Do carnaval à Páscoa

Data de publicação: 25/03/2015


A Páscoa define a data do carnaval ou o carnaval fixa a data da Páscoa? A Páscoa cristã ocidental foi fixada pelo Concílio de Niceia no ano 325 d.C., já o carnaval remonta meadosde  600 a 520 anos a.C.

Fernando Altemeyer Junior

Carnaval, do italiano, carnevale: folguedo, tríduo de momo ou folia. Os portugueses chamavam-no entrudo, jogando nos cantantes de blocos de rua água suja, farinha, tinta etc., quando se propaga a ideia pagã de liberação da sexualidade. Acredita-se que ele tenha surgido na Grécia,  em meados dos anos 600 a 520 a.C., quando  os gregos celebravam seus cultos em agradecimento às divindades pela fecundidade do solo e pela produção. As folias carnavalescas remontam, também, aos bacanais greco-romanos, festas dionisíacas ou festas da carne.
O Brasil organiza, desde o século 19, festas envolvendo multidões pelas ruas das cidades com destaque internacional para o frevo de Olinda e Recife, em Pernambuco, e o carnaval na Marques de Sapucaí, do Rio de Janeiro (RJ). Na Bahia, a força e a beleza do povo negro manifestam-se alegre desde a Praça Castro Alves até a beira-mar soteropolitana, seguindo potentes trios elétricos. Blocos como o dos Filhos de Gandhi já existem há mais de 50 anos. Hoje fazem parte do patrimônio artístico cultural de nosso povo brasileiro.
O carnaval  tradicionalmente era marcado pelo “adeus à carne”. Após essa festa se fazia um grande período de abstinência e jejum. Para preparar a festa, havia a concentração de grandes festejos populares. A seu modo, cada lugar e região brincavam. Na maioria das vezes de forma propositalmente extravagante, de acordo com os seus costumes.

Quarta-Feira de Cinzas, símbolo da penitência, luto e finitude da matéria passada pela prova do fogo. Representa o pecado e a fragilidade humana (cf. livro da Sabedoria 15,10; profeta Ezequiel 28,18; profeta Malaquias 3,21). Se cobrir de cinzas é sinal público de arrependimento e forma concreta de colocar-se à prova, à espera do perdão de Deus. Nos primeiros séculos do cristianismo, os membros da Igreja que tivessem cometido pecados gravíssimos, motivo de grande escândalo, estavam sujeitos a uma penitência pública, que podia durar semanas ou mesmo anos, segundo a gravidade da culpa. Vinham estes descalços até a catedral, no primeiro dia da Quaresma. O bispo da cidade, depois de exortá-los ao arrependimento dos pecados, os cobria com um cilício, pequena túnica com cinto ou cordão, de material áspero ou grosseiro, trazido diretamente sobre a pele, e atirava-lhes uma porção de cinzas na cabeça dizendo ao mesmo tempo: "Lembra-te, ó humano, que és pó e que a pó serás reduzido". Eram jogados para fora da Igreja e não mais podiam nela entrar enquanto não fosse cumprida a penitência. No século 11, padres e leigos quiseram seguir essa prática de humilhação e penitência, reservada outrora aos pecadores públicos e notórios, e, assim, no Ocidente a partir do século 12 o costume expandiu-se em todas as Igrejas quando os fiéis na Quarta-Feira antes da Quadragésima iam receber cinzas em suas frontes. A fórmula é a mesma: "Lembra-te que és pó e ao pó hás de voltar” (Gênesis 3,19), ou diz-se o texto do Evangelho de Jesus segundo Marcos 1,15: "Convertei-vos e crede no Evangelho". O significado é pessoal e radical: mudar de vida e de atitudes injustas e corruptas.

Quaresma, dos 40 dias que precedem a festa maior dos cristãos, a Páscoa. Até o século 7º, a Quaresma começava no Domingo da Quadragésima (quadragesima dies, o quadragésimo dia, na verdade, o quadragésimo segundo dia antes da Páscoa). Tendo em conta os domingos, durante os quais o jejum era interrompido, o número de dias até a Páscoa efetivamente era inferior a 40, e para continuar fiel ao simbolismo do número 40 (40 anos no deserto, 40 dias de jejum de Cristo) antecipou-se o começo da Quaresma para a Quarta-Feira precedente ao Domingo da Quadragésima: Dia das Cinzas. Na Igreja primitiva era a última etapa da preparação do batismo para os catecúmenos, administrado na noite de Páscoa. Nos 40 dias, a Igreja incentiva à prática do jejum, da solidariedade com os pobres (esmola) e da oração. É tempo de voltar para Deus, de reaquecer a fé e de mudança de vida e superação das atitudes patológicas. Muitos ainda hoje se abstêm das carnes vermelhas, mas olvidam-se dos pobres, agindo de forma hipócrita. Diz Leão Magno: "É inútil tirar ao corpo a comida, se não tira d'alma o pecado". A intuição central da Quaresma é a mudança de atitudes e práticas favorecendo a solidariedade e a fraternidade. Em 2015, este tempo religioso se inicia dia 18 de fevereiro até 2 de abril e quer recordar duas coisas: ouvir e rezar mais a Palavra de Deus e dispor-se a celebrar o Mistério Pascal.

Semana Santa, é a grande semana litúrgica do calendário cristão, de 29 de março até 5 de abril.  A semana que precede a Páscoa cristã é dita santa por apresentar e vivenciar nas Igrejas e comunidades a preparação do mistério maior do cristianismo no ano religioso ou litúrgico.

Domingo de Ramos, são bentos ramos de oliveira ou palmeira, e se lê o texto evangélico da entrada solene de Jesus em Jerusalém. O ramo bento é colocado em uma cruz em cada lar ou sobre as tumbas nos cemitérios, para lembrar a força da vida e a esperança cristã. A Igreja neste dia convida os fiéis a contemplar os padecimentos do Cristo em seu caminho para o calvário.

Tríduo Pascal, centro do ano litúrgico cristão, quando se celebra em comunidade eclesial a fé em Jesus Cristo crucificado, morto, sepultado e ressuscitado. Começa com a missa vespertina da Ceia do Senhor na Quinta-Feira e encerra-se com as vésperas do Domingo da Ressurreição.

Quinta-Feira Santa, a Igreja celebra a Ceia do Senhor, ou seja, a instituição da Eucaristia com a tradicional cerimônia do Lava-pés. Ao final da missa se faz a solene adoração do Santíssimo Sacramento, com cantos em latim como Tantum Ergo ou Pange Língua.

 Sexta-Feira Santa, ou Sexta-Feira Maior, dia em que não se celebra missa ou qualquer sacramento. É dia de silêncio, recolhimento e de comungar as hóstias consagradas na noite da Quinta-feira. Lê-se o relato da paixão e faz-se as procissões da Via-Sacra ou Caminho da Cruz, com suas 15 estações. Acontecem as grandes preces da Igreja pelo mundo, a adoração da cruz, que nasceu em Jerusalém e foi absorvida por Roma no século 7º, e ao final da cerimônia oferece-se a comunhão eucarística.


Sábado de Aleluia
, a última noite da Semana Santa é dia da Vigília Pascal, ou Sábado de Aleluia, normalmente celebrada na noite ou madrugada do Domingo de Páscoa. Essa festa é móvel e se celebra no primeiro domingo depois da lua cheia do outono. Ao meio-dia, costuma-se "malhar o Judas", ou seja, bater e queimar um boneco de pano representando a traição de Judas Iscariotes que vendeu seu mestre aos algozes.

Páscoa, do latim paschalis, deriva da palavra hebraica Pessah, passagem.
Sentido histórico, Pessach é a festa do povo judeu que rememora a saída do povo do Egito conduzido por Moisés, por volta do ano 1250 a.C. É celebrada na primeira lua cheia depois da primavera, no Hemisfério Norte, com um cordeiro imolado, ervas amargas e pão ázimo.
Sentido teológico, celebrar a morte e a ressurreição de Cristo faz os cristãos experimentarem Deus na vida dando sentido à existência pela salvação aceitada e pela participação no ato eclesial de louvar ao Deus da vida.


Calendário pascal
, para calcular a Páscoa, deve-se buscar a primeira lua cheia depois da mudança de estação. Quando começa o outono a partir de 21 de março, olha-se a lua cheia seguinte. E aí temos a Páscoa judaica. A cristã é no primeiro domingo imediatamente após. A partir do carnaval se volta para trás 46 dias para achar a Quarta-Feira de Cinzas. É a Páscoa que marca o calendário carnavalesco. As comunidades cristãs de raízes judaicas fixavam a data em 14 do mês judaico de Nisan. E assim desde os anos 36 e seguintes em Jerusalém, Betânia, Nazaré e aonde os apóstolos chegavam a marca judaica definia a data, lua cheia da primavera, pois estavam no Hemisfério Norte. Essa maneira de pensar foi promulgada para toda a Igreja em cânones do Concílio de Niceia no ano 325, por ordem do imperador Constantino. O papa Gregório XIII revisou o calendário para fazer coadunar o antigo calendário lunar com o calendário solar. Os cristãos ortodoxos não aceitaram esse novo calendário gregoriano e ficaram com o antigo, juliano, e  a diferença entre os dois calendários é hoje de 13 dias. Assim há datas distintas entre a Páscoa judaica, que é na exata lua cheia, a católica e de reformados, no domingo seguinte, e a dos ortodoxos, que está 13 dias distante. Como ainda seguimos o calendário lunar em um calendário civil solar, a cada ano a data da Páscoa se torna móvel, entre 26 de março até 23 de abril. O papa Paulo VI queria propor uma data fixa de Páscoa entre 9 e 16 de abril para todas as Igrejas cristãs do mundo, incluindo os outros irmãos. Isso não avançou.
Tempo pascal, os 50 dias entre o Domingo de Páscoa e o Domingo de Pentecostes é um tempo de alegria e exultação, como se fosse um só dia de festa, ou melhor, “como um grande domingo”, no dizer de Santo Atanásio.




Fonte: FC ediçao 950-FEV 2015
Postado por: Família Cristã




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