Comer com fé

Data de publicação: 22/04/2015

César Vicente
As regras da alimentação kasher não são difíceis de entender se levarmos em conta que os judeus acreditam que o alimento nutre não apenas o corpo, mas também a alma

Somos o que comemos. O leitor já ouviu alguma vez essa máxima sem conhecer sua origem e seu significado, pois agora vai conhecer ao menos em parte: trata-se de um princípio da comida kasher – leia mais na seção Culinária –, ligada às tradições judaicas desde os tempos remotos. Segundo o rabino da Congregação Israelita Paulista (CIP), Ruben Sternschein, doutor em Filosofia Judaica pela Universidade Hebraica de Jerusalém (Israel), uma regra bíblica diz que alguns dos animais permitidos ao consumo humano são os ruminantes de cascos fendidos e os que não têm essa propriedade são interditados. Seria o caso típico do porco, que, apesar de não ser ruminante, têm o casco fendido. “Simbolicamente, seu consumo corresponde a uma impureza, pois sua aparência não condiz com seu interior. Uma explicação mais ética aponta que o porco representa a traição, porque por fora mostra ser puro, por ter o casco fendido, e por dentro impuro, por não ser ruminante. E como somos o que comemos, não podemos consumir algo que nos engana”, aprofunda-se o rabino.
Entre as poucas carnes vermelhas permitidas na alimentação kasher, estão as de vaca, carneiro e cervo. Difícil de entender? Nem tanto se levarmos em conta que os judeus – como milhões de outras pessoas ligadas ou não a alguma fé – acreditam que o alimento nutre não apenas o corpo, mas a alma. Outro ponto interessante para a comida kasher está no fato de ela se assemelhar ao vegetarianismo e só não ser absolutamente isenta de carnes por reconhecer a fraqueza humana diante da nossa incapacidade – ao menos, da maioria dos seres humanos – de resistir à tentação de consumir esses alimentos. “A kasher pode ser entendida como uma concessão diante do ideal vegetariano. Quando você lê nossas regras em um contexto bíblico, fica claro que o ideal seria se o homem fosse vegetariano e não consumisse nenhum animal. Mas, como a maioria de nós não é capaz disso, a kasher propõe reduzir ao máximo o sofrimento dos animais consumidos. Assim, seguimos uma técnica de abatimento rápida e menos penosa possível. Os abates, por exemplo, são com facas extremamente afiadas, e o processo é supervisionado por profissionais longamente preparados”, completa o rabino Sternschein.

Benefícios – Entre as aves também não são permitidas as de rapina, ao contrário dos domésticos frango, peru, ganso, faisão e pato. E não é difícil entender o motivo, uma vez que as aves de rapina são agressivas e predatórias. “A ave de rapina representa uma atitude violenta e agressiva, enquanto as demais aves, permitidas ao nosso consumo, como as domésticas, têm um comportamento mais tranquilo”, diferencia o líder religioso. Com os peixes, as restrições são menores, pois, a partir das observações judaicas, aparentemente esses animais seriam menos sensíveis às dores provocadas pelas intervenções humanas. Ainda assim são permitidos somente os pescados com escamas e barbatanas, como o arenque, salmão, pintado, bacalhau e atum. E as razões podem ser conferidas no capítulo 14 do Livro do Deuteronômio, que entende que nenhum crustáceo  deve ser kasher ou permitido. “Comereis de tudo que há nas águas: tudo que tem barbatanas e escamas comereis; e tudo o que não tem barbatanas e escamas não comereis; é impuro para vós.”
Outro preceito fundamental da comida kasher é jamais misturar o leite e seus derivados à carne, ao menos nas mesmas refeições. Trata-se de algo enfatizado explicitamente na Torá, a lei mosaica. “Não cozerás um cabrito no leite de sua mãe” (Ex 23,19). Na prática, os dois alimentos não são exatamente proibidos, apenas não devem ser consumidos em um intervalo menor de seis horas. “Mesmo louças, talheres e outros utensílios empregados no preparo desses alimentos entram nesse conceito”, complementa o chefe de cozinha do Hospital Israelita Albert Einstein, de São Paulo (SP), Samir Quaresma Moreira. Ao contrário do que possa parecer, a restrição é salutar. “Sabe-se que o leite prejudica a absorção do ferro – um dos elementos da carne – proveniente dos alimentos pelo organismo”, explica a nutricionista Luci Uzelin, coordenadora de Nutrição do Albert Einstein. Em relação aos frutos do mar não permitidos, há, ainda, benefícios inesperados. As barbatanas e as escamas dos peixes permitidos funcionam como barreiras a toxinas como o mercúrio, que contaminam o alimento.

Modernidade? – Segundo o rabino Sternschein, a lei mosaica tem vários valores e princípios absorvidos ao longo de séculos pelo povo judeu que se viu comprometido por essas regras não só alimentares, mas também por regras suas sociais, civis e éticas. O que não significa que, a exemplo de todos os demais valores tradicionais do mundo contemporâneo – incluindo os cristãos –, estejam imunes à influência da modernidade. “Também no judaísmo a manutenção de algumas tradições pode ser minoritária. Por outro lado é difícil dizer que a maioria não respeita as tradições. Diria que as pessoas conservam algumas, talvez muitas. Mas, como em todos os segmentos, há aquelas que as mantêm mais e outras que as mantêm menos”, pondera.




Fonte: FC ediçao 951-MAR 2015
Postado por: Família Cristã




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