A Ira

Data de publicação: 30/03/2015


O mais destrutivo dos pecados capitais, segundo teólogos, o ódio exacerbado afasta o homem de Deus e o torna inimigo de seu semelhante


Por André Bernardo
Fotos Danilo Maia

Você ainda se lembra da última vez que levou uma “fechada” no trânsito? E aí, como reagiu? Contou até dez e seguiu viagem, como se nada tivesse acontecido? Ou teve vontade de descer do carro e pular no pescoço do outro motorista? Nos últimos anos, dirigir numa cidade grande como Rio de Janeiro (RJ) ou São Paulo (SP) tornou-se um verdadeiro exercício de tolerância e mansidão. Só na capital paulistana, o Disque 190 da Polícia Militar recebe, em média, 70 chamadas diárias por briga de trânsito. Dessas, pelo menos 20 ocorrências acabam em socos e pontapés.
Perder a compostura no trânsito tornou-se algo banal, corriqueiro. É como se, ao volante, os motoristas pudessem tudo: desde gritar impropérios até fazer gestos obscenos. Mas não é só o trânsito caótico das grandes cidades que suscita sentimentos pouco nobres no ser humano. Em um mundo estressante como o  que vivemos, toda e qualquer situação, como uma fila no banco, uma reunião de negócios ou um almoço em família, pode desencadear um surto de raiva. Ou, quem sabe, algo pior.
“Os pecados capitais são sete porque traduzem na totalidade a humanidade decaída. Enquanto pecado capital, a ira é uma derivação do pecado original. Seu efeito, enquanto pecado, é reproduzir o gesto de Caim. Sob o efeito da ira, o indivíduo é levado a manifestar-se corporalmente contra seu próximo. Esta manifestação se traduz em violência física ou verbal. A ira faz o homem afastar-se de Deus, de si e dos outros”, alerta André Marcelo Machado Soares, doutor em Teologia pela Pontifícia Universidade Católica (PUC) do Rio de Janeiro.


“Pavio curto” − O Novo Catecismo ensina que, desde o início dos tempos, a cólera e a cobiça, consequências do pecado capital, sempre estiveram presentes no coração humano. O homem se tornou inimigo do seu semelhante. O próprio Deus expressa a atrocidade deste fratricídio: “O que foi que você fez? Ouço o sangue do seu irmão, clamando da terra para mim. Por isso você é amaldiçoado por essa terra que abriu a boca para receber de suas mãos o sangue do seu irmão” (Gn 4,10-11).
Os tipos irascíveis, aqueles que “explodem” por qualquer bobagem, já ganharam até apelido: “pavio curto”. Muitos deles nem imaginam, mas ataques de fúria podem caracterizar um transtorno chamado explosivo intermitente. Segundo a psicóloga Liliana Seger, do Ambulatório Integrado dos Transtornos do Impulso (Pro-AMITI), do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), um ataque repentino e não premeditado de fúria pode configurar transtorno explosivo intermitente.
E não é só isso: a reação violenta e intempestiva costuma ser desproporcional ao fato que a gerou. Exemplo: o motorista que chegou a quebrar o braço de um motoqueiro logo após levar uma “fechada” dele no trânsito de São Paulo. “Em geral, as pessoas popularmente chamadas de ‘pavio curto’ não conseguem conter seus impulsos agressivos, têm dificuldade para avaliar as consequências de seus atos e, logo após sofrerem os ataques de fúria e agressividade, tendem a demonstrar culpa, vergonha e arrependimento”, analisa Liliana.

Amor aos inimigos − Para aplacar a sanha dos irados, a sabedoria popular aconselha a contar até dez. Mas há quem não consiga, no calor da emoção, passar do número três. Contra a ira, o padre Jesus Hortal, doutor em Direito Canônico e professor de Teologia da Pontifícia Universidade Católica (PUC) do Rio de Janeiro, recomenda a boa e velha paciência. “Popularmente falando, os pecados capitais seriam como que uma boiada estourada que precisa ser reagrupada e levada ao bom caminho. No caso da ira, essa função caberia à paciência”, esclarece o teólogo.
No Sermão da Montanha, Jesus recorda o preceito “Não mate!” (Mt 5,21) e acrescenta a proibição da cólera, do ódio e da vingança. Aos discípulos ensina a oferecer a outra face, a amar os inimigos e a rezar por aqueles que o perseguem. No Jardim das Oliveiras, quando Pedro puxou da espada e cortou a orelha do empregado do Sumo Sacerdote, pede a ele que guarde a espada na bainha. “Todos os que usam a espada, pela espada morrerão” (Mt 26,52).

Ira santa? −
Mas, nem toda ira, por incrível que pareça, é merecedora de censura e maledicência. A ira é justa ou santa quando se indigna diante de uma injustiça ou opressão. Um bom exemplo disso é João Batista. A “voz que clama no deserto” não se cansou de recriminar os judeus de sua época: “Raça de cobras venenosas, quem lhes ensinou a fugir da ira que vai chegar?” (Mt 3,7). Outro é Paulo. Na Carta aos Romanos, ele chega a fazer um importante alerta: “A ira de Deus se manifesta do céu contra toda impiedade e injustiça dos homens” (Rm 1,18).
O próprio Jesus deu o exemplo de ira justa e santa quando expulsou os vendilhões do Templo. “Minha casa será chamada casa de oração. Mas, vocês fizeram dela uma toca de ladrões” (Mt 21,13). “É o zelo pela casa do Senhor que ‘devora’ Jesus”, justifica André Marcelo Machado Soares. Ou, então, quando censurou os fariseus hipócritas. “Vocês são como sepulcros caiados: por fora parecem bonitos, mas por dentro estão cheios de ossos de mortos e podridão!” (Mt 23,27).
Sobre o episódio da expulsão dos vendilhões do Templo, Jesus Hortal pede que as palavras de Jesus, “manso e humilde de coração”, jamais sejam esquecidas. “Se o Mestre falou ‘Felizes os mansos porque possuirão a terra’, Ele prometeu também ‘Felizes os que têm fome e sede de justiça porque serão saciados!’”, recorda o teólogo, citando o Sermão da Montanha (Mt 5, 1-12).










Fonte: FC edição 933- Set 2013
Postado por: Família Cristã




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