Dr. Umberto Veronesi

Data de publicação: 06/04/2015



Evandro Fontana 
O médico italiano Umberto Veronesi realizou sua primeira cirurgia no início dos anos 1950. Após várias pesquisas, tornou-se referência mundial ao propor a cirurgia conservadora para o câncer de mama, na década de 1970. Antes de sua descoberta, as mulheres eram submetidas à retirada da mama para ter alguma esperança de cura. A nova técnica de Veronesi passou a preservar o seio com a retirada apenas do tumor. 
A divulgação de seus artigos nas principais publicações científicas fez com que um grande número de médicos passasse a utilizar o novo método. Estima-se que cerca de 5 milhões de mulheres tenham sido salvas com sua descoberta revolucionária. Em 1994, Veronesi fundou o Instituto Europeu de Oncologia de Milão, considerado um dos principais centros de pesquisa e tratamento do câncer no mundo. No início dos anos 2000, foi ministro da Saúde da Itália e depois senador, gerando polêmica ao propor uma lei antifumo naquele país. Em 2003, criou uma fundação que leva seu nome e estimula a pesquisa na área da Saúde.
Autor de 780 artigos científicos e 12 tratados de Oncologia, aos 89 anos, Umberto Veronesi é hoje diretor científico emérito do Instituto Europeu de Oncologia. No seu escritório, em Milão, ele conversou com o jornalista Evandro Fontana sobre o que podemos esperar em relação à cura do câncer.

FC − A partir da sua experiência, quais são os principais resultados conseguidos para curar o câncer?
Umberto Veronesi −
Nós fizemos um grande progresso no campo do diagnóstico. Hoje podemos diagnosticar um tumor ainda muito pequeno em qualquer parte da mama e com várias opções de exames. Podemos, com a ressonância magnética, que examina todo o corpo simultaneamente, encontrar um nódulo minúsculo em qualquer parte do corpo. Isso é muito importante porque, no futuro, eu penso que todas as pessoas farão esse exame uma vez por ano para se prevenirem e evitarão fazer aqueles exames específicos, como mamografias, ecografias, ressonâncias etc.

FC − O senhor acredita que é possível obter a cura definitiva do câncer?
Umberto Veronesi −
Certamente. Penso que chegaremos à cura de todos os tumores. Porém, atenção. Curar, nesse caso, significa tratarmos adequadamente. Será difícil, porém, encontrar um medicamento que trate todos os tipos de câncer, porque são muitos. Existem 100 tipos diferentes de tumores, e cada um tem sua característica e biologia diversas. Há necessidade de uma série de fármacos diferentes para poder curá-los.

FC – Atualmente, quais são os índices de cura?
Umberto Veronesi −
Na Itália, colocados todos os tumores juntos, temos 65% de índice de cura. Porém, para certos tipos de câncer, temos índices de 90%, tais como o de mama, próstata, tireoide e talvez até mesmo de intestino.  Para outros, no entanto, temos índices bem mais baixos. Pulmão, por exemplo, nós curamos 50% dos casos. E os tumores do pâncreas e do cérebro, ao contrário, são muito resistentes.

FC − A respeito das metas para a diagnose precoce, o que podemos esperar?
Umberto Veronesi −
Atualmente, os meios de diagnóstico estão em evolução e conseguimos desenvolver muito todos os exames com meios radioisótopos. O PET-Scan, por exemplo, é uma Tomografia por Emissão de Pósitrons, os quais são capazes de captar onde se concentra uma quantidade superior de glicose ou radioativo.

FC − É verdade que uma dentre três pessoas vão ter câncer?
Umberto Veronesi −
Sim, hoje estamos nesse nível. Mas tememos que, no futuro, poderá ser uma em cada duas no transcurso da vida, naturalmente. O cálculo que se faz é que, há 50 anos, era uma pessoa a cada 30 que apresentava câncer. A vida era mais breve, mas existiam diferenças muito grandes.

FC − Quais as razões para estes índices tão altos nos dias de hoje?
Umberto Veronesi −
O prolongamento da vida, naturalmente, pois o câncer atinge sobretudo pessoas idosas e hoje vivemos mais, existindo mais riscos. Depois, o diagnóstico é seguro, pois não se faziam bons diagnósticos, e muitos tumores não apareciam nos exames. Enfim, praticamente desapareceram todas as outras doenças. Não se morre mais de doenças infecciosas. As degenerativas estão sob controle e, com isso, o câncer explode porque, talvez, seja a única doença importante. Também a Aids atualmente se controla.

FC − Que importância têm os alimentos para prevenir o câncer?
Umberto Veronesi −
Bem, pensamos e também temos dados de que uma dieta vegetariana protege porque contém muitas moléculas protetoras. As antocianinas, os flavonoides, o resveratrol e o carbinol são moléculas que protegem as nossas células. Então, existem também ações específicas, isto é, se um homem come tomates, que contêm licopeno, que é um retinoide, fica protegido do tumor de próstata.  Já se uma mulher come couve-flor, repolho e couve, que contêm indole 3 carbinol, é protegida do câncer de mama, e assim por diante.

FC − É verdade que 20% dos tumores são consequência da má alimentação e que a carne vermelha é cancerígena?
Umberto Veronesi −
A carne vermelha aumenta os tumores intestinais. Isso é comprovado. Nos países onde não se come carne, não existe câncer de intestino. A Índia é um exemplo. Onde se come muita carne há também muito risco de câncer intestinal.

FC − Quais relações existem entre o uso de anticoncepcionais hormonais e os tumores de mama e de útero ?
Umberto Veronesi −
Não existe nenhuma correlação negativa. Os anticoncepcionais fazem bem, porque previnem os tumores do ovário. Mas não são perigosos para a mama.

FC − Que importância tem a mamografia na prevenção do câncer de mama ?
Umberto Veronesi −
Pensamos que fazer uma mamografia por ano é uma ótima prevenção para mulheres acima dos 40 anos. Abaixo desta idade, funciona menos porque a mama é muito densa. Portanto, nesse caso, aconselhamos fazer uma ecografia mamária a cada seis meses.

FC − A cirurgia conservadora da mama foi uma revolução. Depois desta mudança que coisa poderá surgir?
Umberto Veronesi −
Aquilo que vai indo bem é a cirurgia reconstrutiva, porque nós conseguimos retirar uma parte bem menor da glândula mamária ainda com a minha descoberta nos anos 1970. Mas hoje, se o tumor é muito extenso, podemos retirar a glândula mamária e reconstruir a mama de maneira perfeita (procedimento conhecido como mastectomia).

FC − Quais as lições mais importantes que o senhor aprendeu nesses anos de trabalho?
Umberto Veronesi −
São de diversos tipos. Porém a mais importante é aquela de fazer funcionar o cérebro para ter novas ideias. Segundo, a perseverança. Se uma ideia é boa, você deve continuar, insistir, perseverar, mesmo que seja contra toda a coletividade.

FC − O senhor tem 89 anos. Pensa em se aposentar ou uma vida longa também depende de uma vida ativa?
Umberto Veronesi −
Eu penso que a nossa idade é a idade do nosso cérebro. Mesmo que o corpo perca um pouco da sua capacidade de atividade, até que o cérebro funciona, é isto que conta no mundo de hoje. É preciso ter ideias e desenvolvê-las.

FC − Quais são as contribuições do Instituto Europeu de Oncologia, que em 2014 celebrou 20 anos de fundação na luta contra o câncer?
Umberto Veronesi −
São muitíssimas. Antes de tudo, a genética foi muito desenvolvida. Temos laboratórios de Genética que são capazes de examinar as células tumorais, entender que tipos de genes foram alterados, a fim de prever não só os tratamentos ou o efeito desses tratamentos, mas também o prognóstico. Primeiro, a Genética. Depois, desenvolvemos muito as cirurgias conservadoras e as cirurgias robóticas, com os robôs. Temos novas ideias sobre o micro RNA, isto é um exame que procura no sangue os fragmentos RNA ou de DNA, se quisermos, que vêm exatamente do tumor para, então, fazermos um diagnóstico muito, mas muito precoce.

FC − Em relação à pesquisa para a cura do câncer e novos equipamentos, o que se pode esperar?
Umberto Veronesi −
A pesquisa vai em frente muito bem. A ciência é muito ativa. Infelizmente, temos obstáculos, porque são 100 tipos de câncer diferentes como falei. Então, o que funciona para um, não funciona para outro. É preciso começar pela célula-tronco, e isso é um problema muito complexo. Porém estamos indo em frente muito bem.

FC − Como o senhor pensa que deve ser a relação entre médico e paciente?
Umberto Veronesi − Eu i
nventei a Medicina da Pessoa. Não chamamos mais paciente, nem doente. Chamamos pessoas. Porque nós precisamos conhecer profundamente a pessoa doente que está em nossa frente. Por isso, usamos muito a Medicina Narrativa, isto é, o paciente é convidado a falar muito, a contar sobre sua vida. E o médico deve escutá-lo para compreender quem está na sua frente, com seus pensamentos, suas emoções, seus sentimentos, suas aspirações e suas frustrações. Esta é a pessoa que, se vier a ser conhecida bem, será tratada melhor.






Fonte: FC ediçao 950-FEV 2015
Postado por: Família Cristã




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