti, Mianmar, Panamá e Tonga: pela primeira vez na história da Igreja, esses países têm um cardeal próprio, graças às escolhas do papa Francisco. Não se trata de um detalhe menor. Ao contrário, é um sinal concreto de duas lógicas desencadeadas pelo pontífice: a descentralização da Igreja e a reintegração de todos os tipos de marginalizados na vida da comunidade eclesial.
Nos dois consistórios – as assembleias cardinalícias – convocados por Francisco desde a sua eleição, o papa criou 39 cardeais, homens que, segundo ele, são “um eixo, um ponto de apoio e de movimento essencial para a vida da comunidade” católica. Na prática, são eles que elegem os pontífices e auxiliam o papa eleito no governo da Igreja. Do total de cardeais criados por Francisco, 15 são da Europa, 11 da América Latina, 7 da Ásia, 5 da África e 1 da América do Norte. Mas foi a “safra” mais recente, de fevereiro passado, que mostrou novos encaminhamentos para a Igreja.
Quando Francisco foi eleito, em março de 2013, África e Ásia tinham 9,6% dos cardeais eleitores cada, ou seja, prelados com menos de 80 anos que têm direito a voto no conclave. Depois do consistório de fevereiro passado, a África tem 12%, e a Ásia, 11%. A América Latina soma 14%. Se a comparação for entre cardeais eleitores europeus e não europeus, os segundos já são a maioria: 54%. No total, o Sul do mundo conta com 41% dos cardeais eleitores. Embora ainda haja um desequilíbrio, o desvio do eixo eclesial provocado pelas escolhas de Francisco rompe com uma tendência histórica quase estática na composição do Colégio Cardinalício, centralizada no Norte do mundo, especialmente na Europa e, dentro dela, na Itália.
As novas escolhas de Francisco respondem à realidade do mapa-múndi católico de hoje. O mais recente Anuário Pontifício (2014) – uma espécie de “Censo” da Igreja que contabiliza oficialmente os dados eclesiais do mundo inteiro – retrata uma Igreja cada vez mais “des-norteada”. A velha Europa católica é a região menos dinâmica do catolicismo, com apenas 0,3% de crescimento no número total de fiéis e com uma clara redução no número de vocações sacerdotais e religiosas. O crescimento católico ocorre no Sul do mundo: o continente africano é o que apresenta o maior aumento no número de fiéis (4,3%), e a Ásia desponta como a região do globo em que se encontra o maior crescimento de vocações sacerdotais e religiosas, segundo o documento vaticano.
O papa já havia deixado claro na sua exortação apostólica: “Não podemos pretender que todos os povos dos vários continentes, ao exprimir a fé cristã, imitem as modalidades adotadas pelos povos europeus num determinado momento da história, porque a fé não pode ser confinada dentro dos limites de compreensão e expressão de uma cultura” (Evangelii gaudium, n. 118). Segundo o pontífice, mesmo tendo uma manifestação histórica romana, “o cristianismo não dispõe de um único modelo cultural”, e mais: “Não faria justiça à lógica da encarnação pensar num cristianismo monocultural” (EG 116).
Mas não se trata de uma agenda meramente geopolítica do Papa Francisco. Mais do que uma descentralização geográfica, há um movimento ainda mais radical: o autodescentramento. Foi o próprio Francisco que explicou isso aos novos cardeais na missa do dia 14 de fevereiro: “Quem é autocentrado busca inevitavelmente o seu próprio interesse”, mas a dignidade cardinalícia “provém da caridade, deve ser exercida na caridade e tem como fim a caridade”. E “a caridade te descentra e te coloca no verdadeiro centro que é só Cristo”. Assim, o primeiro papa latino-americano relembra aos novos “príncipes da Igreja” que o centro eclesial não é Roma, nem a Europa, nem o Ocidente, muito menos o papa ou qualquer cardeal: o centro é “só Cristo”.

A lógica da liberdade − Descentrar-se para dar lugar a Cristo também significa assumir a sua lógica. Refletindo sobre o trecho evangélico da cura de um leproso, na missa com os novos cardeais no dia 15 de fevereiro, Francisco afirmou que Jesus “revoluciona e sacode com força” uma mentalidade “fechada no medo e autolimitada pelos preconceitos”. Jesus não trata “juridicamente a questão dos leprosos”: ele toca aquele leproso concreto, de carne e osso, reintegra-o na comunidade, sem se “autolimitar nos preconceitos; sem se adequar à mentalidade dominante do povo; sem se preocupar de modo algum com o contágio”. Essa é a “lógica de Deus”, a “lógica do amor, que não se baseia no medo, mas na liberdade”.
Essa é uma das homilias mais importantes do seu pontificado, pois serve como um mapa de orientação para toda a Igreja neste ano tão importante, em que estão agendadas a nova encíclica de Francisco sobre ecologia, a continuidade da reforma da Cúria Romana e o Sínodo Ordinário dos Bispos, em outubro, sobre a “vocação e a missão da família na Igreja e no mundo contemporâneo”. Diante das inúmeras situações pastorais difíceis diante das quais a Igreja se situa hoje – que vão desde a questão dos divorciados até os homossexuais, passando pelo individualismo, pela crise ambiental e por “esta economia que mata” –, o papa desafia os novos cardeais e toda a Igreja a “reintegrar os marginalizados”. Esta, segundo Francisco, é a forma concreta de pôr em prática a misericórdia e a compaixão de Jesus.
Por isso, os cristãos e cristãs devem tomar uma decisão: “marginalizar” ou “reintegrar”. Para o papa, essas duas lógicas se fazem presentes na vida da Igreja mediante “o medo de perder os salvos e o desejo de salvar os perdidos”. Mas o caminho da Igreja, afirma o papa, “é sempre o de Jesus: o caminho da misericórdia e da integração”, o caminho de “não condenar ninguém eternamente”. Por isso, os cristãos e as cristãs de hoje não podem se sentir “tentados a estar com Jesus sem querer estar com os marginalizados, isolando-se em uma casta que nada tem de autenticamente eclesial”. É preciso “servir Jesus crucificado em cada pessoa marginalizada, seja pelo motivo que for”. A questão-chave é muito clara: “É no evangelho dos marginalizados que se joga, se descobre e se revela a nossa credibilidade”.
A descentralização da Igreja – “des-norteando” e “re-orientando” a comunidade eclesial para o centro que é “só Cristo” – e a reintegração dos marginalizados – “de qualquer gênero” – estão no horizonte do catolicismo do século XXI, sob a liderança de Francisco. Um catolicismo não mais unicamente romano, italiano, europeu, mas global e multicultural, aberto para acolher e para ir ao encontro de todos, formado por povos e culturas diferentes e diversos, mediante os quais “a Igreja exprime a sua genuína catolicidade e mostra a beleza deste rosto pluriforme” (EG 116).

* Moisés Sbardelotto é jornalista, mestre e doutorando em Ciências da Comunicação pela Unisinos (RS) e La Sapienza (Roma), e autor de “E o Verbo se fez bit” (Ed. Santuário).




Fonte: Familia Crista ed. 951/março2015
Postado por: Família Cristã




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