Mais útil que o útil

Data de publicação: 21/05/2015

Para que serviria discorrer sobre a arte e a espiritualidade e tentar compreendê-las a partir de seus pontos de contato?  Arte e espiritualidade: o caráter indispensável do impalpável



Texto Clovis Salgado Gontijo *   
Arte Sergio Ricciuto Conte *  

Ao ser convidado para compor, para a Revista Família Cristã, uma espécie de “itinerário” espiritual, senti que poderia contribuir especialmente com reflexões que entrelaçassem a arte e a espiritualidade, áreas com as quais me encontro bastante envolvido, tanto no âmbito existencial quanto no acadêmico. Constato, pelas minhas pesquisas, que esse entrelaçamento se revela consideravelmente fecundo para uma abordagem de ambas as áreas. Somente por uma experiência que inclua em sua essência o mistério transbordante lançamos luzes sobre outra também inscrita no registro do inefável. Uma chave lógica, apta a classificar o que pode ser definido e medido com clareza, não nos serviria para abrir as portas da experiência estética e espiritual, tarefa a que uma perspectiva mais mística e poética seria capaz de nos aproximar, ainda que pela abertura de pequenas frestas.
A fim de iniciar esta série de artigos, valeria perguntar: Para que serviria discorrer sobre a arte e a espiritualidade e tentar compreendê-las a partir de seus pontos de contato? Naturalmente, essa proposta pressupõe que as experiências artística e espiritual sejam relevantes, proveitosas para o ser humano. Pressuposto óbvio para o leitor religioso, ao menos no que se refere à importância e à necessidade do espiritual em seu cotidiano... Entretanto, não é raro que a arte e a espiritualidade sejam tidas, ainda em nossos dias, como dispensáveis e inúteis.
Como se justifica tal inutilidade, que revela, embora de maneira negativa e preconceituosa, a presença de elementos comuns entre essas esferas? Comecemos pela arte. Em célebre passagem de A República, Platão, pela voz de Sócrates, recomenda que a poesia seja excluída da pólis por ele projetada. A arte poética (imitativa), a cujos encantos não é insensível o filósofo, só seria admitida se comprovado que ela “é não só agradável, como útil para os Estados e a vida humana” (A República, livro X, 603a-b). Nesse contexto, o que busca Platão e o que a poesia parece incapaz de proporcionar é um proveito para a formação do cidadão e do homem teórico, orientado à verdade e ao plano inteligível. A inutilidade da arte se mantém para o senso comum, por um motivo que em certa medida também participa da polêmica posição platônica. A atividade artística inscreve-se à margem de finalidades “práticas”, não cria objetos diretamente vinculados com a sobrevivência ou com o progresso técnico da espécie humana, crítica que, curiosamente, também seria aplicável à filosofia. É nesse sentido que, no prefácio de O retrato de Dorian Gray, Oscar Wilde afirma, numa espécie de eco irônico ao senso comum: “Toda arte é absolutamente inútil”.

A arte − Algo semelhante poderia ser dito da espiritualidade. Pensemos na vida contemplativa: com exceção dos produtos expostos nas prateleiras da loja de um mosteiro, os frutos do cotidiano de um monge são bastante impalpáveis. O ora é bem menos concreto que o labora e, por isso, poderia ser interpretado como atividade prescindível. O caráter abstrato do espiritual também se sente na dificuldade experimentada pelo místico em relatar sua aproximação ou união com o divino. Sua linguagem aproximada, metafórica, paradoxal e subjetiva foge aos ensinamentos ortodoxos, claros e precisos, portadores de uma matéria “consistente”. Assim, em sintonia com o artístico, o espiritual também parece se distanciar de um proveito utilitário, material e pedagógico.
Contudo, essas impressões, tão arraigadas em nossa cultura, podem ser facilmente desfeitas e, até mesmo, invertidas. No início deste ano, numa viagem a São José do Rio Pardo, essa possibilidade de inversão se revelou a mim de modo bastante evidente, no que diz respeito à experiência artística. Foi nessa cidade do interior paulista que Euclides da Cunha escreveu a maior parte de Os Sertões. A escrita se deu enquanto supervisionava, do seu “escritório de zinco e sarrafos”, a construção da ponte metálica que ligaria as margens do Rio Pardo. Quando visitei a cidade, a ponte estava parcialmente coberta, em reforma, e imaginei que tivesse desabado, como ocorrera logo após sua inauguração, enquanto Euclides cobria a Guerra de Canudos para o jornal O Estado de S. Paulo. Percebi que uma obra tão sólida, representante das exigências de progresso e utilidade, poderia ser mais frágil que a obra imaterial, literária do escritor, que permanece intacta, sem precisar de reparos, e, hoje traduzida aos mais diferentes idiomas, estabelece extensas pontes entre nações remotas e a cultura brasileira.

A espiritualidade − No âmbito espiritual, a mesma inversão pode se realizar. O próprio apóstolo Paulo a sugere, ao opor a lógica do mundo à lógica própria ao seguimento do Cristo. Enquanto a primeira só encontra despropósito na prática e na conduta espiritual, a segunda, exaltando “o que não tem nenhuma serventia”, denuncia “a inutilidade do que é considerado importante” (cf 1Cor 1,28). Também incluímos, como exemplo dessa inversão, a força atribuída à prece, que desponta como o único recurso nos momentos em que todos os “úteis” (dinheiro, influência, tratamentos) demonstram sua total inutilidade.
Em termos objetivos, o que sustenta, por sua vez, tais inversões? De maneira sintética, podemos dizer que tanto a arte quanto a espiritualidade se mostram como o que há de mais proveitoso e necessário para a vida na medida em que lhe conferem sentido, seja no nível individual, seja no coletivo. Paradoxalmente, este não poderia ser encontrado nas coisas mais palpáveis e definíveis, um tanto limitadas para a insaciável sede humana. Nietzsche defende, em O nascimento da tragédia, que somente pelo contato com a autêntica arte trágica, ou seja, pela conversão do fundo trágico da existência em obra de arte, somos capazes de suportá-lo e afirmar a vida. Já para o ser humano religioso, é preferencialmente pelo horizonte da fé que se torna possível interpretar, acolher e construir a própria história.
Concluindo, acredito que muitos dos que se dedicam de corpo e alma à arte e à espiritualidade tenham a consciência ou ao menos a intuição de que suas práticas lidam com um sentido fundamental. Por isso, movidos por uma irrefreável necessidade interna, abraçam uma vida muitas vezes construída à margem do mundo “produtivo”. Com essas considerações, não pretendo dizer que o convencionalmente útil perca sua função diante do reconhecimento das experiências que nos trazem um sentido maior. Não obstante, deixa de ser supervalorizado, de ser, como adverte São Paulo, motivo de vanglória, uma vez que o tratamos de acordo com sua real medida de instrumento. E nessa reavaliação do que seja supostamente útil e inútil, em que o belo, o artístico e o espiritual se revelam, parafraseando Victor Hugo, em Os miseráveis, “tão úteis quanto o útil” ou “talvez ainda mais”, deparamo-nos com o caráter indispensável das áreas pelas quais vamos daqui para frente caminhar...

* Clovis Salgado Gontijo tem formação em Música, Bacharel em Pian em Filosofia. Doutor em Estética pela Faculdade de Artes da Universidade do Chile, dedica suas pesquisas ao pensamento de Vladimir Jankélévitch, à Filosofia da Música e às relações entre a Mística e a Estética. Desde 2011, é professor assistente da Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (Faje), em Belo Horizonte.

* Sergio Ricciuto Conte é formado em Arte, Filosofia e Teologia. Assinou pinturas em várias cidades da Itália e do Brasil. Atualmente é envolvido em projetos de arte para espaços litúrgicos, assim como na ilustração infantil e editorial, www.sergioricciutoconte.com.br

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Certas coisas
A arte e a espiritualidade não se restringem ao que pode ser traduzido em conceitos universais e precisos, ao que possui sentido único e delimitado...

Balbuciando o inefável
A arte se entrelaça com a espiritualidade como um dos meios capazes de comunicar, de modo mais penetrante, o inexprimível que envolve a experiência humana

O sagrado e o sublime
A alma humana tem sede do sublime, assim como é sedenta do sagrado, para o qual tende como quem busca retornar à sua fonte

Cheias de graça
Na espiritualidade cristã, a graça também se liga à espontaneidade e à simplicidade e parece se manifestar especialmente numa figura feminina

Nas asas da canção
Uma vez contempladas as regiões mais profundas ou brilhantes do mundo...

Escuridões luminosas
Assim como na prece, a audição musical se exerce de modo mais profundo e concentrado a olhos fechados

Um minuto para o silêncio
Sinal de humildade, oferta e abandono, esta a abertura silenciosa se aprofunda de maneira significativa quando nos colocamos diante do absolutamente Outro

Atitudes desinteressadas
Traço distintivo da contemplação do belo ou controverso ideal para o cristão, o tema do desinteresse perpassa a estética e a espiritualidade

Vias negativas
Diante do belo e do artístico negar é afirmar o potencial inesgotável e profundo do que se busca

Percepções imateriais
Anterior às criaturas, ao tempo e ao espaço, Deus parece transcender o reino da matéria. Acima da nossa imaginação e intelecto, não podemos capturá-lo ou contê-lo

Transcendendo o tempo
As experiências espiritual e estética podem se oferecer como vias capazes de descolar, ainda que de modo passageiro, de uma vivência mais corriqueira da temporalidade




Fonte: Familia Crista ed. 947 novembro de 2014
Postado por: Família Cristã




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