A preguiça

Data de publicação: 08/04/2015


Se você é daqueles que começa a ler uma matéria, até gosta do que lê, mas, na segunda ou terceira linhas, resolve deixá-la para depois, cuidado: você pode ser preguiçoso e não saber disso. De origem latina, a palavra preguiça quer dizer “indolência, moleza, negligência”. Ou em bom português: “enrolação!”.  Na fase escolar, a preguiça ganha ares de procrastinação. Procrastinador é aquele estudante que gosta de deixar tudo para a última hora. Adepto do lema “Ah, depois eu faço!”. O aluno procrastinador está sempre chegando atrasado ao colégio, nunca entrega os trabalhos no prazo estipulado e, para piorar a situação, só estuda para a prova na véspera dela. “Estudantes procrastinam por vários motivos. Mas o principal deles parece ser o medo do fracasso”, analisa o psicólogo canadense Joseph Ferrari, autor do livro Still procrastinating? (Ainda procrastinando?, em livre tradução).
Segundo pesquisa realizada em 15 países, entre eles Estados Unidos da América, Canadá e Inglaterra, 20% dos estudantes podem ser considerados procrastinadores crônicos. Para a psicóloga americana Jane Burka, coautora de Procrastionation: Why you do it, what to do about It now (Procrastinação: Por que você faz, o que fazer sobre isso agora, em livre tradução), pensar nas possíveis consequências da procrastinação, como ter que pagar uma multa em atraso ou, então, perder um prazo importante, é uma boa estratégia para se livrar dela. Outra técnica que costuma surtir efeito é dividir a tarefa em pequenas subtarefas e, se julgar necessário, estabelecer uma recompensa a cada subtarefa realizada. “Em geral, uma das maiores dificuldades é começar. Depois que você começa, tende a descobrir que a tarefa não é tão chata, difícil ou maçante quanto imaginava ser”, encoraja Jane.
Dos sete pecados capitais, quatro são chamados, tradicionalmente, de pecados contra o espírito. São eles: a soberba, a inveja, a ira e a avareza. Já a preguiça, a gula e a luxúria – os últimos, porém, não menos importantes – são considerados os pecados contra o corpo. Quer dizer, então, que, por causa daquele cochilo revigorante que se costuma tirar depois do almoço, é preciso procurar um padre para se confessar? Também não é bem assim. Afinal, o descanso é um direito de quem trabalha. “No sétimo dia, Deus descansou de todo o seu trabalho” (Gn 2,2). Até o Filho de Deus, Jesus, se permitia tirar um cochilo de vez em quando. Como no episódio em que a embarcação onde os discípulos estavam, no Mar da Galileia, foi castigada por uma tempestade. “Começou a soprar um vento forte, e as ondas se lançavam dentro da barca. Jesus estava na parte de trás, dormindo com a cabeça num travesseiro” (Mc 4,37-38).
Preguiça ou depressão? − A preguiça foi o último pecado capital a ser incorporado à lista do papa Gregório Magno, no século 6º. Em outras versões, como as de São João Cassiano, São João Clímaco e Santo Isidoro de Sevilha, o pecado que figurava entre os sete era a acídia. “A literatura monástica apresentava a acídia, também chamada de tristeza espiritual, como a tentação básica dos monges do deserto. Hoje, talvez pudéssemos qualificá-la, do ponto de vista psicológico, como depressão”, contextualiza padre Jesus Hortal, doutor em Direito Canônico e ex-reitor da Pontifícia Universidade Católica (PUC) do Rio de Janeiro.
Só no Brasil, 17 milhões de pessoas sofrem de depressão. No mundo inteiro, esse número pode chegar a 121 milhões, segundo estimativas da Organização Mundial da Saúde (OMS). Para o psiquiatra Wimer Bottura Júnior, da Associação Médica Brasileira (AMB), um dos sintomas mais evidentes da depressão é a inversão de prioridades. “As pessoas costumam dizer que fulano entrou em depressão porque quebrou a empresa. Na verdade, ele quebrou a empresa porque já estava deprimido”, exemplifica. Se ainda não há cura para a depressão, já se pode falar, ao menos, em controle dos sintomas. “Quando você tem um diagnóstico claro de depressão, é importante começar o tratamento quanto antes. Caso contrário, a tendência é só piorar o prognóstico”, alerta o psiquiatra Raphael Boechat, da Universidade de Brasília (UnB).
Afronta a Deus − Na vida espiritual, o indivíduo comete o pecado da preguiça quando não zela pelos dons que recebeu de Deus. Segundo frei Isidoro Mazzarolo, professor de Teologia da PUC do Rio de Janeiro, a preguiça é citada umas 20 vezes na Bíblia, 17 delas só no livro dos Provérbios.  Algumas dessas citações:“Vamos, preguiçoso, olhe a formiga, observe os hábitos dela, e aprenda” (6,6); “O preguiçoso não ganha seu sustento, mas o trabalhador se torna rico” (12,27); e “No outono, o preguiçoso não ara, e  na colheita procura e nada encontra” (20,4). Frei Isidoro explica: “Por ser à imagem e à semelhança do seu Criador, o ser humano recebe um dom e uma tarefa. O dom é a inteligência e a tarefa é o desenvolvimento dela. Gestar essa inteligência é um imperativo de proximidade com o seu Criador. A reflexão sapiencial entende que a omissão a esse empenho se torna um pecado”.
No Evangelho, o conceito de preguiça como pecado capital é corroborado na leitura de três parábolas: a das dez virgens (cf. Mt 25,1-13), a dos talentos (Mt 25, 14-30) e a do julgamento final (cf.Mt 25,31-46).  Na parábola dos talentos, o Senhor distribui seus dons de modo diferente. A cada um dá segundo sua capacidade. A uns deu cinco; a outros, dois; e a outros, um. Aos que confiou cinco talentos, pediu outros cinco. Aos que entregou dois, pediu outros dois. E aos que havia dado apenas um, era simplesmente mais um que eles deveriam ter produzido. “A preguiça torna-se um pecado quando alguém não quer, por ato livre de sua decisão, participar da solução e resolução de questões inerentes ao seu contexto. É uma afronta aos dons que cada um de nós recebe de Deus para aprimorar sua vida e construir em comunhão uma sociedade no amor”, afirma o teólogo.





Fonte: FC edição 934-Out 2013
Postado por: Família Cristã




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