Escuridões luminosas

Data de publicação: 29/06/2015

Assim como na prece, a audição musical se exerce de modo mais profundo e concentrado a olhos fechados

Crédito Clovis Salgado Gontijo *    
Arte Sergio Ricciuto Conte * 

Em A Música e o Inefável, o pensador contemporâneo Vladimir Jankélévitch afirma que, para ouvirmos as “vozes interiores da reflexão”, devemos escurecer o ambiente, assim como nos silenciar. Essas duas modalidades de privação, tanto de luz, quanto de som, não são buscadas apenas pelo filósofo. Quando se quer falar com Deus, constata-se a necessidade de “ficar a sós”, de “apagar a luz” e de “calar a voz”. Necessidade algumas vezes partilhada por aquele que pretende criar e apreciar uma expressão de beleza.
Reservando para o próximo artigo a abordagem do silêncio, pincelaremos aqui algo sobre a positividade espiritual e estética do obscuro, tema que se entrelaça com a noite, objeto de estudo da minha tese de doutorado.

A positividade mística do obscuro − No plano da mística cristã, a valorização da escuridão e da noite remonta à patrística e recebe possíveis influências, no caso de São João da Cruz, da simbologia islâmica. Ao lado do deserto, a escuridão (noturna) aparece, na nossa tradição espiritual, como um dos principais cenários do esvaziamento que nos coloca em simultâneo contato com o íntimo de nós mesmos e com o Único Absoluto. No entanto, uma diferença essencial separa esses dois símbolos. Se o deserto, na sua configuração diurna e excessivamente luminosa, nos convida a experimentar visualmente o mundo despovoado de formas, a noite escura convoca sentidos não visuais. Assim, a percepção no obscuro se torna apta a evocar o contato com uma divindade que, embora não possua imagem (cf. Ex 20,4-5) nem se manifeste clara e diretamente aos olhos (cf. Ex 33,19-20; Jo 1, 18; 1Jo 4, 12), ainda pode ser ouvida (cf. Dt 5,22-24).
Além de conjugar a propensão à escuta com o seu pré-requisito, a saber, o desprendimento em relação às percepções mais imediatas e supérfluas, o obscuro ainda remete à morada do Criador. Sobre esta afirma o salmista: “Fez das trevas o seu lugar oculto: o pavilhão que o cercava era a escuridão das águas e as nuvens dos céus” (Sl 18,12). Também sabemos que a fim de se comunicar com o Senhor, Moisés “aproximou-se da nuvem escura, onde Deus estava” (Ex 20,21). Em certo sentido, talvez o habitat divino seja obscuro não em si mesmo, para o ser humano incapaz de apreender pelos sentidos e iluminar pela razão o que envolve a Realidade Absoluta. Desse modo, a escuridão, assim como o silêncio, surge como signo do inefável. E, para comunicar a obscuridade que circunda o Sumo Incognoscível, o místico, quando não se cala, tende a valorizar, como já mencionamos em “Certas coisas”, artigo publicado na edição de dezembro de 2014, nº 948 da Revista Família Cristã, uma linguagem algo obscura, capaz de apontar a um registro para além dos limitados predicados, separações e oposições com os quais lidamos habitualmente. Como expressa Pseudo-Dionísio, a realidade divina apresenta-se a nós como “trevas mais que luminosas do silêncio”, conciliação entre opostos que o espetáculo natural de uma noite luminosa parece nos antecipar.
Em certa medida, também exemplifica a conciliação dos opostos a união erótica entre o masculino e o feminino, que encontra na escuridão noturna privilegiado cenário de concretização. Transposta na mística como fusão entre o humano e o transcendente, é tal união noturna que permite ao santo-poeta da Noite Escura exclamar, quase subversivamente: “Oh, noite mais amável que a alvorada, oh, noite que juntaste amado com amada, amada já no Amado transformada!”.

A positividade estética do obscuro −
Considerando a acepção mais ampla do termo estética, como referente ao registro da percepção sensível, não é difícil concluir, pelos pontos extraídos da mística, que o obscuro também revela a sua riqueza à pura sensibilidade. Basta recordar que, na escuridão noturna, os amantes experimentam o tato em acrescida intensidade, assim como cada um de nós se torna capaz de identificar sons que permaneceriam esquecidos se emitidos em meio às múltiplas distrações visuais proporcionadas pelo ambiente diurno e luminoso.
Se a escuridão permite ao fiel ouvir uma voz suprassensível, como Samuel surpreendido nas horas noturnas pelo chamado divino (cf. 1Sm 3,1-10), ela também permite ao ouvinte musical apreciar, com maior acuidade, uma composição cuja “matéria” é invisível. Enquanto na contemplação de uma pintura precisamos manter a luz acesa e os nossos olhos bem abertos, na apreciação musical podemos prescindir tanto do elemento luminoso quanto da visão. Assim como na prece, a audição musical se exerce de modo mais profundo e concentrado a olhos fechados. Esse processo não foi esquecido por compositores contemporâneos, que, nas suas performances eletroacústicas, mergulham o ouvinte na penumbra que obscurece a fonte sonora.
Curiosamente, também a pintura pode valorizar o obscuro, sobretudo quando possui proposta espiritual. Como “não ver é a verdadeira visão”, papa Gregório de Nissa, a obscuridade que recobre as telas de Rembrandt poderia sugerir um espaço de intimidade e de mistério inalcançável aos olhos e a qualquer órgão dos sentidos. Além disso, a necessidade constatada pelo místico de se afastar das imagens externas e de amortecer uma sensibilidade superficial é, em certas circunstâncias, partilhada pelo pintor que busca expressar uma vivência menos óbvia, extraída do seu mundo onírico ou de nova lógica por ele mesmo criada.
É, portanto, dentro dessa dinâmica que proporciona ricas compensações sensoriais e a superação da previsibilidade do mundo exterior que Picasso recomenda, não sem ironia: “Deveriam perfurar os olhos dos pintores, como se faz com os pintassilgos para que cantem melhor”. E, cerca de um século antes, o pintor romântico Friedrich nos permite complementar a recomendação, dirigindo-se ao artista acometido pela cegueira, dom das musas ao poeta: “Faz com que se manifeste no dia o que viste na tua noite, para que a sua ação se exerça, em troca, sobre outros seres, do exterior ao interior”.
Não é isto o que também efetua o místico quando, nos seus relatos, se propõe a nos comunicar algo do que se passa no fundo escuro da sua alma, conduzindo-nos às nossas próprias profundidades? Invertendo, além do senso comum, uma tendência filosófica e religiosa predominante que tantas vezes denegriu a noite e a obscuridade, muitos místicos e artistas se encontram, ao fazer seu o paradoxal pensamento de Manoel de Barros: “Só o obscuro nos cintila”...

* Clovis Salgado Gontijo tem formação em Música, Bacharel em Pian em Filosofia. Doutor em Estética pela Faculdade de Artes da Universidade do Chile, dedica suas pesquisas ao pensamento de Vladimir Jankélévitch, à Filosofia da Música e às relações entre a Mística e a Estética. Desde 2011, é professor assistente da Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (Faje), em Belo Horizonte.

* Sergio Ricciuto Conte é formado em Arte, Filosofia e Teologia. Assinou pinturas em várias cidades da Itália e do Brasil. Atualmente é envolvido em projetos de arte para espaços litúrgicos, assim como na ilustração infantil e editorial, www.sergioricciutoconte.com.br


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Fonte: Familia Crista ed. 953/Maio de 2015
Postado por: Família Cristã




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