O pecado da luxúria

Data de publicação: 13/04/2015

Quando o prazer sexual se torna moralmente desordenado, ocorre o pecado da luxúria, segundo teóloga, a virtude da castidade não é condição exclusiva de padres, freiras ou religiosos

A palavra luxúria deriva do radical latino luxus, que quer dizer “em excesso”. Dele, originam-se outras palavras, como luxo, “excesso de ostentação”; ou luxação “estiramento de um órgão”. Para Maria Clara Lucchetti Bingemer, professora do Departamento de Teologia da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), todo e qualquer pecado capital esconde em seu íntimo a idolatria. Trata-se de divinizar e absolutizar o que é relativo, colocando-o no lugar de Deus. No caso da luxúria, “trata-se de reduzir o outro a um objeto através do qual eu procuro saciedade para meus desejos e que abandono uma vez que estes desejos se encontram saciados”.
Organizadora do livro Pecados, em parceria com Eliana Yunes, Maria Clara Lucchetti Bingemer define a luxúria como “enlouquecimento do desejo”. Ela explica que, no Antigo Testamento, são poucas as alusões feitas ao pecado que dizem respeito diretamente à sexualidade humana. No Novo Testamento, ao contrário, as alusões à luxúria são mais explícitas. O Evangelho de Marcos, por exemplo, coloca nos lábios de Jesus uma lista de pecaminosidades que poluem a vida humana e a torna impura. “É de dentro do coração das pessoas que saem as más intenções, como a imoralidade sexual, roubos, crimes, adultérios, ambições sem limite, maldades, malícia, devassidão, inveja, calúnia, orgulho e falta de juízo” (Mc 7,21-22).

“Puros de coração” − Mas, se a luxúria polui a vida do homem, a castidade purifica. Não por acaso, a sexta bem-aventurança proclama: “Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus” (Mt 5,8). Segundo o Catecismo da Igreja Católica, puros de coração são aqueles que entregam o coração e a inteligência às exigências da santidade de Deus. E, entre essas exigências, está a castidade. “A castidade é dom, graça e presente de Deus. É por isso que dizer que não temos controle sobre nossos impulsos, desejos e paixões é uma falácia. Sim, temos controle sobre eles”, assegura Cássia Quelho Tavares, professora do Departamento de Teologia da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro.
Todo e qualquer batizado é chamado à castidade. “A virtude da retidão sexual não é condição exclusiva de padres, freiras ou religiosos. Todos os fiéis são chamados a levar uma vida casta segundo seu chamado vocacional”, completa Cássia, antes de fazer um alerta a pais e educadores: é importante que a virtude da castidade seja construída desde cedo. Daí a necessidade de resgatar valores esquecidos, como respeito, família e matrimônio. “Temos que apresentar a ética de Jesus Cristo às crianças. O fenômeno da iniciação sexual está cada vez mais precoce. E isso é grave. O sexo ainda é um tabu que precisa ser discutido com carinho, cuidado e atenção”, pondera.
A virtude da castidade, ensina o Catecismo da Igreja Católica, deve ser comandada pela virtude cardeal da temperança. Entre outras façanhas, a temperança modera a atração pelos prazeres, assegura o domínio sobre os instintos e mantém os desejos dentro dos limites da honestidade. É uma virtude tanto louvada no Antigo Testamento – “Não siga suas paixões. Coloque freio nos seus desejos. Se você permite satisfazer a paixão, ela tornará você motivo de zombaria para seus inimigos” (Eclo 18,30-31) – quanto no Novo Testamento – “A graça de Deus nos ensina a abandonar a impiedade e as paixões mundanas, para vivermos neste mundo com autodomínio, justiça e piedade” (Tt 2,12).

Dependência sexual − No Brasil, algumas instituições de saúde pública podem ser consideradas importantes aliados na luta contra o “prazer sexual moralmente desordenado”. É o caso do Programa de Orientação e Atendimento a Dependentes (Proad), da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), que iniciou suas atividades em 1994, como parte de um projeto-piloto para o tratamento de dependências não químicas. Ou, então, do Ambulatório dos Transtornos do Impulso (PRO-Amiti), do Instituto de Psiquiatria (IPq), do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP (HCFMUSP), que, desde 2005, atende a portadores de transtornos impulsivos.
Quem sofre de impulso sexual excessivo – mal que, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), atinge 420 milhões de pessoas no mundo inteiro, 11 milhões delas só no Brasil – costuma se referir ao sexo como se fosse uma droga. Dessas que, a exemplo do álcool e da cocaína, entre outras, exigem doses cada vez mais altas e intervalos cada vez menores. A comparação procede. Afinal, o prazer sexual ativa no cérebro o mesmo circuito de prazer que as drogas. E, como elas, libera a mesma substância neurotransmissora, a dopamina, famosa por despertar no indivíduo uma indescritível sensação de relaxamento e bem-estar.
Por isso mesmo, a entidade Dependentes de Amor e Sexo Anônimo (Dasa), grupo de ajuda mútua que existe há 37 anos nos EUA e 20 no Brasil, segue a mesma filosofia dos Alcoólicos Anônimos (AA). Em sessões batizadas de “partilhas”, os membros admitem a dependência, trocam experiências e, baseados em um programa de 12 passos, estabelecem estratégias para enfrentar o vício. Só por hoje, eles lutam para evitar recaídas. “Quando cheguei ao Dasa, não entendia o que se passava comigo. Na época, buscava padrões sexuais que iam contra os meus valores morais e isso me causava muita dor e solidão”, recorda R., o atual presidente do Dasa no Brasil.
Sóbrio há 19 anos, R. afirma que, em todo o Brasil, existem 37 grupos do DASA, espalhados por 16 estados. Cada um recebe, em média, cerca de 30 pessoas por mês, entre jovens, idosos, solteiros e casados. “A nossa dependência não escolhe um tipo específico”, observa. Volta e meia, um astro de Hollywood anuncia publicamente que é compulsivo sexual. Os atores Jack Nicholson, Michael Douglas e David Duchovny foram alguns deles. “O DASA acredita que a dependência de amor e sexo é uma doença, uma doença progressiva que não pode ser curada, mas que pode e deve ser detida e controlada”, afirma o presidente da entidade no Brasil.





Fonte: Familia Crista ed. 935
Postado por: Família Cristã




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